
Quem vai a um grande show costuma enxergar apenas o palco. Nos bastidores, porém, existe um trabalho que começa meses antes e envolve negociações, logística e muita responsabilidade.
Os empresários Marcos Paulo e Rodrigo Bili conhecem essa rotina de perto. Amigos há mais de uma década, eles comandam a Fly 51 — complexo inaugurado em março, em Porto Alegre — e o Grupo Prime, responsável por alguns dos maiores eventos realizados no Rio Grande do Sul.
Em entrevista, a dupla relembra o início da amizade, fala sobre os desafios de produzir grandes espetáculos e revela os bastidores do retorno de Anitta à capital gaúcha, em agosto.
Entrevista com Marcos Paulo e Rodrigo Bili
Como começou a amizade de vocês?
Marcos Paulo: A gente se conheceu no mundo da vida noturna. Em 2013, acabamos virando sócios de uma casa noturna chamada Vidigal. Eu já conhecia o Bili e ele também já tinha ouvido falar de mim. Durante esse empreendimento, ficamos mais próximos, surgiu uma amizade muito forte e, dali, veio o convite para ele entrar na Provocateur. Depois disso, o Bili acabou entrando em todos os negócios do Grupo Prime. Foi ele também quem capitaneou, por assim dizer, o projeto dos nossos eventos populares. E foi justamente do Grupo Prime, que produz esses eventos, que surgiu a ideia da Fly 51. Resumidamente, essa é a história. Uma amizade de apenas 13 anos (risos).
Rodrigo Bili: A gente não fica um dia sem se falar.
Qual foi o primeiro grande evento que vocês fizeram?
Rodrigo Bili: O primeiro grande foi uma Greenvalley, em Gramado. Depois disso, começamos a conversar sobre trazer grandes shows para cá (Porto Alegre). Em 2017 fizemos o Tardezinha (turnê comandada pelo cantor Thiaguinho). Em 2019 trouxemos o Tardezinha novamente, depois a turnê Juntos, do Sorriso Maroto e Dilsinho; Baile da Santinha (com Léo Santana, Ferrugem e Felipe Amorim); Luan Santana... Hoje realizamos em torno de 15 grandes eventos por ano.
Falando nisso, o Tardezinha do ano passado lotou o Beira-Rio e teve todos os ingressos vendidos. Como foi viver aquele momento?
Marcos Paulo: Foi realmente um momento muito especial. Além do sucesso do evento, tem a figura do Thiago, que é um artista incrível e que a gente admira muito. Ele é muito ligado à nossa história e também é um amigo pessoal do Bili. Então, além de ter sido um grande evento, existia toda essa relação com ele e com o Tardezinha, o que tornou tudo ainda mais especial. Foi uma entrega espetacular. Veio gente do Brasil inteiro. Vieram amigos meus do Rio (de Janeiro), São Paulo e Brasília. Todo mundo ficou impressionado.
Rodrigo Bili: Também movimentou muito a nossa cidade. Às vezes o pessoal não vê toda a construção que existe por trás. O Tardezinha que colocou 40 mil pessoas no Beira-Rio começou a ser trabalhado há muitos anos. E essa relação com o Thiago é muito maior do que as pessoas imaginam. Ele foi o primeiro grande artista a fazer um show para nós no pós-pandemia e também o primeiro no pós-enchente. Enquanto muitos artistas viraram as costas para o nosso povo, quando a gente só precisava de um abraço, de um sorriso, de um evento, ele esteve aqui. É uma figura muito importante para nós.

Vocês acham que o gaúcho tem um jeito diferente de se divertir?
Rodrigo Bili: Com certeza. Acho que o gaúcho é um povo muito alegre e receptivo. O carisma e a receptividade do gaúcho são diferentes.
Marcos Paulo: Até por ser um Estado mais enxuto, o gaúcho tem essa pegada de curtir mais entre amigos. Está sempre rodeado de pessoas queridas.
Vocês trabalham enquanto todo mundo se diverte. O que fazem para relaxar?
Rodrigo Bili: A gente vai na festa dos outros (risos).
Até porque, quando vocês estão produzindo eventos, não deve dar tempo para se divertir...
Rodrigo Bili: Para você ter uma noção, quando estou à frente dos eventos da Prime, eu não bebo. A responsabilidade é muito grande. Levar entretenimento para o público é algo que a gente ama fazer, mas exige muito comprometimento. E não é tão simples quanto as pessoas imaginam trazer grandes artistas para cá. Nós não estamos no centro do país. O Rio Grande do Sul, Porto Alegre, tem pouco patrocínio, a malha aérea é mais cara. A gente vive uma guerra diária. Não é simples.
Marcos Paulo: O esforço é muito maior do que em qualquer outra praça para entregar o que entregamos. A responsabilidade exige sacrifícios. Enquanto todo mundo está se divertindo, você está preocupado em fazer tudo acontecer da melhor forma possível. Mas ninguém entra nesse negócio por acaso. A gente gosta muito de festa, de evento, de entretenimento. E, quando quer se divertir, acaba indo aos eventos dos outros ou reúne os amigos em casa.
Estamos tentando desmistificar, mostrar que a cidade tem condições de receber grandes produções
MARCOS PAULO
Vocês convivem com muitos artistas e têm amizade com vários deles. É possível separar amizade e negócio?
Rodrigo Bili: É essencial. A gente é muito profissional nesse aspecto. Claro que, às vezes, um artista manda uma música pela amizade e a gente dá uma opinião, mas procura não misturar as coisas.
Marcos Paulo: A amizade é inerente. Uma coisa acaba caminhando junto da outra, mas misturar faz mal para ambos os lados. O mais saudável é manter cada coisa no seu lugar.
A confirmação do show da Anitta em Porto Alegre foi uma das grandes notícias dos últimos meses. O que vocês podem contar sobre os bastidores dessa negociação?
Marcos Paulo: Foi consequência do Rodrigo.
Rodrigo Bili: Ela não vem desde 2019, quando fizemos o último show dela na Casa NTX. Esse novo trabalho dela (o álbum Equilibrivm) explodiu em streams e em repercussão. E ela resolveu nos dar esse presente de abrir a turnê aqui para o povo gaúcho. Para nós também foi muito importante, porque ela vai passar por grandes cidades (São Paulo, Fortaleza, Niterói e Salvador), e Porto Alegre, via de regra, é a menor delas. Então foi realmente um presente.

Você convive com ela há muito tempo?
Rodrigo Bili: Muito tempo. Desde 2012.
Como foi essa aproximação?
Rodrigo Bili: Foi na Festa Nacional da Música (que ocorreu em Canela), de um grande amigo meu. Eu sempre ajudava a convidar os artistas. Fizemos o convite para ela participar da Festa da Música, ela veio, ficamos amigos e, no ano seguinte, fiz a primeira turnê dela aqui no Rio Grande do Sul.
Qual é a expectativa para esse show?
Rodrigo Bili: Vai parar a cidade.
Marcos Paulo: Já está parando. A Anitta entrega muito. Hoje, sem dúvida, é uma das maiores artistas do mundo. A gente não está falando mais só de Brasil. Desde o anúncio do show estamos entendendo ainda mais a força dela. A venda de ingressos foi fenomenal. Toda a mídia procurando informação, querendo acompanhar, querendo estar junto. Ela realmente é muito forte. A expectativa é parar a cidade e entregar um megaevento.
Vocês acham que Porto Alegre voltou para a rota dos grandes shows?
Rodrigo Bili: Vamos voltar. Quando pensamos na Fly, foi justamente com esse objetivo. Queremos recolocar Porto Alegre na rota dos grandes shows, inclusive internacionais.
Marcos Paulo: Estamos trilhando esse caminho de volta, mas ainda encontramos muita dificuldade, resistência e até um pré-conceito de que a praça não consegue entregar esses tipo de eventos. Existe muita coisa envolvida e estamos tentando desmistificar, mostrar que a cidade tem condições de receber grandes produções. A Anitta já foi uma vitória e, com certeza, vai abrir outras portas. Queremos trazer esse movimento de volta porque ele é importante para a economia local e para a cultura da cidade.



