
Longe da pressa e da impessoalidade do mundo hiperconectado, a música da cantora e compositora espanhola Sílvia Pérez Cruz, 43 anos, convoca para outro tempo de fruição, mais lento e contemplativo.
Por vezes meditativas, por vezes vibrantes, suas interpretações a tornaram uma das vozes mais singulares da música contemporânea, seja interpretando suas próprias canções, seja reinventando obras de outros autores.
A artista tinha apresentação em Porto Alegre marcada para esta quarta-feira (2), mas o show "precisou ser cancelado por motivos de saúde da artista".
Nascida em uma família de músicos na Catalunha, Sílvia foi cofundadora do grupo Las Migas e lançou-se em carreira solo em 2012, com influências que passam por flamenco, jazz e música clássica. Entre seus discos fundamentais estão Vestida de Nit (2017) e Toda la Vida, un Día (2023).
No final de 2025, um novo público a descobriu por causa de sua parceria com o fenômeno pop Rosalía e com Estrella Morente em La Rumba del Perdón, faixa do álbum Lux, de Rosalía.
Sua relação com a música brasileira é um capítulo à parte. Já gravou clássicos como Sampa, Carinhoso e Asa Branca, cantando em português, e colaborou com nomes como Toquinho, Hamilton de Holanda, Maria Gadú e Liniker.
Novo disco tem faixas em português
Com uma trajetória marcada por esse olhar generoso para a diversidade musical do mundo, Sílvia vem apresentar seu mais recente disco, Oral_Abisal, lançado em maio último.
As canções autorais do novo trabalho operam entre o familiar (o eixo "oral") e o desconhecido (o eixo "abissal"), entre o palpável e o sonho. Duas nasceram no Rio de Janeiro: É Triste Viver Sem Seu Amor, bossa em português de sua autoria, e Gelando, composta e gravada com o brasileiro Jota.pê, com letra bilíngue espanhol/português.
Ambas devem estar no show em Porto Alegre, que terá uma mistura de faixas novas e outras que a seguem em sua carreira, como Pequeño Vals Vienés e Mechita. Ela estará acompanhada no palco por uma formação acústica composta por Marta Roma (violoncelo, trompete e backing vocals), Bori Albero (contrabaixo e backing vocals) e Carlos Montfort (violinos, percussão, trompete e backing vocals).
Na entrevista a seguir, a cantora e compositora explica como encontrou sua identidade artística, como desenvolveu sua curiosidade pela música do mundo e como se encantou por Estrela, Estrela, de Vitor Ramil, que ela gravou em 2020.
Leia a entrevista com Sílvia Pérez Cruz

Ao ouvir seus discos, nota-se que você tem uma variedade muito grande de influências, que vão da música de câmara a Radiohead. Como desenvolveu esse ouvido tão amplo, que é uma postura generosa com a diversidade musical do mundo?
Realmente, sou tão apaixonada pela música, por sua beleza infinita e pelo amparo que ela oferece que é difícil para mim separar a música por estilos. Claro que aprendi com cada um deles, pelo menos com os estilos com os quais cruzei.
Assim como vamos construindo nossa personalidade a partir de traços de diferentes pessoas, eu tento criar minha própria linguagem utilizando linguagens que aprendi pelo mundo.
Esse ponto de vista é influenciado por sua família, que é de músicos?
Creio que essa visão da beleza foi algo que meu pai me deu. Ele me ensinou a olhar o mundo e a entender o que um belo cenário compartilha com uma canção, uma pintura, uma dança ou um gesto.
Meu pai também viajou para Havana em busca de canções perdidas para formar um arquivo a partir delas. Ele tinha um enorme desejo de aprender com a beleza do mundo. E isso, sem dúvida, é algo que me faz muito feliz: aprender com as pessoas e com os lugares que vou conhecendo para expressar as emoções que sinto.
Aprendi a cantar melhor em catalão (sua língua materna) depois de cantar em português brasileiro.
SÍLVIA PÉREZ CRUZ
Cantora e compositora espanhola
Você canta em catalão, espanhol, português, francês e inglês. Existe alguma emoção ou nuance musical que só consegue acessar em determinadas línguas?
Cada língua tem uma melodia, uma atitude. Ao compor, dependendo do idioma, você pode potencializar uma atitude ou outra, uma forma mais clara, mais direta, mais suave, dependendo do que você precise. E, claro, surgem emoções diferentes também.
Minha língua materna é o catalão, mas aprendi a cantar melhor em catalão depois de cantar em português brasileiro. Isso porque o catalão tem muitos monossílabos, é mais seco, enquanto o português brasileiro tende a unir as palavras com suavidade, como se fosse um movimento de cintura. Isso me fez cantar diferente minha própria língua.
Já o castelhano me leva a uma força muito potente, muito concreta, que vem das entranhas. Com as zambas argentinas, por exemplo, eu me permito acessar outras emoções, mais profundas e mais livres.
('Estrela, Estrela', de Vitor Ramil) Me impactou de tal forma que, anos depois, quis gravá-la.
SÍLVIA PÉREZ CRUZ
Cantora e compositora espanhola
Certa vez, você comentou em uma entrevista que demorou para gravar a linda canção "Vestida de Nit", composta por seus pais. Poderia falar sobre como elaborou sua interpretação dela?
Vestida de Nit é uma canção que deve ter a minha idade, cerca de 40 anos. A letra (em catalão) é da minha mãe, Glòria Cruz, e a música é do meu pai, Càstor Pérez. É uma canção que ouvi a vida inteira, mas à qual eu não dava muita atenção. Cantar em casa era a melhor forma de nos comunicarmos.
Depois, saí do povoado (Palafrugell, na Catalunha, Espanha, onde nasceu) para Barcelona, e foi só aos 27 anos que me convidaram para cantar em um evento realizado na praia do meu povoado dedicado a habaneras (Cantada d'Havaneres de Calella de Palafrugell). Decidi interpretar, entre outras músicas, Vestida de Nit. O show foi transmitido pela televisão e teve bastante repercussão.
A partir daí, começou uma nova vida para essa canção. Ela se transformou no meu refúgio, como se eu carregasse meus pais comigo, como um caracol que leva sua casa nas costas. Até chegar a dar nome a um disco que gravei com um quinteto de cordas (em 2017). É muito bonito ter canções feitas pelos seus pais.
O disco ao vivo "M.A. Live in Tokyo" (2020), gravado em parceria com o pianista e compositor espanhol Marco Mezquida, começa com a canção "Estrela, Estrela", de Vitor Ramil. Como você conheceu essa música? Já teve contato com Vitor?
Nesse disco que gravamos em Tóquio, incluímos essa canção tão bonita que uma amiga me apresentou. Me impactou de tal forma que, anos depois, quis gravá-la. Não tive a sorte de ter contato com Vitor. Fico muito feliz que você tenha me lembrado dessa bela canção. É uma maravilha, tanto pela melodia quanto pela letra.
Você conhece outros artistas do Rio Grande do Sul? Sei que você tem uma relação especial com as culturas do Brasil e da Região do Prata, e o Rio Grande do Sul está justamente nessa confluência.
Tanto o Brasil quanto o Uruguai e a Argentina marcaram minha vida de forma muito positiva. Aprendi muitas coisas. Na primeira vez que viajei ao Brasil (em 2010), fui com um grupo de percussão chamado Coetus para Salvador, na Bahia, e conheci o Arthur de Faria, pianista de Porto Alegre. Lembro que tocamos juntos. Sempre nos cuidamos à distância.
Também tive a sorte de tocar com o grande violonista Yamandu Costa, tanto no norte da Espanha quanto em Montevidéu. Além disso, conheço vários músicos de Porto Alegre, com quem às vezes me encontro no Festival de La Serena, organizado por Jorge Drexler no Uruguai.
Minha forma de compor até hoje é muito conceitual. É toda uma viagem que pertence a uma fase da minha vida. Cada disco é como um álbum de fotografias.
SÍLVIA PÉREZ CRUZ
Cantora e compositora espanhola
Em sua passagem por Porto Alegre, pretende se encontrar com artistas daqui?
Teremos pouquinho tempo. O que eu esperaria é poder reencontrar os amigos que tenho aí e fazer um churrasquinho e cantar canções ao redor da mesa, que é uma das coisas de que mais gosto no mundo.
Mesmo que seus discos sejam diferentes uns dos outros, é possível ver sua marca em todos eles. Quando percebeu que já tinha conquistado sua identidade musical?
Acho que, aos 27 anos, senti que minha voz estava na plenitude, como se finalmente tivesse encontrado a forma de me expressar. Mas, felizmente, encontrei minha voz antes disso, porque, quando fui morar na cidade, tentei mudar minha maneira de cantar e percebi que fazia mais sentido cantar como sempre cantei.
Mas tive muito claro desde os 20 anos, mais ou menos, que, como eu não tinha tempo para me especializar em todos os estilos musicais do mundo, queria me concentrar em uma linguagem própria, em aprender a expressar aquilo que sentia. A música como transformadora das emoções, tanto das tristezas quanto das alegrias. E, nesse ponto, não existe estilo que importe: existe o seu coração e a sua maneira de olhar.
O fato de Rosalía ter querido colaborar comigo é uma honra. E saber que sou uma referência para ela me honra ainda mais.
SÍLVIA PÉREZ CRUZ
Cantora e compositora espanhola
Vemos muitas transformações na indústria musical hoje. Com as plataformas digitais, como Spotify, temos acesso a 100 milhões de músicas. Mas muitas pessoas já não têm concentração para ouvir um álbum inteiro. Com tanta pressa no mundo, como você gostaria que as pessoas ouvissem sua música?
Minha forma de compor até hoje é muito conceitual. É toda uma viagem que pertence a uma fase da minha vida. Cada disco é como um álbum de fotografias. E a minha maneira de criar tende a construir um conceito para trabalhar uma jornada inteira. Escrever, desenhar, pensar e sentir.
Mas entendo que estamos em outro momento. Também tenho consciência de que hoje há outra concentração. Isso não me incomoda, simplesmente levo isso em conta. Tenho cuidado para que as músicas, individualmente, tenham vida própria, e que quem tiver paciência possa fazer a viagem completa do disco, na ordem das canções.
Não posso terminar esta entrevista sem perguntar sobre sua parceria com Rosalía e Estrella Morente em "La Rumba del Perdón". Como você vê o trabalho de Rosalía, que se tornou uma grande artista pop sem abrir mão de certo experimentalismo?
Rosalía é uma grande artista. Ela é muito musical, tem uma voz lindíssima e é muito batalhadora. Fico muito feliz com tudo o que está acontecendo com ela.
Outro dia a vi no Rio de Janeiro e fiquei emocionada ao perceber como o show tinha crescido, porque tive a sorte de assistir à apresentação em Barcelona, que foi o início da turnê. Comemorei muito o sucesso dela.
Da minha parte, o fato de ela ter querido colaborar comigo é uma honra. E saber que sou uma referência para ela me honra ainda mais.
Sílvia Pérez Cruz em Porto Alegre
O show que a cantora realizaria em Porto Alegre foi cancelado. Segundo a Muito Prazer Disco e Produções, o cancelamento ocorreu "por motivos de saúde da cantora".
Ainda conforme a produtora, todos os clientes com ingressos para este evento devem seguir uma das diretrizes abaixo:
- Solicitar um crédito no valor do seu(s) ingresso(s), através do link
Tal solicitação deverá ocorrer em até 120 dias contados do comunicado que seu evento foi cancelado, salvo nas hipóteses de falecimento, de internação ou de força maior, por parte do consumidor ou 30 (trinta) dias antes da realização do evento, o que ocorrer antes.
Quando e como vou receber o crédito?Você receberá os seus créditos em uma conta digital criada pela Uhuu em, até, 5 dias úteis após a solicitação. O crédito poderá ser utilizado até 31 de dezembro de 2026 para a aquisição de novo(s) ingresso(s) para qualquer evento realizado pela Opus Entretenimento. Você pode conferir a agenda atualizada de eventos na casa de espetáculo da sua preferência ou no site da Opus.
- Ou solicitar um reembolso do valor dos ingressos
Para as compras feitas em até 180 dias na Uhuu.com através do cartão de crédito: É necessário envio de e-mail para falecom@uhuu.com solicitando o reembolso. Após a solicitação, o estorno ocorrerá na próxima fatura ou na subsequente, de acordo com o fechamento de sua fatura.
Para as compras feitas a mais 180 dias na Uhuu.com ou bilheteria: É necessário envio de e-mail para falecom@uhuu.com com as seguintes informações:
*Nome completo:
*CPF:
*Banco:
*Agência:
*Conta corrente:
Os dados devem ser preenchidos com as informações do titular do pedido. Após recebimento dos dados, o depósito será realizado em até 20 dias úteis.
Compras feitas via Pix: será necessário efetuar um pix ou depósito bancário para devolução do valor, sendo necessário envio de e-mail para falecom@uhuu.com com as seguintes informações:
*Nome completo:
*CPF:
*Chave do pix:
*Tipo de chave:
*Nome do Banco:
- Para dúvidas sobre o evento, entre em contato a produtora através do e-mail: sac@opusentretenimento.com
- Para dúvidas ou demais solicitações, entre em contato conosco através do e-mail: falecom@uhuu.com


