
Se o ano passado foi de reconstrução, ainda no espírito de recuperação após a enchente, a expectativa para 2026 é de uma agenda robusta de shows em Porto Alegre. Há otimismo de que a capital gaúcha se restabeleça, principalmente, na rota de turnês internacionais.
Até o fechamento desta matéria, 29 datas estão confirmadas na Capital. Nomes como Guns N’ Roses, Robert Plant, Bryan Adams, Macy Gray e Lynyrd Skynyrd, entre outros, passam pela cidade ainda no primeiro semestre (veja a lista abaixo).
Na avaliação de produtores locais, o ano que passou foi um período de retomada, ainda que cercado por desafios. Rodrigo Machado, sócio-diretor da Opinião Produtora – responsável pela gestão do Bar Opinião, do Auditório Araújo Vianna, da KTO Arena e do Teatro de Câmara Túlio Piva –, destaca que o setor cultural foi um dos mais afetados pela enchente de 2024, com cancelamentos, perdas estruturais, interrupção de projetos e a necessidade de reconfigurar rotas e calendários.
Ainda assim, Machado avalia que o balanço de 2025 foi positivo:
— Conseguimos devolver ao público uma agenda ampla e plural. No Araújo Vianna, foram quase 200 eventos, algo em torno de 600 mil pessoas. Isso é um sinal de que Porto Alegre voltou a investir em cultura, mesmo num contexto em que o público está mais seletivo e os custos aumentaram.
Segundo Rafael Bestetti, chefe de produto e operações da Opus Entretenimento, o ano que passou ainda foi impactado por custos logísticos elevados. Mesmo com atuação nacional, ele ressalta que a empresa manteve o compromisso com o Rio Grande do Sul.
— Entendemos nosso compromisso cultural, econômico e social com o Estado. O entretenimento é uma porta muito importante, principalmente para a questão emocional da reconstrução — pondera Bestetti.

Para Gustavo Sirotsky, diretor da Maia Entretenimento, o cenário para 2026 é mais promissor em relação aos anos anteriores, já que Porto Alegre sempre demonstrou forte ligação com a música e tende a receber mais atenção do mercado daqui para frente.
— Tenho certeza que estão olhando para Porto Alegre com um olhar diferente. Sempre foi um mercado muito aquecido. Tanto em outras áreas de entretenimento, como no futebol, a gente acaba transferindo essa energia também para os shows ao vivo.
Contudo, 2026 também deve apresentar desafios para o entretenimento. Para Dody Sirena, cofundador da DC Set Group e referência no setor, a principal luta é a desburocratização do poder público nos processos de liberação de eventos. Sobre grandes shows nacionais e internacionais, ele pontua:
— Anunciaremos mais à frente, em acordo com os patrocinadores, que querem capitalizar a notícia no momento certo.
Entre os shows internacionais já confirmados, mais da metade será realizada no Auditório Araújo Vianna. Machado ressalta que, quando há uma agenda internacional relevante no primeiro trimestre, como é o caso da Opinião Produtora, passa-se a mensagem de que a cidade funciona e o público comparece.
— No entanto, a retomada depende da frequência, não de um ou dois megaeventos isolados — adverte.
Fora da rota?

Porto Alegre apareceu menos nas rotas de megashows internacionais nos últimos anos, especialmente em 2025. No ano passado, a única atração desse porte anunciada para a capital gaúcha, Linkin Park, teve a apresentação cancelada pela Live Nation sem explicações.
Historicamente, Porto Alegre recebeu, no máximo, de dois a quatro shows de grande porte em estádio por ano. Ainda assim, a percepção geral é de queda em relação aos momentos mais marcantes das últimas duas décadas. Entre 2011 e 2018, por exemplo, a Capital viveu uma fase de efervescência, impulsionada por turnês de artistas como Madonna, Ozzy Osbourne, Lady Gaga, Elton John, Coldplay, Foo Fighters e The Rolling Stones.
Por outro lado, a cidade seguiu recebendo grandes atrações nacionais – como Caetano Veloso e Maria Bethânia, na Arena do Grêmio, e Gilberto Gil, no Beira-Rio – além de festivais como Turá e Rap in Cena, e nomes estrangeiros de médio porte. A banda The Offspring, por exemplo, lotou o Pepsi On Stage (atual KTO Arena) em março.
De qualquer maneira, a Capital foi perdendo espaço diante de uma combinação de fatores econômicos, logísticos e de risco percebidos por agentes e promotores, como observa Machado. A alta do dólar em 2019 e, na sequência, a pandemia interromperam o ritmo de shows. Embora tenha registrado um fôlego parcial em 2023, Porto Alegre voltou a ser impactada pela enchente de 2024, que deixou reflexos no calendário recente.
Esse movimento é apontado pela pesquisa Cultura nas Capitais, realizada pela consultoria JLeiva. Segundo o levantamento, a frequência de shows musicais em Porto Alegre caiu de 46% para 41% entre 2017 e 2024. No mesmo período, em Curitiba, o índice passou de 38% para 40%.
Agendas inflexíveis dos estádios

Um dos principais motivos para a queda de shows internacionais é o calendário dos estádios Beira-Rio e Arena do Grêmio. Ambos são os maiores e principais espaços disponíveis para eventos desse porte, mas, diferentemente de cidades como Curitiba – onde os clubes têm calendários mais flexíveis, especialmente por oscilarem entre divisões –, Grêmio e Inter possuem agendas de jogos muito rígidas, o que limita as janelas disponíveis para grandes espetáculos.
Há também insatisfação de torcedores e dos clubes com a condição dos gramados após a realização de shows. Diante disso, a direção do Grêmio já sinalizou que, em 2026, a prioridade será o futebol, seguindo as datas do calendário da CBF.
Um megashow internacional em Porto Alegre costuma exigir um encaixe preciso com as datas disponíveis no calendário, especialmente em períodos de data Fifa, quando os campeonatos são paralisados para priorizar as seleções. No entanto, após a pandemia, esses espaços passaram a ser ainda mais concorridos.
— Vários artistas nacionais passaram a investir em labels (projetos próprios) e megashows, que também ocupam datas em estádios. Há 10 anos, não existia essa concorrência, marcada pela grandiosidade das produções de artistas brasileiros — explica Bestetti.
O jornalista José Norberto Flesch, especialista em anúncios e bastidores de grandes shows e festivais internacionais no Brasil, não crê que Porto Alegre tenha saído dessa rota de shows internacionais. Para ele, o que acontece são oportunidades que não se encaixam, de acordo com a disponibilidade dos artistas.
— O cenário em Porto Alegre está melhor, com a KTO Arena e o Gigantinho em reformas. Estádio é complicado, pois os times não deixam, você marca e depois querem derrubar por qualquer coisa — analisa Flesch. — Mas de forma geral, em quantidade, acho que está uma expectativa boa para 2026, viu?
Novos e antigos espaços

Em relação ao Gigantinho, que está em obras, a expectativa do Inter é que os trabalhos sejam concluídos em setembro de 2026. O novo espaço deve preencher uma lacuna da capital gaúcha, marcada pela ausência de espaços para shows de porte intermediário, entre 10 e 20 mil pessoas.
Outro local que deve suprir essa demanda é a arena de eventos Fly 51, prevista para ser inaugurada no primeiro semestre, com capacidade para até 15 mil pessoas. A estrutura será construída dentro da área do Aeroporto Internacional Salgado Filho, que há anos planeja ocupar parte do terreno, em área concedida à Fraport, multinacional alemã que detém a concessão do aeroporto na capital.
Outros dois espaços também se destacam nesse cenário: o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho (Harmonia) e o Anfiteatro Pôr do Sol. Porém, em ambos os casos, a produção enfrenta o desafio de montar as estruturas do zero, o que os diferencia de casas de shows fixas.
— Porto Alegre nunca saiu (da rota), a gente continua tentando. Acho que em 2026 conseguiremos trazer algumas coisas para a cidade. Talvez os megaeventos tenham essa dificuldade de agenda, mas para shows internacionais, com certeza, é rota — avalia Bestetti.
Gustavo Sirotsky cita a pesquisa da PwC/Live Entertainment, divulgada em 2025, que aponta o Brasil como o segundo maior mercado de shows ao vivo do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Para o empresário, isso coloca o país no radar de grandes atrações, o que pode acabar se refletindo em diferentes pontos do mapa brasileiro.
— O Brasil é muito grande apenas para concentrar os shows em São Paulo ou no Rio. Isso me faz pensar que, nos próximos anos, as turnês tendem a percorrer um pouco mais o país — projeta.




