Há 45 anos que os versos "Deu pra ti,/ Baixo astral/ Vou pra Porto Alegre/ Tchau!” trazem sentimentos afetivos sobre a capital gaúcha. Dizem muito para aqueles porto-alegrenses que vivem em outras partes do globo. Os versos atingem quem tem saudade de uma Porto Alegre que não existe mais. Dialogam com aqueles que, eventualmente, passaram pela cidade.
Não é de se estranhar que a composição de Kleiton & Kledir tenha sido a mais lembrada no especial A Música de POA.
Para festejar o aniversário de 254 anos de Porto Alegre, completados nesta quinta-feira (26), Zero Hora perguntou a 200 artistas da música: para você, qual é a música que melhor representa a cidade?
Votaram profissionais de diferentes funções (cantores, instrumentistas, DJs) e gerações, abrangendo variados estilos musicais — rock, rap, funk, eletrônica, samba, blues, regional, jazz etc. De Armandinho a Adriana Calcanhotto. De MC Jean Paul a Vitor Kley. De Humberto Gessinger a Luiz Marenco. De Nitro Di ao maestro Manfredo Schmiedt. De Duda Calvin a Valéria Barcellos (acesse a lista completa).
Os participantes não precisavam ter nascido ou estar vivendo em Porto Alegre: apenas possuir uma conexão sólida com a Capital.
A lista de votantes procurou ser o mais representativa possível. Alguns convidados não atenderam a reportagem.
Músicas mais lembradas

Entre os 200 votantes, 80 canções foram lembradas.
Não faltaram clássicos como Porto Alegre É Demais, composição de José Fogaça imortalizada na interpretação de Isabela Fogaça, que ficou em segundo lugar, com 18 votos.
Em terceiro, empataram Amigo Punk, composta por Frank Jorge e Marcelo Birck, da Graforréia Xilarmônica, e Ramilonga, de Vitor Ramil, cada uma com 15 votos.
Na sequência, vieram Pegadas, de Bebeto Alves (em quarto lugar, com 10 votos), e Horizontes (em quinto lugar, com sete votos), composta por Flávio Bicca Rocha, interpretada na peça Bailei na Curva e célebre na gravação de Elaine Geissler.
Júri popular
Em enquete com leitores de Zero Hora, Porto Alegre É Demais ficou em primeiro lugar, com 36,8%. Em segundo, veio Deu pra Ti, com 32,1%.
Por que "Deu pra Ti" emociona
Deu pra Ti, de Kleiton & Kledir, ficou no topo com 36 votos, o dobro da segunda colocada. Foi escolhida por artistas de diferentes gêneros, como a cantora Marguerite Ramos Silva:
— Essa música marcou minha infância e minha vida. Minha saudosa mãe, Iracema, amava Deu pra Ti. E tive o prazer de cantá-la com Kleiton & Kledir nos Concertos Comunitários Zaffari, sob regência do maestro eterno Frederico Gerling Junior.
Conhecido por suas interpretações de Tim Maia e pelo Baile Flashback, o cantor Jorjão Master sente uma identificação com Deu pra Ti. Para ele, a faixa lembra suas histórias na capital:
— Envolve o coração e o amor do porto-alegrense pela cidade. Mexe com a gente.
Canção emblemática
Ex-vocalista da Tequila Baby e hoje em carreira solo, o cantor Duda Calvin lembra um momento especial com a música:
— Estava fazendo uma tour, eram duas semanas fora da cidade. No último show, já cansados na van, um integrante da equipe técnica começou a cantarolar Deu pra Ti. Cara, quando a gente viu, todo mundo estava cantando essa música, tamanha a saudade de casa. Na minha opinião, é uma das canções mais emblemáticas sobre a cidade.

No quesito saudade, a cantora Izmália recorda:
— Quando estava viajando pelo Brasil, divulgando meu disco, eu sentia muita saudade de Porto Alegre. Foi aqui que nasci, me criei. Longe daqui, a música que mais me vinha à cabeça e que mais o meu coração sentia era essa. Eu cantava quando ficava triste.
Deu Pra Ti ecoa em gerações diferentes de artistas gaúchos. Um exemplo é o cantor Vitor Kley. Ele observa:
— É um som muito especial. Me sinto muito honrado de ter nascido no Rio Grande do Sul, de ter todas essas influências musicais no meu DNA. Esses tempos eu encontrei o Kleiton num programa de televisão e foi muito especial ver ele cantando e tocando o violino dele. Foi muito inspirador.
Como surgiu a música

Deu pra Ti abre o segundo disco de Kleiton & Kledir, de 1981, que leva o nome da dupla. Naquela época, os irmãos já viviam no Rio de Janeiro, após terem se projetado com a banda Almôndegas nos anos 1970.
Tudo começou com Kleiton, que compôs um instrumental com uma levada latina. Em cima do ritmo, criou uma grade harmônica com vários acordes. Depois, foi acrescentando a melodia aos poucos. Então, entregou a versão instrumental para Kledir escrever a letra.
Kledir ressalta que é uma "canção de exílio": era um momento em que a dupla sentia muita saudade do Sul. Naquele período, todas as lembranças de Porto Alegre, onde haviam vivido nos anos 1970, eram incríveis. Era como se bastasse ir à Capital para dar um fim no baixo astral.
Logo a canção foi abraçada não só por porto-alegrenses, mas também por pessoas de fora. Kleiton crê que Deu pra Ti foi mais longe do que se imaginava.
— O fato de ter sido eleita por tantos artistas importantes como a música que representa Porto Alegre realmente leva isso a um patamar inimaginável. É algo muito prazeroso para nós — destaca.
Uma Porto Alegre de outra época

Depois de 45 anos, a dupla ainda não se cansou de Deu pra Ti. Nos shows, a música nunca é a mesma, assegura Kleiton:
— Cada vez que a gente revisita uma canção, a música é sempre nova. Vai depender do momento, do ambiente, da nossa idade, do público, da energia ao redor daquilo que está acontecendo. Para mim, poderia apresentar Deu pra Ti hoje, que iria ficar muito feliz com isso.
Kledir pondera que a letra espelha locais, personagens e momentos de uma Porto Alegre de outro tempo — vide o Bar João, na Osvaldo Aranha, que encerrou as atividades em 2003. Muitas gírias já se perderam.
— Eu teria que atualizar a letra — diverte-se Kledir. — Fui cobrado a vida inteira que eu só falei do Beira-Rio e não falei do estádio do Grêmio. O problema é que o Kleiton tem uma explicação maravilhosa para isso: a letra é colorada, mas a música é gremista (risos).
— Daqui a cem anos, uma pessoa vai ouvir Deu pra Ti e vai entender um pouco como era Porto Alegre nessa época — complementa Kleiton.
— Ótimo, Kleiton, melhor assim. Senão, eu teria que falar da Arena do Grêmio — brinca Kledir.


