Uma legião com bandanas, camisetas pretas, flanelas amarradas na cintura e, eventualmente, até cartolas, tomou conta do Jockey Club do Rio Grande do Sul, na zona sul de Porto Alegre, nesta quarta-feira (1º). Mais precisamente 25 mil pessoas, conforme a organização do evento.
Também pudera, Guns N' Roses estava ali. Para muita gente, quando se pensa em rock, a banda é a primeira referência. Afinal, quantos fãs não despertaram para a música ao ouvirem a introdução de Sweet Child O' Mine pela primeira vez? Quantos não paravam tudo para assistir à cafonice irresistível de November Rain quando passava na TV?
Ao longo de duas horas e 20 minutos, o Guns repassou a sua história para um público majoritariamente nostálgico. Mas havia sangue novo. O show foi realizado quase no mesmo horário da partida entre Internacional e São Paulo, no Estádio Beira-Rio — não muito longe do Jockey. O trânsito pela região estava periclitante antes e depois da apresentação.
Por sua vez, o Jockey voltava a receber um mega show de rock. Por ali, Metallica e Kiss se apresentaram em 1999. Nos últimos dois anos, o Festival Chisme voltou a trazer música ao espaço.
Em relação ao Guns, foi a quinta vez da banda na Capital: a primeira foi em 2010 no estacionamento da Fiergs. A segunda, novamente na Fiergs, em 2014. A terceira, em 2016, no Beira-Rio e a quarta, na Arena do Grêmio em 2022. Desta vez, o Guns voltou com a turnê Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things. Da formação clássica, estão o vocalista Axl Rose, o guitarrista Slash e o baixista Duff McKagan.
Além do trio, há Richard Fortus (guitarra), Isaac Carpenter (bateria) e Dizzy Reed (teclado, estando no grupo desde o começo dos anos 1990). A outra tecladista, Melissa Reese, não voltou para a turnê de 2026 por "motivos pessoais imprevistos", segundo a banda.
Revirando a farofa
Antes do Guns subir ao palco, a abertura foi realizada pela Halestorm — banda de hard rock americana comandada pela carismática vocalista e guitarrista Lzzy Hale. Com competência e a potência vocal de Lzzy, o grupo cumpriu o seu papel e aqueceu o público.
Previsto para começar às 20h30min, conforme a organização do evento, o show teve início com 20 minutos de atraso. O que até foi uma boa notícia para o público de Porto Alegre. Na primeira passagem do Guns pela capital gaúcha, em 2010, a banda atrasou quatro horas. Em 2014, o show demorou uma hora e meia para iniciar.
No repertório, cada pedaço da carreira do Guns foi trazido ao palco. Algumas ausências do setlist recente foram sentidas, casos de Patience e Don't Cry. Trabalhos mais recentes marcaram presença no repertório, como os singles Atlas e Nothin', que foram lançados no ano passado. Perhaps, de 2023, também entrou.
Só que a abertura ficou por conta de um hino do imbatível álbum de estreia, Appetite for Destruction (1987): Welcome To The Jungle saudou os presentes. Já nos riffs iniciais os fãs deliraram. Foi jogo ganho.
A banda segue coesa em sua cozinha. Slash, por exemplo, é mesmerizante. Cada solo do guitarrista fazia o público vibrar como se fosse um gol. Vê-lo ao vivo com a sua cabeleira, cartola e um charuto ocasional é presenciar uma entidade do rock. É a definição de "farmar aura", conforme a expressão que tem sido bastante utilizada nas redes sociais.
Já o Axl de hoje é esforçado e ainda apresenta momentos de brilho. É claro que a voz do vocalista já não é mais a mesma, afinal, o tempo passa — são muitos novembros chuvosos. Tem vezes que falha ou entra errado. Parece que às vezes ele luta para cantar. Contudo, não dá para dizer que ele não tem disposição e presença de palco. Em relação à comunicação com o público, apenas algumas frases e brincadeiras curtas, cumprimentos e agradecimentos (o tradicional "obrigado" em português).
Em algumas partes da apresentação, o som do vocal de Axl estava mais baixo que dos instrumentos, especialmente no começo do show. Parecia que, às vezes, faltava um equilíbrio no som. De qualquer maneira, o Guns não é mais aquela banda mais perigosa do mundo como foi um dia, quando promovia shows imprevisíveis e destrutivos. Porém, ainda diverte, ainda encanta, ainda tem lá a sua lenha para queimar.
Depois da abertura, o show seguiu com Live and Let Die, cover de Wings, e incluiu êxitos como Mr. Brownstone e It's So Easy.
Ainda no primeiro terço da apresentação, o Guns prestou tributo a um ícone do rock com o cover de Sabbath Bloody Sabbath, do Black Sabbath. Foi quando o telão do palco exibiu a mensagem "R.I.P. ~ Ozzy". O eterno vocalista do Sabbath (e de uma radiante carreira solo) morreu em julho do ano passado. Antes, Axl dedicou:
— Por Ozzy.
O show teve sequência com mais pontos altos, caso de Civil War. Outro exemplo foi You Could Be Mine, que fez milhares de pessoas lembrarem de O Exterminador do Futuro 2. Então, Axl foi descansar a voz. Duff assumiu os vocais prestando tributo a uma de suas referências do punk rock — Attitude, dos Misfits.
O vocalista voltou para outro cover, desta vez de Bob Dylan. Aqui, o público fez segunda voz em Knockin' on Heaven's Door. Após um momento solo bastante celebrado de Slash, Estranged conquistou o Jockey.
Mas a explosão veio mesmo com a balada radiofônica Sweet Child o' Mine. Foi um êxtase para todo tipo de fã, não só aqueles da velha guarda. Vozes de filhos e filhas puderam ser ouvidas cantando "Where do we go?/ Where do we go now?". É possível pensar que alguns pais no local nem tivessem nascido quando esta música saiu.
A seguir, o Guns trouxe a farofa definitiva: November Rain, com Axl no piano. A euforia tomou conta, especialmente nos solos de Slash — que nem precisou sair de uma capela para isso. Talvez fosse a música que alguns fãs na pista premium mais aguardavam, pois foi a deixa para o início de uma sutil debandada do Jockey. Ou talvez fosse o receio do trânsito na saída.
Saíram antes da animada b-side Shadow of Your Love ser executada — originalmente, a faixa foi criada para a Hollywood Rose, banda precursora do Guns. Ou Nightrain, que partiu um pouco depois. E, por fim, a derradeira e empolgante Paradise City, que acordou a Zona Sul. Ou, quem sabe, a cidade inteira.




