
O Planeta Atlântida chega aos 30 anos como um festival que atravessou gerações de público, de artistas e de histórias. Poucos nomes ajudam a contar esse percurso tão bem quanto Armandinho. Presente em 17 edições, o cantor gaúcho acompanhou transformações e construiu uma relação que vai além do palco.
Não por acaso, ele volta neste ano, pela 17ª vez, para comemorar com o evento, que ocorre nos dias 30 e 31 de janeiro, na Saba, em Atlântida. A apresentação será no segundo dia, mantendo um ritual que já virou marca registrada.
— Os shows, quase sempre ao entardecer, me colocam num papel de anfitrião dos artistas que estão por vir. Sempre gostei de tocar no fim da tarde e, quando o pôr do sol aparece, tudo fica ainda mais especial — destaca.
Nesta entrevista, Armandinho fala sobre o legado, o passar do tempo e como o nascimento da terceira filha vem influenciando a fase atual.
Confira a entrevista com Armandinho
Quando você pensa no público do Planeta hoje, ele mudou ao longo dos anos? Como tu “lê” essa galera?
O Planeta vai passando de geração em geração. Vai de pai para filho, de irmão para irmão. Claro que tem gente que segue frequentando há anos, mas a sensação é de que essa galera está sempre se reciclando. Isso é muito legal, porque nem sempre, nos lugares onde eu toco, consigo alcançar o público mais jovem.
No Planeta, tenho esse contato direto com a juventude, com o novo, com o que está acontecendo agora. Geralmente divido o palco com artistas que estão em evidência, então acabo aprendendo muito e me renovando junto.
Terá algo diferente em termos de show e repertório para a apresentação deste ano?
A gente vem com um cenário novo, bem bonito. Mas o Planeta é um show curto, é uma hora de apresentação. Então acaba sendo aquele que a galera quer ouvir mesmo, com os sucessos. O Planeta Atlântida é isso: entrega direta, sem "firula".
Ao revisitar canções antigas, tu ainda se reconhece nelas?
Depende da música. Algumas são totalmente autorais e fazem parte da minha história de vida. Outras surgem como uma crônica das relações, de histórias de amigos, de pessoas próximas que acabam me inspirando. Mas a maioria das músicas tem muito da minha própria experiência. Pessoas que passaram pela minha vida. Sempre fui namorador, então cada fase, cada relação, acabou virando música.
Já vi famílias dizendo que se conheceram no Planeta Atlântida, lá em dois mil e tantos, hoje com filho pequeno no colo. Saber que minha música ajudou a formar famílias é algo muito bonito
ARMANDINHO
Cantor e compositor
Essas músicas fazem parte da história de tantas outras pessoas...
É uma responsabilidade enorme. Vejo muita gente tatuando trechos das minhas letras. Isso pesa, no bom sentido. Hoje já não sou mais aquele artista da Folha de Bananeira. Sou outro Armandinho. Me identifico muito mais com as canções românticas do que com as mais dançantes. Com o tempo, acabei me tornando um cantor de música romântica.
O sucesso costuma acelerar processos. O que tu acredita ter ganhado ao não conduzir a carreira com pressa?
Vejo a carreira como uma escada. Quando a gente ama o que faz, já é uma vitória. Fazer música no sul do Brasil não é fácil, longe do eixo Rio–São Paulo. A gente acaba vivendo dentro de uma bolha. Ao mesmo tempo, o apego ao Rio Grande do Sul é muito forte, a gente é feliz aqui.
Mas chega uma hora em que o filho precisa sair, buscar novos horizontes. É muito gratificante saber que levo o nome do Rio Grande do Sul por onde passo e que consegui levar minha música para o mundo.

A ideia de deixar um legado é algo que te preocupa?
Acho que criei um jeito próprio de fazer música. Não é só reggae, é o reggae do Armandinho. Um estilo muito particular. Vejo uma galera mais nova se inspirando nisso, querendo fazer música nesse caminho, e isso já é um legado. Além do estilo, tem as letras, as mensagens, a poesia, os sentimentos que essas músicas despertam nas pessoas.
Quais artistas da nova safra da música brasileira chamam a tua atenção?
O Vitor Kley é um artista que vi crescer. Ele virou um grande compositor, cantor, instrumentista e músico completo. Se relaciona muito bem com artistas mais velhos, e me dá muito orgulho vê-lo rodando o mundo. Também gosto muito da galera da MPB: Gilsons, Silva, Liniker… é uma turma que me interessa bastante.
É muito gratificante saber que levo o nome do Rio Grande do Sul por onde passo e que consegui levar minha música para o mundo.
ARMANDINHO
Cantor e compositor
Quais os planos para 2026?
Lancei um álbum recentemente (Se o Tempo Passa), com 17 músicas. Logo vem outro disco, só com músicas inéditas. Vou lançar clipes também. É um momento especial, porque virei pai de novo (a filha Celeste completou um ano nessa quinta-feira, 15; também é pai de Antonia, 19 anos, e Marcela, 14).
É uma fase de paternidade, de inspiração, de compromisso. Isso com certeza vai influenciar na forma como escrevo, no conteúdo das músicas. Talvez venham canções pensadas para uma filha, para quem vive esse momento de ser pai e mãe.
Daqui um tempo, o que você quer que a Celeste saiba sobre quem é o pai dela?
É difícil pensar nisso, porque estou prestes a completar 56 anos (na próxima quinta-feira, 22), então o meu tempo na vida dela é mais curto. Mas quero deixar o orgulho de ver o sorriso das pessoas, de inspirar histórias.
Já vi famílias inteiras chegando no meu camarim dizendo que se conheceram no Planeta Atlântida, lá em dois mil e tantos, hoje com filho pequeno no colo. Saber que minha música ajudou a formar famílias é algo muito bonito. Esse é um legado lindo pra deixar para ela.





