
Foi com um violão, um microfone e um punhado de canções autorais que Chico César se apresentou ao Brasil. Em 1995, o compositor paraibano lançou Aos Vivos, disco de estreia que o inseriu em definitivo em uma geração responsável por renovar a MPB.
Passadas três décadas, ele revisita o álbum em uma turnê que chega a Porto Alegre neste domingo (12). O show será no Auditório Araújo Vianna e os ingressos estão à venda pelo Sympla.
Aos Vivos é fruto de "minimalismo econômico e estético", nas palavras do próprio Chico. Em 1994, depois de desistir da carreira de jornalista para se dedicar à música, ele se preparava para entrar em estúdio pela primeira vez, sob a batuta de André Abujamra e com arranjos que incluíam guitarras e percussão. Foi quando deparou-se com um problema: não tinha dinheiro para custear a gravação.
Partiu de outro produtor, Egídio Conde, a sugestão de que ele não apenas fizesse o registro no palco como também se valesse somente de voz e violão. Convencido, Chico procurou uma produtora e pediu que ela conseguisse um local.
— Ela arranjou a Sala Funarte, em São Paulo, na Alameda Nothmann, e em 45 dias estávamos lá gravando — recorda Chico, em entrevista a Zero Hora.
Hoje um clássico, o álbum revelou o alto encanto linguístico das letras de Chico e a força de sua performance.

Para a celebração dos 30 anos, Chico aliou-se ao maestro e arranjador Adail Fernandes, com quem já havia trabalhado no álbum De Uns Tempos Para Cá (2006). No show, o cancioneiro de Aos Vivos é executado na íntegra, mas as versões intimistas e espontâneas do disco ganham outras tonalidades com o acompanhamento da Nova Orquestra, do Rio de Janeiro. Para Chico, é uma oportunidade de explorar novos caminhos a partir do próprio repertório.
As canções explodem esteticamente de modo diferente e, muitas vezes, surpreendente pra mim mesmo.
CHICO CÉSAR
Músico
O roteiro inicia com a emblemática Beradêro, peça central da obra de Chico, que no disco é interpretada a cappella. A letra, profundamente poética e política, trata da experiência do deslocamento das entranhas do país para a metrópole e do choque entre o arcaico e o cosmopolita — o que, por sinal, diz muito sobre a trajetória de Chico, nascido na pequena Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba, e há muitos anos radicado em São Paulo.
— É uma canção que eu pensava que pouca gente ia querer ouvir. Mas depois foi regravada por Mônica Salmaso, Zizi Possi, Elba Ramalho, fizeram remix, eletrônico, tem banda de rock pesado que também toca. É muito interessante como essa canção permanece viva — reflete.
Outras questões pulsantes na atualidade já eram cantadas por Chico 30 anos atrás, vide Mulher Eu Sei e Alma Não Tem Cor (cuja letra é de Abujamra). O disco ainda entregou dois inconfundíveis marcos noventistas: a também política Mama África e a romântica À Primeira Vista.
O novo clipe de Mama África
Beradêro também batizou um instituto cultural que acolhe jovens e adolescentes por meio da arte em Catolé do Rocha e que ajudou a manter o vínculo de Chico com suas raízes.
No ano passado, ele retornou à terra natal para levar a cabo outro projeto, a convite de produtores de Minas Gerais: gravar uma nova versão do clipe de Mama África. O vídeo original, dirigido por Anna Muylaert, tornou-se hit ao mostrar um plano-sequência de Chico percorrendo as ruas da cidade sertaneja, seguido por familiares e pessoas da comunidade.
Na nova gravação, alguns dos figurantes são os mesmos.
— Meus sobrinhos, que no original estavam vestidos de anjinhos, na nova versão estão segurando seus filhos. Foi interessante marcar a passagem desses 30 anos — observa.
A oxigenação da MPB
Com o disco Aos Vivos, Chico, cujo alcance até então se restringia ao underground paulistano, colocou-se junto a uma seleção de músicos de fora do Sudeste que oxigenaram a música brasileira a partir de bases regionais, sem constituir um movimento organizado. Na mesma toada, estão, por exemplo, Olho de Peixe (1993), de Lenine e Marcos Suzano, e Ramilonga (1997), de Vitor Ramil.
— Me sinto bastante orgulhoso da minha geração, que nem geração é. Além de aparecer, nós sobrevivemos. Independente das pressões do mercado, das modas, dos hypes, dos likes, estamos fazendo uma música muito viva e muito necessária para compreender um certo mosaico de Brasil — conta.


