Escolher o disco, retirar da capa, posicionar a agulha, ouvir um lado inteiro. Para quem está acostumado com o universo digital, pode parecer muito analógico ouvir música dessa forma — e realmente é. Mas tem um público que encontra graça exatamente nessa experiência. E há quem aposte nesse nicho há bastante tempo. É o caso do Noize Record Club.
Criado em Porto Alegre, em 2014, o clube de assinatura de discos se define como o primeiro da América Latina e integra a Noize Media, que também é responsável pela produção de conteúdo especializado em música, como a Revista Noize.
— A experiência de consumo da revista é a mesma coisa do disco. Precisa parar para ler e precisa parar para ouvir. A gente até brinca que precisa ler com outros ouvidos e ouvir com outros olhos — afirma Pablo Rocha, CEO da Noize.
Atualmente, as revistas são exclusivas para os membros do clube de discos, mas até 2014 eram distribuídas gratuitamente. A assinatura mensal, que inclui um disco e uma revista, custa R$ 95 mais o valor do frete.
Atualmente, mais de 10 mil pessoas assinam o clube, que conta com curadoria própria. As últimas edições tiveram álbuns de nomes como Seu Jorge, Emicida, Marisa Monte e Céu.
— A gente sempre teve a ideia e a missão de popularizar a cultura do vinil, tanto que a gente sempre teve um preço agressivo para atingir o máximo de pessoas possíveis — diz Rocha.
Prestes a completar 20 anos, a Noize Media é comandada pelos sócios Pablo Rocha, Leandro Pinheiro, Rafael Rocha e Cassio Konzen. Os escritórios ficam em Porto Alegre, no Instituto Caldeira, e em São Paulo.

Vinil se tornou produto premium
Em 2016, o vinil gerou US$ 224,9 milhões em receita nos Estados Unidos. Menos de uma década depois, em 2025, ultrapassou US$ 1 bilhão, segundo relatório da Recording Industry Association of America.
Carol Govari, coordenadora do curso de Produção Fonográfica da Unisinos, explica que o disco está sendo tratado como um produto premium. Edições coloridas, tiragens limitadas, box especiais e relançamentos se tornaram formas importantes de monetização.
— Para muitos artistas, especialmente os independentes, o vinil virou também uma maneira de fortalecer a identidade estética e criar conexão direta com fãs — afirma.
Ela também diz que o vinil não compete com o streaming pela eficiência, mas pela construção de memória, ritual e valor emocional:
— Temos percebido que o que mobiliza o público não é, necessariamente, a busca por mais qualidade sonora, mas por outra forma de relação com a música. O streaming estimula uma escuta fragmentada, rápida e muitas vezes algorítmica. Já o vinil pede tempo, vontade e presença: escolher o disco, retirar da capa, posicionar a agulha, ouvir um lado inteiro.
Coleção com mais de 200 discos
Foi nos anos 2000, com um CD dos Los Hermanos, que David Lopes, 36 anos, começou sua aventura como colecionador. Depois, quando uma vizinha deu para ele um toca-discos que iria para o lixo, a paixão pelo disco compacto foi transferida também para o vinil.
— Eu peguei (o toca-discos) e ela me deu um disco do Talking Heads junto. Aprendi a mexer, fui vendo como era essa coisa do vinil e, a partir daí, comecei a colecionar — conta.
Entre feiras, sebos e, principalmente, clubes de assinatura, o colecionador já acumulou mais de 200 LPs e viu o hobby se tornar uma tendência entre os mais jovens.
Membro desde o início, Lopes diz que o clube de assinatura da Noize o ajudou a conhecer mais artistas e, consequentemente, aumentar sua coleção.
— Para mim, é um momento sagrado parar e ouvir um disco. Tenho com a música a mesma relação que tenho com a literatura.




