
Aos 42 anos, Thiago André Barbosa, o Thiaguinho, lamenta não ter frequentado os bailes black que ocorriam no Brasil nas décadas de 1970 e 1980. Admirador daquela época de efervescência cultural e de afirmação da identidade negra, o pagodeiro decidiu, então, que daria um jeito de reviver aquela atmosfera, mesclando a sua arte com influências do passado em um projeto musical. Nasceu, assim, o Bem Black.
Trata-se de um álbum audiovisual que tem como proposta mergulhar na ancestralidade e celebrar a multiplicidade da música preta. A ideia foi combinar o pagode, que marca a identidade artística de Thiaguinho, com influências do soul, do jazz, do afrobeat e do R&B.
Com 20 músicos no palco, o álbum foi gravado em novembro do ano passado, no Club Homs, tradicional espaço de bailes em São Paulo, e será lançado em partes. A primeira, com nove músicas inéditas e duas regravações, está disponível nas plataformas desde esta sexta-feira (9). O complemento será lançado em abril, acompanhado de um audiovisual.
A ideia é que Bem Black seja, ao final, um filme musical, que reúne performances e narrativas para homenagear e fazer uma imersão no universo dos bailes black. Para ajudar no processo, o projeto ainda conta com participações de Sandra Sá, Negra Li, Gaab, Walmir Borges e Sampa Crew. No audiovisual, também aparecem Cris Vianna, Mumuzinho e Patty de Jesus.
Celebrando esta nova aposta na carreira, Thiaguinho conversou com a reportagem de Zero Hora. Confira abaixo.
Confira a entrevista com Thiaguinho
Tu já tinhas feito uma incursão pela black music com Hey, Mundo!, lançado em 2015. Quais são as semelhanças e as diferenças daquele álbum para o Bem Black?
Todo álbum que faço tem a mesma essência: é o mesmo Thiago pensando música e tentando traduzir o que vive naquele momento. A diferença são os 11 anos entre um álbum e outro. A gente vai acrescentando vivência. Para este álbum, estou mais maduro em todos os sentidos. Musicalmente, isso fica nítido.
O Bem Black é um álbum muito especial. É um projeto que nasce do respeito à música preta brasileira e às pessoas que construíram esse caminho antes de mim. É uma continuidade. É honrar a música preta do Brasil, que sempre foi muito rica e potente, e também dar a minha contribuição com músicas inéditas.
E as participações no álbum, Thiaguinho? Tu reuniste um time de peso…
Tenho a felicidade de ter o Prateado (Wilson Rodrigues, produtor musical) comigo, que é um cara que viveu os bailes black e que pôde trazer essa sonoridade. O Walmir Borges também ajudou muito a criar a atmosfera.
Tem, também, a Sandra Sá, que dispensa apresentações. O Sampa Crew, que faz parte demais dessa história. Cito isso no álbum, que eles ensinaram, principalmente a minha geração, a ser mais sensível, a falar de amor no rap. Tem Negra Li, tem Gaab, que já é um artista muito mais novo que a gente, mas que segue esse legado.
Então, é um álbum bem importante e espero que as pessoas prestem atenção em vários detalhes, não só musicalmente, mas esteticamente, na beleza que ele carrega.

Tu terminaste recentemente uma megaturnê do Tardezinha, que foi novamente um sucesso. Na sequência, entregas este projeto diferente, explorando outras vertentes da tua música. É uma necessidade de te desafiar como artista e não ficar confortável no que já vem dando certo?
Tenho essa necessidade de mostrar para o meu público o que estou pensando musicalmente no momento, e a melhor oportunidade que tenho para isso é lançar um álbum novo. Este é o meu 25º álbum, então é sempre um desafio muito grande poder fazer parte de novo da vida das pessoas com música nova.
Bem Black é mais uma tentativa de fazer parte da vida das pessoas por meio da música. Desta vez, misturo mais explicitamente o meu samba com a música preta brasileira em geral, mas também recebo influências de outras músicas pretas do mundo afora. Ainda assim, é um álbum de balanço, muito inspirado nos balanços de Jorge Ben, Tim Maia, Cassiano, Bebeto, Só Pra Contrariar e Negritude Júnior. Enfim, artistas que têm o balanço como vertente.
Quando tu percebeu que era o momento de fazer o Bem Black?
Falta Você é uma música que me mostrou muito esse caminho. E o Bem Black vem nessa tentativa de ser um álbum leve, mas com mensagens boas e positivas, que possam ficar para sempre na vida das pessoas.
Vivo um momento muito bonito na minha vida pessoal também: acabei de me tornar pai, e é muito importante deixar um legado musical para o meu filho, além de tudo o que já construí. Quero também, com essas músicas, despertar cada vez mais a autoestima dos meninos negros e das meninas negras Brasil afora.
Essa é uma responsabilidade que o artista preto tem, mesmo quando não quer, porque a gente conhece o contexto em que vivemos no nosso país. Então, é um álbum que significa muito para mim e vai além da música.
Vindo de turnê com o Tardezinha, com filho pequeno… de onde veio tempo para fazer o Bem Black?
Estou desenvolvendo esse álbum há bastante tempo, mais ou menos dois anos. Lancei o Sorte em 2024 e, assim que terminei, já estava pensando nesse próximo trabalho. Eu sabia que o ano seguinte seria dedicado ao Tardezinha e também que queria lançar um álbum inédito em 2026.
O tempo eu vou arrumando aos poucos, né? (risos). Em meio às turnês, estou sempre pensando em algo para mostrar para o meu público. Nunca paro de compor, gosto muito, e também não paro de ouvir músicas inéditas.
Sempre que encontro compositores de quem gosto ou que conheço na estrada falo para me mandarem músicas. Estou sempre escolhendo repertório e pensando em algo novo para trazer para a minha música. O Bem Black foi assim: um álbum que foi nascendo com o tempo.

O conceito do Bem Black é ser um filme musical, certo? Explica um pouquinho como será.
O projeto mistura o show com uma história que tenta levar o espectador para dentro do que é um baile black. Pesquisei bastante, assisti a muitos vídeos e colhi relatos sobre os bailes que rolavam em São Paulo, especialmente os da Chic Show.
Inclusive, vi um documentário sobre a Chic Show, que me deu muitas referências de como conectar esse passado com o presente e pensar no que vamos deixar como legado para o futuro.
Cada música foi tratada como uma cena. Quando o público conseguir assistir ao álbum completo, vai ter uma dimensão maior do que a gente quis passar. A sonoridade deixa clara a fonte em que bebemos, com arranjos de metais e esse balanço que atravessa o projeto inteiro.
Temos regravações, como Primavera e Coleção, músicas do Cassiano que foram eternizadas pelo Tim Maia, e que também ajudam a mostrar aonde a gente quis chegar. Mas o filme só será lançado em abril, com a entrega da segunda parte do projeto.
Como tu enxergas essa liberdade de apostar em um projeto que te satisfaça tanto pessoal quanto profissionalmente?
Estou muito feliz. Além da alegria enorme de poder lançar um álbum inédito, também sinto muita gratidão, porque gosto de honrar os artistas que vieram antes de mim. Todo mundo que vive de música no Brasil tem que ser grato a quem chegou antes.
Nossa música é marcada pela resistência e, para chegar onde a gente chegou, com todas as conquistas que hoje usufruímos, temos que honrar os artistas que chegaram antes.
É um álbum que carrega histórias, encontros e referências. É muito bom poder deixar esse trabalho como um legado para o meu filho e para outras crianças do Brasil.





