— Cara, tem pessoas que choram nos shows. Me abraçam e pedem para tirar foto. É muito louco isso — diz Felipe Roth, 39 anos, vocalista da banda Visionários, que presta tributo ao Charlie Brown Jr.
O famoso grupo de rock nascido em Santos em 1992 encerrou as suas atividades em 2013, depois do falecimento do líder Chorão (1970-2013), deixando gerações de fãs desoladas. Essa turma, que respirava rebeldia e skate, hoje recorre a shows em homenagem à banda em busca de uma aproximação da experiência que o Marginal Alado e seus parceiros entregavam no palco.
É neste cenário que um grupo de amigos gaúchos criou a Visionários há 10 anos. No início, o grupo até tentou emplacar algumas canções autorais no meio dos shows, mas, com o passar do tempo, focou exclusivamente em celebrar a banda santista. E vem dando certo, mesmo com o surgimento de outros grupos com a mesma proposta e "dando uma quebrada" na questão de cachê, devido à concorrência.
Apesar disso, o quinteto formado por Roth, pelos guitarristas Victor Calderon, 30, e Flávio Júnior, 35, pelo baixista Leonardo Cassiano, 30, e pelo baterista João Guilherme, 30, chega a fazer cerca de 50 shows por ano, circulando por todo o Estado – e também com apresentações internacionais, no Uruguai. A proposta da banda não é imitar os originais, mas imprimir seu próprio estilo dentro do vasto repertório do saudoso grupo.
— A Visionários surgiu porque todo mundo era realmente fã de Charlie Brown, tanto do som dos caras quanto das letras que o Chorão mandava. A gente se identificava muito. Antes de nos encontrarmos como banda, todo mundo já sabia todas as músicas — conta Victor, que possui o logo do Charlie Brown Jr. tatuado na perna esquerda, assim como autógrafos de ex-membros da banda.
Inclusive, a dedicação em celebrar o legado do grupo de rock levou os integrantes da Visionários a tocarem, em 2021, em dois shows com Heitor Gomes, que foi baixista do Charlie Brown Jr. de 2005 a 2011. Foi o auge da banda e fez com que os artistas sentissem que todo o esforço valeu a pena.
Hoje, sentados em um estúdio modesto, mas aconchegante, montado pelo baixista Leonardo em seu prédio – que, coincidentemente, tem numeração 1992 –, eles celebram o fato de a banda à qual se dedicam a cultuar seguir bombando nas paradas e conquistando novos fãs.
Isso fica evidente nos shows, que contam sempre com uma gurizada na plateia, mas também nas plataformas de streaming – até hoje, o Charlie Brown Jr. mantém-se como a banda de rock mais ouvida do país no Spotify
— O maior retorno que a gente tem, sem dúvida, é sentir que somos esse elo com o Charlie Brown Jr. A banda acabou em 2013 e, então, de lá para cá, tem um gap de quase duas gerações que não tiveram como ver eles ao vivo. O pessoal sempre diz: "Queria muito ver um show do Charlie Brown Jr". E, depois de cantarem todas as músicas junto, chegam para agradecer a nossa apresentação — relata Leonardo.
Só quero amar

Tim Maia faleceu em 1998, aos 55 anos. Mesmo com quase três décadas de saudades, o artista carioca segue sendo uma unanimidade. Para Tonho Crocco, 52, por exemplo, o compositor de Não Quero Dinheiro, se não for o maior cantor que o Brasil já teve, figura tranquilamente no pódio. Inclusive, ele lembra até hoje do show do monstro da música nacional que assistiu na praia de Imbé, em 1997.
Tamanha admiração pelo artista levou o vocalista da Ultramen a assumir os vocais de um tributo a Tim Maia. Nascida em 1993, com a banda cover Black Master, a iniciativa começou a caminhar com as próprias pernas no mesmo ano da morte do Síndico, com a proposta de realizar, no máximo, um show por ano.
Hoje, o tributo a Tim Maia ocupa parte significativa do tempo de Tonho Crocco. São cerca de 65 shows por ano, que ele intercala com apresentações solo e com a Ultramen. No palco, o vocalista conta com o apoio de Leonardo Boff nos teclados, Flávio Passos no baixo, Chico Paixão na guitarra e Pancho Santos na percussão.

— A gente está indo para a nossa quarta turnê fora do país. Fizemos duas na América Latina e estamos indo para a segunda na Europa, em maio de 2026. Estamos chegando na casa dos mil shows, se contarmos com a Black Master, que começou em 1993. A aceitação do público é incrível — ressalta Tonho.
O movimento de renovação do público que reverencia Tim Maia é sentido por Tonho, que enxerga o livro Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia (2007), escrito por Nelson Motta, como um dos propulsores para que os jovens redescobrissem o artista carioca. O filme sobre o cantor, lançado em 2014, foi outro ponto de virada.
— A partir disso, começou a vir uma geração abaixo dos 30 anos. Adolescentes começaram a redescobrir o Tim Maia. Hoje, o nosso público varia de crianças de 12 anos, influenciadas pelos pais, até avós. Assim, a gente faz shows na maior parte das casas noturnas de Porto Alegre quase mensalmente. Elas nos chamam para tocar — destaca Tonho.
Diva britânica

Mais de 10 mil quilômetros separam Enfield, no norte de Londres, onde nasceu Amy Winehouse (1983–2011), e Estrela, no Vale do Taquari, cidade natal de Kelly Carvalho, 37. Mesmo com essa distância oceânica e cultural, hoje a gaúcha tem como missão seguir cultivando o legado musical da britânica, que nunca chegou a ver pessoalmente.
Foi em 2012 que Kelly entrou para um coral e, ali, cantou publicamente pela primeira vez. Considerada fisicamente parecida com Amy, a jovem logo se aproximou de outros músicos interessados em organizar uma homenagem musical à artista, que havia falecido há pouco tempo. Assim, em 2015, nasceu o projeto Tributo Amy Winehouse.
A iniciativa foi ganhando reconhecimento em solo gaúcho e, em 2018, houve, inclusive, uma turnê pelo Estado ao lado de Robin Banerjee, guitarrista que acompanhou Amy no auge de sua carreira, entre 2006 e 2007. Esse movimento abriu portas para que a banda passasse a se apresentar em casas de shows maiores, chegando também a Santa Catarina, e entrasse no circuito de projetos dedicados a homenagear a britânica.
Assim, no décimo ano do projeto, Kelly foi convidada pelo baixista da banda original de Amy, o Dale Davis, para participar do espetáculo The Amy Winehouse Band, que ocorreu no Auditório Araújo Vianna, em maio último.
— Foi muito legal, mesmo. Sem explicação. É aquela coisa: zerei a vida — diz Kelly, que busca entregar no palco o mais próximo de Amy, do look ao timbre da voz.

Atualmente, a artista está se formando em Música na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) e pretende atuar como professora – tanto para levar a música a mais pessoas quanto para aprimorar ainda mais sua performance no projeto de tributo, que hoje é sua principal atividade.
— Sou grata a Amy por ter me dado esse presente, que sempre foi o meu maior sonho: ser cantora. Com isso, vão surgindo outros projetos, como um que estou desenvolvendo para tocar em eventos corporativos, casamentos, formaturas, feiras, projetos de prefeitura. É a Amy que está me proporcionando tudo isso — destaca Kelly.
Hoje, o tributo conta com uma banda com oito membros e, para os shows, há a contratação de técnicos, como de luz e de som. No total, cada apresentação movimenta entre 10 e 11 pessoas. Tudo isso, de acordo com a vocalista do projeto, para que o público se sinta o mais próximo possível de uma apresentação da Amy – e, por isso, não podem faltar no repertório os clássicos Rehab e Back to Black. Ao longo do ano, são cerca de 18 shows.
— Nestes 10 anos, escutei muitas histórias lindas, seja de alguém que estava procurando ir ao show para comemorar a remissão de um câncer ou alguém que foi porque a mãe era fã da Amy e havia falecido há cinco anos, então, naquele dia, era um reencontro. Tem aqueles fãs que gostariam muito de ter ido no show e não conseguiram. Muitos vêm me dizer que se sentem preenchidos com o show. É um trabalho de muito amor — completa Kelly.

