
Porto Alegre realmente ama Jorge Drexler. Tanto que o cantor e compositor uruguaio vai realizar três apresentações com casa cheia na cidade.
Drexler subirá ao palco do Auditório Araújo Vianna nesta sexta-feira (29), no sábado (30) e no domingo (31). Ainda há ingressos para a terceira sessão (veja detalhes ao final). A procura costuma ser alta na capital gaúcha, que ele conhece muito bem.
Desta vez, o cantor vem com a turnê do disco Taracá, lançado em março. Em conversa com Zero Hora, ele falou sobre a cidade, o show e assuntos que permeiam o álbum, como o amor e a inteligência artificial.
Leia a entrevista com Jorge Drexler

Três datas em Porto Alegre: não são muitos artistas que perpetuam tamanha adoração por aqui. O que você percebe de diferente quando toca na capital gaúcha?
Sou muito agradecido ao público de Porto Alegre, que sempre demonstrou um carinho desproporcional com o meu trabalho.
Acho que contribui (para a identificação com Drexler) as características de Porto Alegre, a situação geográfica, a história do Rio Grande do Sul e a ênfase nessa identidade. Aí tem o mate, tem a milonga, tem essa coisa que eles olham muito para o Uruguai, que está bem perto deles.
O Brasil é tão gigantesco que para um gaúcho é mais perto ir a La Paloma ou Cabo Polonio (ambas no litoral do Uruguai) do que à Ilha Grande (no Rio de Janeiro). Então, eles se sentem perto dessa cultura. Me sinto muito bem acolhido.
Diferente do resto do país?
O Brasil é um país completamente autorreferencial na música. O nível da música brasileira, a variedade e a quantidade da música unidos ao isolamento linguístico do país o fazem ser um mercado muito, muito fechado. O Brasil só se abre para a música dos Estados Unidos, na verdade. E a música latina que se ouve no Brasil é sistematicamente a música que entra com sucesso nos Estados Unidos, como Shakira ou Bad Bunny.
Como sente isso em relação ao seu trabalho?
Me sinto afortunado de ser uma enorme exceção, porque não tenho sucesso nos Estados Unidos. Não sou um artista multitudinário em nenhum lugar. Estou feliz com a dimensão do meu trabalho, mas não é uma dimensão supermassiva. Me alegro com o tratamento que tenho no Brasil em geral — e em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul em particular.
A música latina que se ouve no Brasil é sistematicamente a música que entra com sucesso nos Estados Unidos, como Shakira ou Bad Bunny.
JORGE DREXLER
Músico
No show de Tinta y Tiempo, seu trabalho anterior, você apresentava todas as faixas do disco. O mesmo se repete com a turnê de Taracá?
Gosto de tocar inteiramente o disco novo. É um desafio grande porque o show não pode ter mais de 25 ou 26 músicas. Se você inserir as 11 ou 12 faixas do álbum, quase metade do repertório já está determinado.
Mas eu curto isso, porque sinto muita vontade de ouvir como as músicas novas funcionam no palco. Ao mesmo tempo, estou com vontade de ouvir o som novo do disco, centrado na percussão e no candombe (ritmo típico do Uruguai), aplicado às músicas mais antigas.
Creio que é um show para ser visto em boa parte em pé. É uma apresentação muito rítmica e expansiva.
Em Taracá, há uma versão em espanhol para O Que É, o Que É, de Gonzaguinha, rebatizada como ¿Qué Será que Es?. Essa canção é um mantra para muitos brasileiros. Como foi a decisão de gravar essa versão trabalhada com o candombe?
Adoro essa música. Comecei a reparar em seu refrão nas rodas de samba: a catarse que essa música gera no ouvinte, a aceitação da vida com suas imperfeições e da felicidade como o direito à celebração.
É uma música terapêutica, em que você vai desenvolvendo uma espiral de perguntas filosóficas de máximo nível. Não é habitual que na música popular haja reflexões sobre o ser ou o significado da vida. Tudo isso dentro de um marco musical complexo, pois as estrofes vão mudando e se parecendo uma com a outra, mas sempre diferente, sempre nova. A forma de O Que É, o Que É? é de uma genialidade absoluta.
Desde a primeira vez que ouvi essa música, pensei que deveria ser ouvida por um público que não fala português. Fiz uma adaptação com a Rueda de Candombe, uma agrupação uruguaia que funciona como uma roda de samba, só que de candombe.
Em Taracá, a faixa ¿Cómo se Ama? retrata uma mudança na forma como nos relacionamos, citando referências ao mundo digital e um possível marasmo gerado por isso. O que o inspirou a elaborar essa canção?
Foi a partir de uma conversa com meu filho mais velho, que tem 28 anos agora. Ele constatou que uma parte importante de sua geração não sabe se apaixonar.
Ao menos na Espanha acontece isso agora, de se expandir os contatos interpessoais, mas a continuidade e a entrega absoluta virou uma coisa estranha. Você ganha uma coisa e perde outra. Senti que essa pergunta (como se ama?) era muito sincera. Achei que era importante fazê-la dentro de uma música.
Talvez haja alguma coisa errada se a pessoa precisa perguntar isso…
Não dá para se orgulhar muito de inserir (a pergunta) numa música, mas creio que foi um ato de sinceridade. Está acontecendo isso neste momento da história e talvez da parte da minha biografia também. As músicas, às vezes, são um pouco biográficas, mesmo que só em parte.
(A inspiração) Vem também de uma pergunta de outra pessoa. É uma época em que todo mundo explica tudo, há tutoriais para tudo. A canção até brinca com isso de procurar um tutorial. Ninguém entende nada e todo mundo explica tudo na internet.
Meu filho, que tem 28 anos, constatou que uma parte importante de sua geração não sabe se apaixonar.
JORGE DREXLER
Músico
Por sua vez, a canção Amar y Ser Amado parece colocar o amor em duas posições que nem sempre caminham juntas. Que tipo de visão do amor você queria explorar?
Amar y Ser Amado reduz as variáveis da intenção vital do ser humano a um fato muito simples: amar e ser amado, e nada mais. Somente amar não é completo. E somente ser amado também não. Como diz Caetano Veloso em Nature Boy (canção de Eden Ahbez): "The greatest things you'll ever learn/ Is just to love and be loved in return". Ou seja, a coisa mais importante que você vai aprender na sua vida é amar e ser amado de volta.
É uma experiência que eu tenho com meus filhos. Você começa a se lembrar também na sua vida do primeiro momento em que ama e é amado, essa sensação de correspondência. Não tem nada que tenha essa força na vida de uma pessoa, é uma plenitude. Amar a descendência e ser amado por ela, por seus pais e também por toda essa cadeia de amor que é a vida.
O novo disco tem uma canção sobre inteligência artificial, ¿Hay Alguien A.I.?. Como é ser um artista na era da inteligência artificial?
Sou fascinado pelo ser humano, tudo me interessa. Então, não tem como eu não ficar fascinado pela inteligência artificial. Dado que ela vai ampliando o campo de coisas que ela faz melhor do que nós, os seres humanos, a grande pergunta, a mais maravilhosa e mais antiga de todas é a seguinte: o que faz de um ser humano um ser humano?
Se uma máquina joga xadrez melhor que você, então isso já não é patrimônio único do ser humano. Então, onde fica o último reduto da humanidade que não é substituível por uma máquina? A identidade humana é infinita, mas deve ser procurada cada vez mais a fundo, já que muita coisa pode ser substituída por uma máquina.
Todo mundo pergunta: é possível fazer poesia com inteligência artificial? A minha resposta, por agora, é não.
JORGE DREXLER
Músico
Porém, há coisas que não podem.
Recentemente, fui a um forró em São Paulo e deparei com aquela presença humana, a dança. Talvez venha a ter no futuro um robô dançante, mas a pele, o movimento e o corpo são muito difíceis de imitar. A presença humana é impossível de imitar sem uma experiência biográfica ou uma história pessoal por trás.
Todo mundo pergunta: é possível fazer poesia com inteligência artificial? A minha resposta, por agora, é não. Tem jeitos de juntar palavras em que elas ganham poder juntas. Todas as vezes que tentei fazer poesia com IA, ela teve uma perfeição sintática, semântica, tudo tinha um significado claro e correto, mas nenhuma situação de empoderamento de uma palavra, nenhuma.
Sem alma?
Eu não gosto de falar de alma, mas não gerava poder ou emoção. Não tinha esse mistério que surge quando você comete um erro na poesia, ou comete uma incongruência. A inteligência artificial é indefectivelmente congruente. E a poesia não sai somente da lógica. Ela precisa da lógica, mas é muitas vezes fruto do ilógico, do erro, da incoerência, da surpresa.
Não uso a inteligência artificial como ferramenta criativa, mas como pesquisa. Para esse uso, é maravilhosa. Estudo muito com meus filhos, pois esqueci tudo de matemática. Adoro, mas não serve como ferramenta poética.
Jorge Drexler em Taracá
- Nesta sexta-feira (29) e sábado (30), às 21h, e domingo (31), às 19h, no Auditório Araújo Vianna (Avenida Osvaldo Aranha, 685), em Porto Alegre
- Ingressos: a partir de R$ 170 (solidário, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível). Disponíveis apenas para domingo (as sessões de sexta e sábado estão esgotadas)
- Ponto de venda com taxa: pela Sympla. Pontos sem taxa: loja Planeta Surf Bourbon Wallig (Avenida Assis Brasil, 2.611), das 10h às 22h, somente em dinheiro; bilheteria do Araújo Vianna, somente duas horas antes do início do show
- Desconto de 50% para sócios do Clube do Assinante e um acompanhante sobre o valor inteiro


