
Após um breve cumprimento pela videochamada, Jorge Aragão imediatamente indaga:
— Está preocupado com o El Niño, meu filho? Pergunto isso por essa lembrança de vocês, pelo que passaram por aí. Temos que cobrar um pouco mais das autoridades que façam a prevenção. Qualquer coisa que precisar, estamos por aqui para gritar também.
Atencioso e de risada fácil e generosa, Aragão é um patrimônio vivo do samba brasileiro. Aos 77 anos, o cantor e compositor carioca é o responsável por sambas seminais, como Vou Festejar, Coisinha do Pai, Eu e Você Sempre, entre outros.
Ele é uma das atrações da turnê O Maior Encontro do Samba, ao lado de Zeca Pagodinho e Alcione, que chega a Porto Alegre em 14 de novembro. Na capital gaúcha, a apresentação será no Estádio Beira-Rio, com participações especiais de Péricles e Arlindinho (veja informações sobre ingressos ao final).
Em conversa com Zero Hora, Aragão falou sobre a turnê, clássicos e seu espanto com o amor do público gaúcho pelo samba.
Confira a entrevista com Jorge Aragão

O título do espetáculo é "O Maior Encontro do Samba". Na sua opinião, o que faz um encontro ser histórico?
O Maior Encontro reúne pessoas que se tornaram amigas, que, aliás, tenho hoje como família.
Confesso que estava vendo meio com reserva o título O Maior Encontro do Samba porque sei quantas pessoas mereciam participar de um evento com um título como esse.
São três personagens (Aragão, Alcione e Zeca Pagodinho), cada um com uma trajetória um pouquinho diferente, mas que sempre acreditaram que a música é a balsa que nos move. Estou muito feliz de poder ter sido convidado. É um compositor feliz pra caramba em dividir o palco com dois ídolos dele.
E os dois estão acostumados a cantar composições suas.
O que eu faço nesse meio é uma coisa verdadeira. Continuo exercendo esse poder de criação para primeiro me satisfazer. Sou premiado quando chego ao resultado que queria muito de uma música. Já começo a chorar, a me emocionar.
Então, primeiro de tudo, é estar feliz comigo enquanto compositor. Chegar uma Alcione e ouvi-la dizer que quer gravar uma música minha é um prazer enorme. Com o Zeca nunca foi diferente.
Porto Alegre tem um público muito ligado ao pagode e ao samba de raiz. Como costuma ser para você se apresentar por aqui?
Batalhei muito para que o povo gaúcho escutasse minha música. No início, meu máximo de sul ia até São Paulo. Comecei a ir mais para o Norte e Nordeste, e minha carreira se desenvolveu muito mais para o lado de lá.
Demorei bastante para entender o povo gaúcho, talvez uns 10 anos. Aí um ano eu fui. E no mesmo ano fui de novo duas vezes. Comecei a me assustar: "Isso aqui não é o que eu estava pensando. É muito grande o apreço do gaúcho pelo samba".
Quando eu chegava (ao RS) para abrir a boca para cantar da primeira até a última música, todo mundo cantando comigo. As pessoas se emocionando e tendo a mesma reação que tive enquanto estava compondo.
JORGE ARAGÃO
Cantor e compositor
Concluí que eu tinha um lugar onde podia cantar meu samba sem me preocupar com nada.
Você é conhecido como Poeta do Samba, alguém que trouxe refinamento à letra e à melodia. Consegue entender o motivo por que canções como "Vou Festejar" e "Coisinha do Pai" continuam tão vivas e unam diferentes gerações?
Se eu tivesse esse caminho para deixar a música longeva, eu já teria seguido há muito tempo, meu filho (risos).
Sempre acreditei naquilo que eu estava escrevendo. Também sempre me policiei para dar autenticidade a uma melodia. Quando consigo encontrar as palavras para colocar dentro dessa melodia, sinto que venci, mesmo que não grave aquela canção.
Acho que com mais da metade das minhas músicas eu chorei porque, meu Deus do céu, como é que eu consegui achar essa palavra aqui?
Uma coisa meio estranha é que a maioria das músicas que eu fiz nunca comecei do início, mas sim do final. É como um quebra-cabeça.
JORGE ARAGÃO
Cantor e compositor
Nunca imaginei essas músicas sendo cantadas hoje ainda, depois de tantas gerações, falando daquele amor que sentia naquele momento. Sequer cogitaria ver os netos das pessoas que ouviam minhas músicas cantando com a mesma emoção.
Muitas vezes, a milhares de quilômetros de onde você compôs.
Quantas vezes alguém falou: "Passei num lugar, sei lá, na Suécia, fui em uma rodinha de samba e estavam cantando sua música"? Não tem como sentir aonde você pode chegar.
O Maior Encontro, para mim, é poder vivenciar isso junto com o Zeca e a Marrom (Alcione).

No final do ano passado, você compartilhou com o público o desejo de reduzir o ritmo das turnês, focando mais na composição. Estar na estrada com um projeto dessa magnitude faz parte desse plano de deixar uma "imagem bonita de despedida dos palcos", como você mencionou?
Ano passado eu falei em diminuir a velocidade e a quantidade de shows para poder também equilibrar, cuidar mais da saúde e aproveitar um pouco mais esse respeito que foi chegar aonde eu cheguei.
Quando falei isso, foi reverberado ou subentendido por alguns como se eu estivesse me aposentando. O que aconteceu? Os contratantes que me procuram para fazer evento triplicaram. O negócio cresceu demais! Nunca tinha acontecido isso na minha vida.
Hoje, tenho as datas fechadas até fevereiro. Estou muito chique, parecendo um artista de verdade (risos).
JORGE ARAGÃO
Cantor e compositor
"O Maior Encontro do Samba" está previsto para ser apresentado até em um cruzeiro em janeiro. Como você está encarando a ideia?
Pois é, eu corri tanto disso, meu amigo, não tem noção. E eu falei: "Zeca, eu não tenho calção pra isso, não tenho boia pra ficar andando nesse troço" (risos). A gente vive nosso dia a dia mexendo um com o outro.
Mas eu estou até agora sem entender direito por que que me chamaram para um navio. Eles estão tentando me convencer que é legal, que eu vou ficar tranquilo, mas não estou acreditando nisso, não (risos).
"O Maior Encontro do Samba" em Porto Alegre
- Com Jorge Aragão, Alcione e Zeca Pagodinho (participações especiais de Péricles e Arlindinho)
- Dia 14 de novembro, a partir das 20h, no Estádio Beira-Rio (Av. Padre Cacique, 891)
- Abertura dos Portões: 16h
- Ingressos a partir de R$ 122,50 (social, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível), disponível pela plataforma Eventim, com taxa, e na loja Planeta Surf do Shopping Total (Av. Cristóvão Colombo, 545, de segunda a sábado, das 10h às 22h; e domingos e feriados, das 14h às 20h), sem taxa





