As escolas de música de Porto Alegre estão se adaptando aos novos tempos tecnológicos para manter o interesse dos alunos em um mundo cada vez mais veloz.
Os antigos cadernos com partituras desenhadas à mão convivem agora com tablets. Aplicativos são aliados recorrentes e importantes no processo do ensino musical. O YouTube e o Spotify auxiliam os alunos nas tarefas.
Porém, nada substitui a prática e a dedicação do estudante na hora de aprender a tocar algum instrumento ou a cantar. Oficinas individuais ou em grupos também são estratégias adotadas pelas escolas para atrair novos alunos.
Conforme dados da Sala do Empreendedor da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos (Smdete), a capital gaúcha tem 61 empresas ativas de ensino de música.
Zero Hora visitou três das mais tradicionais para saber o que mudou nos últimos tempos — e o que continua funcionando.
Aplicativos de música e divulgação nas redes
A Talentho's Escolas de Música, empresa familiar com 37 anos de atividade e que conta com duas sedes em Porto Alegre (nos bairros Menino Deus e São João), tem buscado empregar novas ferramentas didáticas e mudou inclusive sua estratégia de marketing.
Na avaliação da diretora e professora de piano da escola, Renata Cristina Santos de Souza, crianças e adolescentes têm características muito imediatistas em relação à aprendizagem em função da instantaneidade das redes sociais. Hoje, a escola usa aplicativos de música que criam partituras.
— O segredo é individualizar o aprendizado — aponta Renata. — Ao longo dos anos, fomos criando alguns recursos dentro de sala de aula para que a gente consiga prender a atenção desse consumidor, para que ele entenda que o processo não é de um dia para o outro.
Nos anos 1990, a Talentho's realizava grandes apresentações para atrair alunos. Porém, questionou se essas ações ainda valiam a pena.
— Percebemos que hoje em dia ninguém tira o rosto do celular nem olha para os lados. Esse tipo de atração (apresentações em locais de grande circulação de pessoas) não é mais interessante — comenta a diretora da escola.
Marketing agora é digital
Com cerca de 450 alunos e 23 professores, a escola ainda organiza eventos como saraus e shows semestrais em teatros da Capital para a prática dos alunos, mas o marketing ocorre principalmente por canais digitais. A escola inclusive conta com uma agência para produzir imagens profissionais.
— Os conteúdos são transformados em marketing em redes sociais e principalmente no Google. Mais de 70% dos alunos vêm para a escola por meio do Google — estima Renata.
Segundo ela, 90% dos clientes estudam música na Talentho's por hobby; poucos têm objetivos profissionais na área.
Excesso de informação pode atrapalhar, diz professor
A estudante de Direito Manuela Souza, 23 anos, que estuda guitarra na Talentho's desde agosto de 2025, evita usar o telefone celular durante as aulas. Em casa, para afinar o instrumento, usa aplicativos. E também utiliza aplicativos de vídeos quando tenta tocar música sozinha.
— Quando eu era adolescente, nunca tive a oportunidade de tocar um instrumento, algo em que eu pudesse usar a criatividade. Na vida adulta, quis misturar arte com minha profissão. A música permite que a gente seja quem a gente quiser ser, e não quem esperam que a gente seja — reflete.
Seu professor, Ricardo Sabadini, costuma aproveitar a tecnologia nos ensinamentos musicais, mas acredita que o excesso de informação pode deixar os alunos perdidos.
— Eles precisam de um lugar para se concentrar e ter uma direção. Antigamente, o tempo era mais lento, e agora é muito mais imediato. Uso qualquer coisa de tecnologia nova em benefício da aula — afirma, citando programas que facilitam a escrita de partitura e tablatura (notação utilizada para guitarra, violão e baixo) e para compartilhamento de vídeos entre alunos e professores.
Tablets, playlists e grupos de música
A Escola de Música Cordas & Cordas, que acaba de completar 40 anos, sempre procurou se adaptar aos novos tempos para sobreviver e se reinventar. Hoje, a tecnologia funciona como aliada do ensino.
Alguns professores levam tablets para as aulas. Também são pedidas aos alunos playlists (listas de músicas) para saber do que gostam ou o que desejam aprender a tocar.
Para a cantora, violonista e coordenadora da Cordas & Cordas Rosana Marques Poeta de Moraes, a tecnologia tem o benefício da praticidade, mas não substitui por completo alguns dos antigos métodos:
— Nas aulas de teoria musical, eu sempre digo para os alunos: "Vocês precisam aprender a escrever uma partitura". O cérebro da criança e de qualquer pessoa funciona com o trabalho manual junto.
Escola de música ainda tem seu papel, diz coordenadora
Com sede no Bom Fim, a Cordas & Cordas tem aproximadamente 130 alunos e 20 professores. Rosana diz que dispositivos tecnológicos são usados como referência, mas ressalva que o objetivo de fazer música é o aprendizado e o relacionamento entre as pessoas.
— O que chama muito a atenção dos alunos são os projetos, que atraem desde jovens em busca de experiência em bandas até os adultos que se interessam por grupos de canto e instrumentais.
Exemplos desses projetos são o Bandas in Concert, que existe há mais de 30 anos para a prática de conjunto; o Coletivo Feminino de Canto Brasileiro, que reúne mulheres que desejam cantar seu repertório; e o Cavaquinho para Mulheres.
No pavimento mais alto do prédio, há inclusive um teatro de bolso, batizado em homenagem ao fundador da escola, o professor de música e diretor de teatro Ernani Poeta de Moraes, já falecido.
A escola oferece aulas individuais de canto e de instrumentos. O ukulele, originário do Havaí, é bastante procurado por ser considerado de fácil aprendizagem. A escola também prepara alunos para ingresso no curso de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que exige provas específicas. Rosana conclui:
— Tem muita coisa boa na internet, acho que esses cursos (online) acrescentam muito, mas a escola ainda tem seu papel.
Livros de colorir e músicas da Copa do Mundo
Completando 43 anos em 2026, a Escola de Música Tio Zequinha usa a criatividade para manter o interesse dos alunos renovado.
Inspirado no sucesso dos livros de colorir Bobbie Goods, surgiu o Tio Zequinha Goods, voltado à alfabetização musical de crianças. Também é um livro de colorir, mas com uma diferença: ao apontar o celular para os QR Codes nas páginas, pode-se ouvir músicas.
Aproveitando o clima de Copa do Mundo, a escola localizada no bairro Mont'Serrat decorou sua sala de audição com as bandeiras dos países classificados. Os concertos de encerramento do primeiro semestre terão essas culturas em destaque.
— Trabalhamos em cima daquilo que já funcionou e em novidades, novos projetos de motivação aos estudos — diz o coordenador pedagógico-artístico, Carlos Alberto de Souza.
Com cerca de 350 alunos e 25 professores, a Tio Zequinha ofereceu aulas online durante a pandemia de covid-19, mas os encontros voltaram a ser presenciais. As partituras ainda são ensinadas de maneira tradicional, com leitura no papel. O trabalho tem característica artesanal.
Papel da família é determinante, diz coordenador
A escola se prepara renovando os materiais e aplicando novas formas de ensino, mas busca manter o que considera sua essência.
— Queremos que a família esteja junto com o jovem, que haja o contato humano, com o professor dando o exemplo. Crianças pequenas não recebem o instrumento se não tiverem os pais dentro da sala de aula — explica Souza.
Dessa maneira, pessoas de diferentes idades transitam pelas salas. A música é ensinada até para quem ainda não nasceu, pois há turmas para gestantes. O núcleo de musicalização, que prepara para a prática de instrumentos, abrange desde bebês até crianças com 10 anos de idade.
Alunos com síndrome de Down, transtorno do espectro autista ou outro tipo de condição especial também têm a oportunidade de desenvolver sua musicalidade.
Entre as atividades oferecidas estão aulas individuais de instrumentos, aulas em grupos, oficinas e concertos. Há quatro orquestras e algumas bandas.
De acordo com Souza, o perfil de quem estuda no local é composto por alunos que estão há muitos anos em contato com a música. Após uma trajetória extensa, decidem se transformar em professores na própria Tio Zequinha ou tocar na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa), além de outras instituições do país.
— Criamos toda uma atmosfera de família, de otimismo e de buscar novos horizontes — resume Souza.





