
O historiador Guilherme Bacchi estava trabalhando por volta das 14h de terça-feira (19) quando recebeu uma mensagem no WhatsApp: um ilustre visitante estrangeiro queria conhecer o Beira-Rio. Supervisor do museu do Inter e acostumado a guiar turistas pelo estádio, Bacchi jamais imaginou que recepcionaria um ídolo de sua adolescência.
Quando a van preta estacionou próximo ao portão 7, Bacchi foi surpreendido pela presença de Robert Plant, o lendário ex-vocalista do Led Zeppelin. Aos 77 anos, um dos cantores mais icônicos do rock se apresentaria naquela noite para um Auditório Araújo Vianna lotado. Antes, desejava visitar um dos clubes da Capital.
— Quando ele desceu e eu vi quem era, nossa, jamais imaginei. Ouvi muito Led na vida. Mas minha maior surpresa é como ele é fanático por futebol. Falou nisso o tempo todo — diz Bacchi.
À beira do campo, Plant contou sobre sua paixão pelo Wolverhampton, clube inglês que acabou de ser rebaixado na Premier League. Lembrou que aproveitava as folgas nas turnês do Led Zeppelin para voltar para casa e assistir aos jogos do time. Hoje, aqueles jogadores são seus companheiros de direção no clube, onde ocupa uma das vice-presidências.
Plant elogiou dois brasileiros do time, os volantes André e João Gomes, lembrou ter conhecido Pelé ao visitar o estádio do Cosmos, nos anos 1970, e pediu para tirar fotos dos funcionários cuidando do gramado do Beira-Rio.
Vestido de azul, se encantou com dois modelos da loja do Inter: uma parka preta com o símbolo do clube em vermelho e uma camisa branca lançada em 2024 em alusão ao mês da Consciência Negra. Tentou pagar pelas peças, mas ganhou a camisa de presente, além de uma clássica, vermelha — a parka não tinha no seu tamanho, mas recebeu um modelo já no camarim do Araújo Vianna, antes do show.

Apaixonado por carnes
A incursão de Plant por Porto Alegre começou na tarde de domingo (17). O cantor havia se apresentado na véspera em Rosário, na Argentina, com a turnê Roar in the Fall, e desembarcou na Capital por volta das 14h.
No início da noite, ele, seu tour manager e dois músicos da banda de apoio — o violinista Matt Wolmer e o violoncelista Barney Morse Brown — foram caminhando até o Mesa, restaurante especializado em culinária italiana, localizado a duas quadras do hotel Hilton, no bairro Moinhos de Vento.
O grupo pegou uma mesa de canto e pediu de entrada croquetas de costela (costela cozida, servida com maionese defumada) e bruschettas de tomates frescos, manjericão e queijo stracciatella. Para beber, começaram com Joaquim, um sauvignon blanc da vinícola Villa Francioni, de Santa Catarina.
Apaixonado por carnes, Plant escolheu um prato tradicional da casa, o Tagliata (entrecot grelhado acompanhado de batata salteada e salada verde com parmesão e raspas de limão). Com mesura de lord inglês, o cantor pediu uma leve alteração na receita: quis o entrecot, geralmente servido com manteiga de ervas, temperado apenas com alho, pimenta dedo-de-moça e azeite de oliva.
Os comensais pediram dois Spaghetti all’Amatriciana (spaghetti com bacon artesanal, molho de tomate e queijo pecorino). O grupo sorveu ainda uma garrafa do malbec argentino Finca El Origen, de Mendoza, e algumas taças de vinho rosé.
Fã se hospedou no hotel do ídolo

Por volta das 21h, deixou o restaurante caminhando sob chuva leve, após dispensar a van estacionada no outro lado da rua. Na segunda-feira (18), Plant estendeu o desjejum até quase o final da manhã. À tarde, quis conhecer o Guaíba e foi levado ao 360 Poa Gastrobar, na orla do Gasômetro. Depois, comprou livros no Shopping Moinhos de Vento. A banda jantou numa casa de carnes, mas o artista preferiu ficar no hotel.
Aos poucos, o movimento de fãs começava a aumentar na região. Por volta das 11h de terça-feira, o professor universitário Fábio Cruz chegou para se hospedar. Já no saguão, deparou com a banda. Fã de Plant e prestes a assistir ao décimo show do artista, Fábio já havia recorrido ao mesmo expediente em 1996, quando se instalou no Sheraton, no Rio, e conseguiu posar para a primeira foto ao lado do ídolo. Agora, triplicou os encontros com o astro.
— Desta vez foi especial porque eu trouxe minha filha Lara, de 12 anos. É o primeiro show dela, e ele foi muito carinhoso. Deu autógrafos nos vinis e explicou cada um dos discos. Eu estava vendo o ídolo da minha vida com o amor da minha vida — emociona-se o professor.
Compras no shopping

Quem não pôde se hospedar no hotel, deu seu jeito. A estudante Joana Luna chegou no meio da tarde, foi direto ao bar e pediu uma cerveja. Quando Plant despontou no saguão, tentou abordá-lo, mas foi orientada a sair. Na rua, conseguiu foto e autógrafo.
O fotógrafo Gustavo Vara havia saído às 8h de Pelotas. Após esperar mais de três horas na calçada, foi ao shopping Moinhos para ir ao banheiro. Logo ficou sabendo que Plant estava fazendo compras. Vara circulou pelos corredores, desceu à garagem e subiu de volta, até encontrá-lo saindo de uma loja onde havia comprado meias — Plant gostou de um tênis, mas só tinha modelo feminino.
— Ele autografou uma revista Metalhead antiga que eu tinha com ele na capa. Dali eu fui a pé até o Araújo Vianna sem acreditar no que tinha rolado — lembra Vara.
Preocupação com a qualidade do som

Depois da visita ao Beira-Rio, Plant só saiu do hotel para se apresentar para os 3,2 mil felizardos que lotaram o auditório — um público que por pelo menos vezes cinco vezes aplaudiu em pé as 15 canções do setlist, quatro delas do Led Zeppelin (Ramble On, Four Sticks, Friends e Bron-Y-Aur-Stomp). Sem caprichos, não exigiu dezenas de toalhas brancas nem banquetes nababescos.
Sua principal preocupação era com a qualidade do som, a ponto de proibir os produtores de postar vídeos do show com captação de áudio que não fosse profissional. O mesmo cuidado foi mantido na escolha das músicas que tocariam antes do show. Escolhido para animar o público, o DJ Ricardinho Finocchiaro pinçou 19 canções folk, alinhadas com o clima intimista do espetáculo. A playlist foi submetida a Plant, que vetou três faixas por terem sido gravadas há muito tempo, com qualidade sonora inferior.
Após a apresentação, Plant ainda permaneceu por mais de uma hora conversando com a banda no camarim. Na manhã seguinte, tomou café na William & Sons Coffee, no Moinhos de Vento, antes de embarcar no jatinho fretado que o levaria ao Rio, onde toca nesta quinta-feira (21). Era o fim do passeio de um deus do rock por Porto Alegre.



