
Perplexidade, surpresa, encanto. São vários os sentimentos que cabem dentro de "eita", interjeição muito associada ao Nordeste, mas disseminada por todo o Brasil. Para Lenine, um curioso pela etimologia das palavras, a escolha dessa para batizar seu álbum mais recente não foi aleatória.
O trabalho, que ele define como o mais íntimo de sua carreira de quatro décadas, reflete um momento particular de sua vida, em que resgatou o prazer pela criação após um ciclo de desesperanças.
Eita é a base do show que será apresentado no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, nesta sexta-feira (10). Os ingressos estão à venda pela Sympla (veja detalhes ao final).
Período de escuridão
O disco começou a ser desenhado em 2019, mas o processo foi entrecortado pela pandemia e por um período de escuridão para Lenine. Dominado pelo que descreve como uma "misantropia", chegou a cogitar abandonar a música.
— Foi um "eita" tremendo na minha vida eu passar um tempo depressivo, achando que não tinha mais nada o que fazer e sem desejo. Mas era uma certa miopia de minha parte, porque depois, quando a gente retomou e eu subi no palco pela primeira vez, vi o quanto aquilo é fundamental pra mim — conta em entrevista a Zero Hora.
Escritas em primeira pessoa, as canções de Eita documentam essa retomada, da desilusão ("A vida dói no lombo", diz uma) à confiança ("A vida sempre acerta", diz outra). Confia em Mim, faixa que abre o disco, é a síntese: "O mundo é tentação de volta/ Pra onde eu já não sei voltar".

Versão audiovisual do álbum
O impulso do retorno, conforme Lenine, se deu pela família, mais presente do que nunca neste álbum. Bruno Giorgi, filho do meio e produtor de seus álbuns há mais de 15 anos, foi quem o convenceu a se reaproximar da música, primeiro como convidado de outros artistas, depois em uma turnê de voz e violão e, finalmente, na continuação de Eita.
João Cavalcanti, o mais velho, assina a letra da bela Foto de Família, gravada em dueto com Maria Bethânia, enquanto Bernardo Pimentel, o caçula, participou de uma das facetas mais interessantes do projeto: uma versão audiovisual, que traz o repertório completo em um plano-sequência de cerca de 30 minutos.
— Quando eu e Bruno estávamos já formatando o disco, percebemos que tínhamos feito um disco para se ver. E eu disse: "Então, vou fazer um filme para se ouvir" — conta.
O cinema foi minha universidade, foi onde eu tive acesso às grandes questões da humanidade.
LENINE
Músico
A ideia oportunizou a Lenine, cinéfilo formado nos cinemas de ruas de Recife, realizar o sonho de fazer cinema. Até Anna Barroso, companheira de 40 anos a quem ele dedica a romântica Meu Xamêgo, embarcou, em uma das passagens mais delicadas do filme.
Fé no ser humano
Se a esperança e o amor pelos palcos voltaram, as angústias de Lenine, que também é ativista ambiental, permanecem. Em O Rumo do Fogo, por exemplo, em que divide os vocais com Maria Gadú, reflete sobre a questão indígena. "Até quando dá pra adiar?", pergunta. Para ele, os últimos tempos expuseram um "egoísmo exacerbado, violento e dissimulado" na sociedade.
— Eu sou de uma época em que as pessoas deveriam ter vergonha disso, deveriam trabalhar para exorcizar esses monstros, e não se vangloriar. Isso tudo me preocupa. Mas também me motiva. No disco está muito explícito o que penso e esse depósito de fé no ser humano — conclui.
Confira a entrevista com Lenine

Como é a tua relação com o cinema?
Você viu o filme Retratos Fantasmas, do Kleber (Mendonça Filho)? Eu vivi aquela realidade no Recife. Era um grupo grande de cinéfilos que, nas manhãs de domingo, fazia sessões de arte. Foi como eu conheci Kurosawa, Buñuel, todo o Cinema Novo, Nouvelle Vague, Kubrick. O cinema foi minha universidade, foi onde eu tive acesso às grandes questões da humanidade. O cinema me levou a pensar. A música que eu faço é muito embasada no que vejo, e não no que ouço.
E, com essa história, como é pra ti ver esse momento tão grandioso do cinema pernambucano?
Isso já vem de um tempo. Começou com Baile Perfumado (filme de Lírio Ferreira e Paulo Caldas de 1996) e de lá para cá não parou. Acho que é esse depositório de obras, de olhares e de cinemas que levou a esse reconhecimento no mundo inteiro. O cinema sempre exerceu um fascínio muito grande no Recife.
A experiência do filme de Eita não te deixou com vontade de fazer outras coisas, como dirigir um longa-metragem?
Sabe que não? Uma das coisas que ficaram claras para mim foi que eu não estava fazendo um personagem. Geralmente, a minha relação com o audiovisual se dava pelos clipes. E eu tinha horror de fazer. Embora tenha trabalhado com pessoas geniais, pra mim se tratava de dublar uma coisa que eu já tinha feito em um personagem que não tinha criado.
Eu não sou ator, então, quando resolvi fazer o filme, eu disse: "Vou dividir com o público que gosta do que eu faço a minha intimidade". Por isso, peguei a minha parceira de mais de 40 anos (Anna Barroso) e falei: "Preciso do seu incômodo. Quero você no set de filmagem para cantar a música que fiz pra você".
E é bacana, porque o incômodo dela está lá. Desde o início, ela não sabe muito o que fazer. E eu não estava representando, estava cantando. Então, sou um ator de um personagem só, que sou eu mesmo (risos).

Na década de 1990, tu cantavas: "Falta o cristão aprender com São Francisco/Falta tratar o Nordeste como Sul". Em 30 anos, isso mudou?
Sempre muda, mas não o bastante. Por exemplo: você vai dizer que entrevistou o pernambucano Lenine, mas não diz que entrevistou o paulista Arnaldo Antunes, ou não? Eu vejo as pessoas dizerem: "Vou pro Nordeste". Mas Nordeste é uma coisa gigante, vai pra onde? Esse tipo de coisa a gente não exorcizou.
Por outro lado, se eu olho pro Norte, vejo que estão muito mais atrás. As pessoas não sabem nem o que é uma festa de Parintins, por exemplo.
O Brasil não é só o Sudeste, e eu digo isso morando há mais de 40 anos no Rio. Mas minha formação, até os 20 anos, foi em Recife, e às vezes me pergunto se o Nordeste que carrego dentro de mim e que levo para todos os cantos existe ainda.
LENINE
Músico
É como diz outra canção tua, Jack Soul Brasileiro: "O país do suingue é o país da contradição".
É verdade, cara. E me dói isso continuar tão atual.
A geração de músicos da qual fazem parte tu, Chico César, Vitor Ramil, Paulinho Moska e outros nunca se viu como um movimento, mas vocês têm muito em comum. Como tu vês o papel desse grupo na música brasileira?
Apesar de nunca ter defendido nenhuma espécie de movimento, acho que essa turma que você citou fez uma linda movimentação. E essa movimentação me permite dizer que pertencemos a uma outra sigla.
Não é MPB, é MCB, música contemporânea brasileira. Música feita agora, porque é agora que está sendo feita. MPB como representação da música feita no Brasil é limitador, cara.
Como podem tirar da música que é feita no Brasil o funk, o rap, toda a música urbana dos grandes centros? Isso não é MPB?
LENINE
Músico
Ou a gente assume a MCB ou passa a definir que MPB é música planetária brasileira (risos). A gente tem a cabeça mais aberta, não é só a tradição e a raiz, nem só a antena e o que é novo e moderno. É uma mistura de tudo, uma percepção ampla das coisas.

E isso é muito evidente na tua obra, que nunca ficou presa a um estilo e sempre agregou muitas sonoridades diferentes.
Que bom você falar isso. É isso mesmo, não tem um estilo. Dizem que eu faço maracatu. Não. Eu faço música popular com ingredientes vários. O maracatu é um deles, o rock é outro. E tudo me interessa. Sou curioso o suficiente para estar sempre ouvindo coisas novas.
O modo de fazer música mudou muito. O formato físico praticamente acabou e muitos artistas nem lançam mais álbuns, e sim músicas individualmente. Como te sentes nesse cenário?
Anacrônico (risos). Veja, eu tô falando com você sobre um álbum, e essa palavra nem se usa mais. Eu preciso dessa concretude. Continuo fazendo do meu jeitinho, artesanalmente.
Um álbum é um somatório de canções que eu fiz pensando em uma narrativa. Depois, tem outro salto, que é levar para o palco aquelas coisas que você gravou em um ambiente quase hospitalar, que é o estúdio. Isso é o melhor de tudo, porque a hora do palco é quando tudo se encaixa.
Então, eu faço música pra fazer disco, faço disco pra fazer show e faço show pra rodar o mundo.
A forma de consumir música também mudou. As pessoas ouvem quando estão no trânsito, fazendo academia, etc., mas pouca gente dedica um tempo só pra ouvir música.
É horrível. As pessoas vão ouvir uma canção nova e, se em 20 ou 30 segundos não são capturadas, já mudam, vão para outra coisa. É preciso se dar esse tempo da audição. Disco é uma narrativa, um romance sonoro. Não é uma canção, é um projeto. E isso não mudou em mim. O que me interessa é o resíduo, o que sobra, o que resta na experiência de cada um depois de ouvir uma canção.
Lenine em Porto Alegre
- Nesta sexta-feira (10), às 21h. Abertura da casa: 19h30min
- Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685)
- Ingressos a partir de R$ 90
- Ponto de venda com taxa: online na Sympla
- Pontos de venda sem taxa: Loja Planeta Surf Bourbon Wallig (somente em dinheiro) e bilheteria Araújo Vianna (apenas no dia do show, duas horas antes do início, em dinheiro ou no cartão)
- Desconto de 50% para sócios do Clube do Assinante e um acompanhante (sobre o valor inteiro)



