Do palco montado sobre a praia que ela própria chamou de "altar da humanidade", Shakira encontrou exatamente o que precisava: devoção. Neste sábado (2), milhões de pessoas ocuparam as areias de Copacabana, no Rio de Janeiro, para assistir ao show da artista colombiana, que entregou vocais, dança, latinidade, carisma e um forte discurso de empoderamento feminino, sem deixar de lado a afetividade que atravessa a sua relação com o Brasil.
Em troca, ela foi amada em voz alta, em volume ensurdecedor, por uma multidão capaz de enfrentar o que fosse preciso para poder vê-la o mais de perto possível. Foi, além do maior show da carreira de Shakira, também uma validação pública de sua volta por cima.
O espetáculo fez parte da turnê Las Mujeres Ya No Lloran, baseada no mais recente álbum de Shakira e considerada uma das maiores produções de sua carreira. O palco montado em Copacabana, com cerca de 1,5 mil m² de estrutura, fez jus a essa grandiosidade — assim como o público de dois milhões de pessoas, conforme divulgado pela Prefeitura do Rio.
Mas antes da festa, houve a espera. O início do show estava previsto para as 21h45min, mas Shakira surgiu ao palco somente após uma hora e 20 minutos de atraso, justificado por uma questão de saúde envolvendo o pai. O público estava apreensivo, e alguns fãs na área vip comentavam ter lido na internet que a apresentação seria cancelada. Fake news.
Às 23h, o céu fez as especulações cessarem: drones iluminaram Copacabana formando figuras como uma loba que uivava para a multidão e a frase "Te Amo Brasil". A resposta da plateia para o show de luzes veio em tom de humor (e impaciência):
— Se ama mesmo, entra logo, mulher — gritou uma fã.

Às 23h05min, Shakira finalmente apareceu. E bastaram os primeiros acordes de La Fuerte para que o descontentamento causado pela espera fosse esquecido. Copacabana explodiu em gritos, pulos e celulares erguidos para registrar o início daquele que a cantora trata como o mais importante show de sua carreira.
Vestida com um conjunto cravejado de pedras verdes, amarelas e azuis — e com a bandeira do Brasil estampada no peito —, Shakira parecia determinada a transformar o espetáculo em uma declaração de amor ao país que a acolhe como nenhum outro desde o início da carreira.
Afinal, sua relação com o público brasileiro vem de décadas: quando ainda engatinhava na trajetória internacional, ela chegou a se apresentar em cidades do interior do país — incluindo Bagé e Uruguaiana, no Rio Grande do Sul —, em shows populares, com ingressos a valor simbólico, que pavimentaram o caminho que a levou até a noite presente. E Shakira honrou essa história ao longo de mais de duas horas de espetáculo.

Canções como Girl Like Me e a clássica Estoy Aquí, apresentada em ritmo de balada, preencheram os momentos iniciais do show. Falando em português, Shakira lembrou da primeira vez em que esteve no Brasil, aos 18 anos. Agora, décadas depois, se via diante de milhões de pessoas na areia de Copacabana e não conseguia esconder a emoção.
— A vida é mágica, né? — constatou, arrancando aplausos e gritos de "eu te amo".
O show ganhou contornos mais íntimos quando, cercada por pequenos pontos de luz que transformaram o palco em um céu estrelado, Shakira surgiu segurando um violão para cantar Inevitable. A música levou o espetáculo para um momento de nostalgia, quase como se as milhões de pessoas em Copacabana assistissem à cantora voltar a ser, por alguns minutos, a jovem artista romântica que conquistou a América Latina antes de se tornar um fenômeno pop global.
O arco emotivo, contudo, durou pouco. Logo os quadris voltaram a se movimentar em ritmo frenético.
Com Te Felicito e Monotonía, Shakira trouxe à tona a narrativa conjugal que redefiniu sua vida e carreira nos últimos anos: o fim traumático do casamento com Gerard Piqué, após a descoberta de uma traição, que inspirou a feitura de suas canções mais recentes e a própria turnê Las Mujeres Ya No Lloran.
Foi nesse momento que a praia começou a formar um coro contra o jogador, aos gritos de "Ei, Piqué, vai tomar no c*". Shakira sorriu discretamente e aproveitou para transformar a própria história em discurso de superação.
— Definitivamente, eu acho que a vida tem formas de recompensar a gente. E eu acho que essa é uma delas. Vocês sabem que a minha vida não tem sido a mais fácil nos últimos anos; mas, das quedas, ninguém se salva. Nós, mulheres, cada vez que caímos nos levantamos mais sábias, mais fortes e mais resilientes — refletiu, recebendo o acolhimento dos espectadores.
Pouco depois, o show mergulhou em um de seus momentos mais emocionantes: Shakira cantou Acróstico enquanto os filhos, Milan e Sasha, apareciam nos telões interpretando trechos da música. Os meninos não subiram ao palco para cantar com a mãe, como vinha se especulando que poderia ocorrer, mas emocionaram igualmente.
Afinal, o momento carrega simbolismo: uma mulher que viu a própria vida amorosa virar pauta no mundo inteiro dá a volta por cima e canta sobre reconstrução diante de milhões de pessoas, acompanhada — ainda que a distância — pelos filhos que atravessaram tudo ao lado dela. Houve quem não resistisse às lágrimas.
A emoção, porém, nunca durava tempo suficiente para fazer o show perder o ritmo. Na música seguinte, Copa Vacía, os telões transformaram o palco num enorme aquário digital enquanto Shakira surgia como uma sereia estonteantemente latina, pronta para rebolar diante de um mar de gente em Copacabana.
Foi então que vieram as latiníssimas La Bicicleta, La Tortura e, é claro, Hips Don’t Lie. E os quadris realmente não mentiram: o público se entregou verdadeiramente.
Na performance de Chantaje, a cantora deixou o palco e foi acompanhada por uma câmera até os bastidores, cantando enquanto trocava de figurino. Aliás, esse era apenas um dos mais de dez modelitos usados por ela ao longo da noite, que também teve ares de desfile de moda.
Antes de interpretar Soltera, já de volta ao palco, Shakira fez um dos discursos mais fortes da noite. Falou de maternidade, sobrecarga feminina e sobrevivência. Dedicou o espetáculo às mulheres brasileiras que sustentam sozinhas seus lares e seus filhos, com as quais disse se identificar.
— É também a minha realidade.
Então, Shakira se tornou anfitriã. Recebeu no palco Anitta, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Ivete Sangalo, em participações que completaram a homenagem da colombiana ao Brasil.

Anitta foi a primeira a subir ao palco. Dividiu com Shakira a performance de Choka Choka, parceria recém-lançada entre as duas e presente no novo álbum da brasileira. O número foi marcado pela sintonia entre as artistas, simbolizando a união entre duas gerações do pop latino.
Na sequência, Caetano Veloso entrou no palco para um dueto de Leãozinho. Shakira o apresentou como um dos primeiros artistas brasileiros que conheceu e disse que costuma cantar a música escolhida para seus filhos. O momento teve caráter mais intimista, com o violão de Caetano conduzindo a performance e a cantora colombiana em postura de admiração diante do brasileiro. Ele, por sua vez, manteve-se contido — talvez incomodado com o atraso —, mas não deixou de demonstrar carinho pela colombiana.
Maria Bethânia veio logo depois para interpretar O Que É, O Que É, momento que prometia ser um dos mais emocionantes da noite. O número, no entanto, sofreu com a falta de sincronia entre as duas artistas, que em alguns momentos pareciam estar em ritmos distintos. Ainda assim, o impacto simbólico do encontro se manteve, reforçado pela força da canção e pela união de duas lobas incontestáveis.
Ivete Sangalo encerrou o bloco de participações com País Tropical. A entrada da baiana mudou a dinâmica do show, que rapidamente se transformou em uma micareta. Com forte energia e uma capacidade singular de se comunicar com o público, Ivete dominou o palco e ditou o ritmo da festa.
— É o Carnaval da Shakira — anunciou.
O espetáculo parecia estar perto de acabar, mas ainda vieram Whenever, Wherever e Waka Waka. A música-tema da Copa do Mundo de 2010 foi acompanhada pelos bailarinos do coletivo Dance Maré, da favela da Maré, no Rio, que já haviam chamado atenção da artista por postarem vídeos coreografando sucessos dela.
Shakira, então, deixou o palco e acenou uma despedida, mas era só charme. Em seguida, a artista — e também a loba cenográfica gigante que acompanha sua turnê — voltou para, agora sim, despedir-se dos fãs. A colombiana interpretou as "lobísticas" She Wolf e Music Sessions, Vol. 53/66, canção que traz a máxima "as mulheres já não choram, as mulheres faturam".
Então, percorreu o palco balançando uma bandeira do Brasil, enquanto fogos de artifício sinalizavam que o show estava mesmo terminando. Shakira disse que jamais esqueceria aquela noite. E foi aclamada. Amada em voz alta. Devotada. Enfim, respeitada como a grande artista e mulher que sempre foi.
* A repórter viajou a convite de 99.



