
Conhecido por hits como I'm Yours e Lucky, o cantor norte-americano Jason Mraz está prestes a desembarcar em sua sexta passagem pelo Brasil.
O artista se apresenta em cinco capitais, entre elas Porto Alegre, onde tem show previsto para o dia 10 de março, no Auditório Araújo Vianna.
Mas o Rio Grande do Sul já não é território inexplorado para o astro, que já esteve em Porto Alegre em 2009 e em Capão da Canoa em 2017, quando foi atração do Planeta Atlântida.
Com mais de 20 anos de estrada, Mraz chega com a Return to South America Tour em um momento diferente da sua carreira.
Em entrevista a Zero Hora, o cantor relata que, hoje, gosta de pensar em seus shows como aulas de ioga, nas quais quer que os fãs se sintam tocados por suas músicas que falam de gratidão e questionamentos cósmicos, se sentindo, assim, rejuvenescidos e renovados.
O artista defende, ainda, que a indústria musical expanda seus horizontes e seja mais usada para mudar o mundo.
Confira a entrevista completa com Jason Mraz
O que mais lhe marcou no Planeta Atlântida, onde você se apresentou em 2017? Você guarda alguma lembrança daquele show?
Aquele foi um grande festival, né? O que mais me marcou… Nossa. Para mim, a memória é sempre da cantoria. O volume enorme e a beleza das harmonias, a felicidade de todas as vozes cantando juntas. É um privilégio viajar ao Brasil e ouvir os fãs celebrarem por meio da forma como expressam as músicas. É um sentimento profundo. Essa é a minha lembrança.
Você vem a Porto Alegre em março. Quais são as suas expectativas para esse show?
Eu chego com gratidão. Estou tão feliz por voltar e ainda estar na estrada. Eu me sinto em casa. Não sabia se estaria fazendo isso 10 anos depois e muitos álbuns foram lançados desde então, e eu desacelerei um pouco, pessoalmente, nessa busca por estar sempre em turnê. Mas ter a oportunidade de voltar e viver tudo isso novamente enche meu coração de gratidão, por saber que ainda conseguimos fazer isso.
Eu levo músicas sobre gratidão, músicas com questionamentos cósmicos, como o porquê de estarmos aqui, e com a tentativa de responder a essa pergunta. A resposta, eu acho, é sempre amor, conexão e amizade. A partir disso, aprendemos aceitação, compaixão e empatia pelo outro. São várias camadas que vêm da gratidão e que vêm da música, tentando usar meus superpoderes para o bem. E construir boas memórias do hoje que contribuam com essa experiência contínua de vida. Gosto de pensar nos meus shows como aulas de ioga. Vou tentar levar você da cabeça para o coração e, no final, todos vamos nos sentir rejuvenescidos e renovados.
O que você acha que mudou no seu trabalho nesses últimos 10 anos? O que os fãs podem esperar hoje, que talvez não vissem uma década atrás?
Acho que talvez eu esteja melhor. Acho que estou mais refinado. Hoje tento criar o show e o repertório com um senso de propósito. Não apenas mostrar a brincadeira de um jovem, mas um verdadeiro senso de propósito e, ouso dizer, até de dignidade. Então, talvez eu esteja só um pouco melhor, mas isso pode tornar a experiência interessante para quem já nos viu antes.
Você também quer se conectar com os fãs mais jovens?
Eu performo com prazer para crianças de todas as idades.
O público brasileiro é conhecido por ser muito expressivo. Como isso te afeta no palco?
É um sentimento grande. São ondas, ondas de energia. Você não consegue parar isso, só aprende a surfar. É isso que sinto que os fãs brasileiros trazem para a experiência. Eles fazem parte do show, sabe? A gente toca junto com a energia do público. É incrível. Os fãs brasileiros não se parecem com nenhum outro no mundo. Realmente não há nada igual.
Os brasileiros pedem muito nas redes sociais que faça shows aqui no Brasil?
Com certeza. Acho que tenho mais comentários com bandeiras do Brasil do que de qualquer outro lugar do mundo.
Você mantém um trabalho social importante por meio da Jason Mraz Foundation. Que papel você acredita que os artistas têm quando se fala em responsabilidade social?
Acho que os artistas já afetam a sociedade e a cultura, geralmente de forma lúdica. Afetam a moda, a comunicação. Mas, infelizmente, isso costuma impactar mais os jovens. Eu gostaria que conseguíssemos criar uma arte poderosa que também alcançasse os mais velhos e aqueles que continuam destruindo o planeta e nos dividindo. Gostaria que tivéssemos músicas que tocassem a todos. Hoje, ainda estamos muito focados em públicos de 40, 50 anos para baixo, o que é bonito, porque a música nos dá conforto, alegria e conexão — e isso é mais importante do que nunca. Mas eu gostaria que a música pudesse fazer mais para mudar o mundo.
Infelizmente, isso não é muito celebrado, mesmo com uma enorme indústria musical nos Estados Unidos. A música não é tratada como um campo institucional. É muito: "faça você mesmo". Acho que a música pode ser uma base para criarmos novas oportunidades de performance, apaixonadas, inclusivas, que fortaleçam os jovens, que são esperançosos e marcados por essas experiências, para que possam fazer o bem no mundo. A arte está aqui, precisamos fazê-la. O que eu tento fazer é criar mais acesso à arte.
Como você equilibra o sucesso comercial com a fidelidade à sua identidade artística?
Acho que eu simplesmente não participo tanto do mundo comercial a ponto de isso afetar minha identidade artística. Lancei nove álbuns, e alguém poderia dizer que isso é quem eu sou, mas isso representa só uns 10% da música que fiz na vida. Já escrevi mil músicas, todas muito diferentes. Estou sempre explorando novos gêneros, novos instrumentos, tentando crescer e evoluir. Eu escrevo, pinto, faço vários tipos de arte. Ter uma vida artística, mesmo que privada, é muito gratificante. E isso também é algo que a fundação faz: oferece acesso à arte, mesmo em nível local.
O comercialismo na arte é quase uma necessidade de sobrevivência. Você leva sua arte ao mercado para pagar as contas. Eu tive muita sorte de levar minha arte ao mercado e as pessoas gostarem, o que me permitiu viajar pelo mundo compartilhando minhas músicas. Mas não é algo que eu queira fazer o tempo todo. Preciso voltar à arte, nutrir minha alma, ouvir a natureza. O tempo da natureza é diferente do tempo comercial, que é rápido e movido a dinheiro e curtidas. Tento viver mais no tempo da natureza, onde as coisas acontecem devagar. Isso me mantém saudável para oferecer um serviço por meio da minha fundação, da minha arte e também para meus amigos e família. O comercialismo é menos importante para mim do que ter uma vida artística rica.




