
Por Everton Cardoso*
Quando as cortinas abriram, no último domingo (29) no Teatro João Simões Lopes Neto do Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre, iniciava-se a segunda cena do segundo ato da ópera La Traviata.
No palco, a representação de uma festa de máscaras ambientada na Paris dos anos 1920. Na parede branca, um painel de fundo preto tem linhas geométricas em dourado que remetem ao estilo art déco. Diante dele, um bar. Cordões com esferas de cristal pendem do texto em linhas paralelas e curvas, qual um bandô. As mulheres têm vestidos de silhueta solta e cabelo chanel, representando muito do estilo dessa época. Os homens vestem trajes pretos com gravata borboleta preta.
Esses elementos sintetizam a posta em cena escolhida pela Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul (Cors) para a montagem da obra de Giuseppe Verdi que teve quatro récitas (de sábado, 28, a terça, 31) com direção musical e regência de Marcelo de Jesus, à frente da Orquestra Theatro São Pedro.
A concepção e a direção cênica de Flávio Leite que ambientam nos années folles — ou os anos loucos — cabem muito bem. Afinal, esse foi um tempo de ruptura drástica com os valores conservadores típicos do período anterior à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e isso está em bastante sintonia com o espírito do libreto de Francesco Maria Piave.

Obra atemporal
Essa mesma cena é uma das evidências de que boas obras do repertório lírico são atemporais. Nela, o protagonista Alfredo Germont chega à festa e, logo em seguida, Violetta Valéry — a personagem-título e seu par romântico — aparece acompanhada. Acontece que, depois de se apaixonarem e terem vivido juntos, os protagonistas romperam por pressão do pai de Germont.
Alfredo, no evento social, aborda a cortesã e a pressiona para que seja sincera sobre seus sentimentos. Furioso, Alfredo atira em Violetta todo o dinheiro que ganhara no jogo. "Conhecem esta mulher? Sabem o que fez?", esbraveja. Diante desse quadro, as pessoas presentes respondem: "Difamador ignóbil de mulheres, fique longe daqui, causa-nos horror!". Ele, então, justifica sua atitude pelo ciúme e diz sentir remorso.
Independentemente do rumo que a história toma depois disso — Violetta o perdoa e o casal se reconcilia para, depois, viver o típico fim trágico —, esse momento da obra não poderia ser mais atual. Falamos aqui de um homem que, envolvido com uma mulher que chegou ao ponto de vender seus bens para sustentar o relacionamento com ele, a expõe publicamente com violência.

Diálogo com o presente
Isso dialoga com o momento que vivemos, afinal, o ano passado foi triste para o Brasil: segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Não podemos esquecer que muitos desses casos são justificados por ciúme ou por defesa da honra, coisas que a esta altura já não cabem mais.
É impressionante que, em La Traviata, isso já fosse rechaçado ainda no século 19. Em 1857, quando a obra estreou no Teatro La Fenice, em Veneza, tudo isso ainda não estava no centro do debate. É por isso que talvez tivesse sido interessante que a Cors tivesse utilizado mais elementos para sinalizar essa questão.
Montagens de crescente qualidade
A montagem apresentada pela companhia gaúcha é uma evidência de que está amadurecendo: hoje, tem residência no Multipalco Eva Sopher, elabora temporadas anuais, atua em parcerias com orquestras e instituições e realiza montagens de crescente qualidade.
A isso se soma o fato de o coro lírico, sob a regência de Sérgio Sisto, ser um corpo artístico estável, o que claramente tem impacto sobre a atuação e que teve destaque no famoso trecho Libiamo ne' lieti calici, no primeiro ato. A cenografia de Eduardo Menna e os figurinos de Daniel Lion também evidenciam essa qualificação.
O momento mais bonito

Na récita a que tive oportunidade de assistir, no domingo, o elenco teve boa performance. A soprano Elisa Machado e o tenor Felipe Bertol estiveram bem em cena como Violetta e Alfredo. Apenas em alguns momentos, sobretudo em trechos de mais diálogo, o canto perdeu força, mas sem comprometer o todo.
O momento mais bonito da noite foi a comovente cena final, quando ela está acamada em razão de tuberculose e ele retorna. Cantam sobre uma vida de amor que imaginavam ter pela frente, mas ela morre. A linda cena com iluminação âmbar num quarto marcado por reflexos de um vitral é comovente.
O barítono Roger Bueno também teve destaque em seu papel como Giorgio Germont, pai de Alfredo: seu canto era potente e claro.
Dois elencos de protagonistas se alternaram nas quatro récitas da montagem. Também se apresentaram Ludmilla Bauerfeldt (Violetta), Giovanni Tristacci (Alfredo) e Lício Bruno (Giorgio Germont).

Experiência revivida
Talvez uma reflexão que pudesse ficar depois de uma montagem como esta é: o que faz de uma proposta cênica, assim como as obras que as inspiram, permanentes em nossas memórias? Isso tem a ver com algo que, na arte, está no campo do sensível.
A cena final da montagem de Turandot pela própria Cors, no ano passado, com sua escadaria e sua lua formada por leques, é um ótimo exemplo. São soluções cênicas que, seja pelo inusitado, seja pela monumentalidade, permanecem como uma âncora para que possamos voltar àquela poltrona de teatro e reviver aquela experiência sempre que a música tocar.
E assim foi com esta montagem da Cors: o episódio de violência de Alfredo, ainda que pudesse ter tido um pouco mais de força cênica, mudou para sempre minha relação com esta ópera.
* Everton Cardoso é jornalista e crítico

