Não foi uma noite de explosões roqueiras, como nos tempos de sua notória ex-banda, Led Zeppelin. Tampouco de nostalgia. Contudo, não foi menos arrebatador. No show realizado no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, na noite desta terça-feira (19), Robert Plant realçou sua maturidade artística: sólida, elegante e precisa.
Foi a segunda vez de Plant em Porto Alegre. Na primeira ocasião, o ex-vocalista do Led Zeppelin se apresentou na capital gaúcha em 2012, no Gigantinho, acompanhado da banda The Sensational Space Shifters.
Desta vez, Plant voltou com a turnê Roar in the Fall (também traduzida na divulgação por aqui como Rugido de Outono), com o projeto Saving Grace with Suzi Dian. Aliás, Suzi divide os vocais do repertório com o cantor e toca acordeom. Completam a banda Tony Kelsey (mandola, guitarra e banjo), Matt Worley (banjo e guitarra), Barney Morse-Brown (violoncelo) e Oli Jefferson (bateria e percussão).
A turnê foi concebida a partir do álbum Saving Grace (2025). Com este projeto, o cantor de 77 anos apresenta um show intimista, trazendo influências de folk, blues, gospel e country. É como se Plant estivesse saudando algumas de suas referências.
É inegável que o cantor é o nome mais conhecido no palco, mas ele já ressaltou que encara o projeto como uma empreitada coletiva. Em relação a Suzi, Plant declarou anteriormente que precisava de alguém que "representasse um caminho suave e doce". No caso, uma voz feminina que pode ir além de seu próprio alcance.
E foi isso que Suzi proporcionou no Araújo. A cantora inglesa atuava como um contraponto vocal: adicionava textura e profundidade emocional ao canto de Plant. Conscientemente, o cantor divide os agudos e alguns trechos de maior brilho com a artista.

Havia músicas em que ela conduzia as linhas mais altas enquanto Plant entrava como contraponto rouco e expressivo. Cada vez que assumia o vocal principal, a cantora evidenciava sua delicadeza folk.
É natural que o tempo cobre o seu preço. Plant certamente não tem mais aquela potência ou alcance agudo dos tempos de Led. É um vocal ligeiramente mais contido. Contudo, o cantor ainda carrega interpretação e inteligência vocal. Plant aposta em intenção e emoção. Ele adaptou sua técnica à idade. Ainda é uma presença imponente, mesmo dentro de uma proposta intimista e coletiva.
Comunicativo e bem-humorado, Plant também comentou sobre uma ou outra canção do repertório e fez algumas brincadeiras. Na volta para o bis, alguém da plateia gritou Rock and Roll, solicitando a faixa do Led IV. Ao que o cantor deu de ombros:
— It’s only rock and roll here ("Só tem rock and roll aqui", em tradução livre).
Cativante e cirúrgico
Diante de 3,2 mil pessoas, Plant e seus comparsas fizeram um show cativante e cirúrgico de 1h30min. Por vezes, havia uma atmosfera mística promovida pela banda. A apresentação começou às 21h09min, com uma versão de The Very Day I'm Gone, de Nora Brown. Logo no início, Plant já comprovou que ainda tem força no gogó.
O show seguiu mesclando cancioneiros afetivos para Plant, como Higher Rock (cover de Martha Scanlan presente no álbum de 2025, que teve o vocalista tocando harmônica), Orphan Girl (de Gillian Welch, com parte solo de Suzi), Angel Dance (de Los Lobos, gravada pelo cantor em 2010), It's a Beautiful Day Today (de Moby Grape, também presente no Saving Grace) e até uma faixa de Neil Young (For the Turnstiles), com Suzi no comando e solo sobrenatural de violoncelo.
Porém, os momentos em que Plant e o grupo resgataram canções do Led foram os que mais atiçaram o público. Casos de Ramble On, Four Sticks, Friends e Bron-Y-Aur Stomp (com citação a Black Dog), que fechou o show. Foi quando a nostalgia bateu, quando emergiu o motivo pelo qual a plateia conheceu o cantor. Muitos dos presentes no Araújo ansiavam por mais dessas experiências.
Só que Plant não estava interessado em reverberar nostalgia, mas sim em reverenciar as raízes folk que sempre estiveram na base de sua formação. Mais do que preservar a própria voz, Robert Plant aprendeu a reinterpretá-la, além de se reinventar.




