Ele já afinou pianos para shows de Paul McCartney, Charles Aznavour, Diana Krall, Stevie Wonder e Guns N' Roses. Referência no Brasil, o porto-alegrense Person Losekann Fontes, 61 anos, estima ter realizado mais de 43 mil afinações em mais de 40 anos de profissão — cerca de 1,2 mil por ano.
Person tem bases no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, mas também é requisitado em São Paulo e no Rio. No bairro Floresta, em Porto Alegre, possui um depósito cheio de pianos, tanto que sobra pouco espaço para se movimentar. Outro recinto fica em Florianópolis. Os equipamentos são alugados para shows e eventos, e vendidos para clientes.
Instituições como Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto Ling e Theatro São Pedro (cujo piano ele está restaurando), além de várias casas de shows, contam com seu serviço, que exige dedicação — inclusive aos sábados e domingos.
— Não gosto de tocar piano porque já toco o dia inteiro — afirma Person, que aprecia jazz, música erudita e popular brasileira, mas não costuma acompanhar as apresentações de pianistas.
Mercado com poucos profissionais
O profissional conta que o trabalho mais difícil é quando um piano não é afinado regularmente. Mesmo um modelo mais simples, ensina ele, estará em boas condições se for afinado anualmente.
— Depois, tem aqueles pianos com problemas de segurar a afinação, por causa de cupim ou do excesso de calor. Afinal, são 230 cravelhas (peças que permitem controlar a tensão aplicada a cada corda) por piano — acrescenta.
Os deslocamentos para as afinações em outras cidades precisam ser feitos por rodovias porque o serviço exige peças, máquinas e líquidos que, segundo explica, não podem ser levados em aviões.
Ele observa que o mercado de afinadores tem poucos profissionais, e não existe curso preparatório no país. Seus dois filhos — Person, 33, e Kevin, 29 — seguem os passos do pai.
— Tem muitos afinadores que aprendem pelo YouTube. Às vezes, tem movimentos mínimos na afinação que podem danificar a cravelha ou o encordoamento. O ideal é que tivéssemos uma escola técnica no Brasil, o que não há — lamenta.
Quando Jamie Cullum subiu no piano
Uma das lembranças mais marcantes para Person é de 2006, quando afinou e forneceu o piano que o jazzista inglês Jamie Cullum tocou em Porto Alegre.
— Antes do show, perguntei a ele: "Jamie, você não vai subir no piano como costuma fazer, né?". E ele: "Não se preocupe, já não faço mais isso". E pediu para eu ficar para o espetáculo. No meio do show, ele subiu em cima do piano. Depois, me disse: "O piano estava tão bom que eu tive que subir". Após o show, fomos buscar o instrumento e tinha as marcas do tênis All Star dele. Pedi para não tirarem essas marcas. O piano foi vendido duas semanas depois.
Em outra ocasião, o pianista francês de um grupo de dança e ópera chegou com tendinite à apresentação em Porto Alegre e disse à produção que não desejava mais tocar no piano de cauda Steinway que havia sido trazido dos espetáculos em São Paulo e no Rio. Person prontificou-se a "mexer" no piano.
— Fiquei até perto da meia-noite no teatro deixando o teclado mais leve e com som mais brilhante. No dia seguinte, ele me pediu para ir ao ensaio e, quando cheguei, me disse: "Muito obrigado, salvou o meu espetáculo. Não imaginava que o piano fosse ficar tão gostoso e macio de tocar, e o timbre ficou tão brilhante. Você vai vir de noite?". Expliquei que eu normalmente não assistia aos concertos e aos shows. E ele disse: "Vou guardar um lugar para você bem na frente. E vou citá-lo" — recorda.
Formação de um afinador
O começo na profissão foi por intermédio do pai Person Antonio Fontes, que era proprietário da rede de lojas Person Piano e sentia falta de novos afinadores no mercado.
Nessa época, o filho cursava Engenharia Civil na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Porém, identificando uma oportunidade nesse nicho, decidiu se mudar para a Alemanha, onde se especializou na fabricação e no restauro. Trabalhou com pianos em uma fábrica no sul daquele país e depois em uma oficina em Munique.
Quando retornou ao Brasil, atuou por um ano na empresa do pai, montando a parte de restauração em Porto Alegre. Treinou pessoas para os serviços e gerenciava o trabalho. Em 2010, com uma nova empresa, implementou a oficina de restauração Pianosul, contratando estúdios de marcenaria, pintura, descupinização e reparos em geral para trabalhar em parceria. Há quatro anos, instalou a oficina em Florianópolis.
Person também tem pianos com a sua marca para comercialização — conta com importação exclusiva da Neumann para a América Latina. O mais gratificante da profissão, segundo ele, é "ver a satisfação e o sorriso do pianista":
— O profissional mais gabaritado reconhece tudo o que tu fizeste.


