Improvisação, a arte que deu início à carreira de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida. O rapper, cantor e compositor recebeu, neste sábado (29), em Porto Alegre, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em cerimônia realizada na instituição.
E foi com a improvisação, sem ler qualquer texto, que Emicida agradeceu a mais alta honraria da universidade:
— Nesta semana, eu falei assim: "acho que tenho que ir lá e falar do meu coração". Eu não preciso decorar ou escrever. O que me trouxe até aqui foi a capacidade de improvisar. E esse frio na barriga é maravilhoso. Esse frio na barriga, que às vezes pode vir do medo, é um sinal de que a gente está fazendo alguma coisa nova. E fazer algo novo é muito bom. É o que mantém em nós a sensação de estar vivo.
No discurso improvisado, mas que abordou temáticas que já está acostumado a falar, o artista citou a importância em receber o título de uma universidade pública e mencionou escritores e nomes gaúchos que também o inspiram:
— Existem muitas razões pelas quais é especial estar aqui neste momento. Algumas delas foram citadas pelos meus camaradas aqui. Para mim, é muito especial receber esse título de uma universidade pública. É muito especial que esse título venha do Estado que nos deu Oliveira Silveira. Que também nos deu Lupicínio Rodrigues. Que nos deu meu amorzinho Mário Quintana. Nos deu o Rafa Rafuagi. Que tem nos presenteado com a Cristal.
Ao defender a concessão da distinção, o Conselho Universitário (Consun) da UFRGS destacou a obra de Emicida como "expressão de uma pedagogia contemporânea, que inspira o debate público sobre a luta antirracista na Universidade e se consolida como referência de pesquisa acadêmica em diferentes áreas do conhecimento".
Ternura
A luta antirracista, tema de diversas composições do rapper, também foi citada durante a fala dele na solenidade:
— Essa deve ser a radicalidade presente em todas as pessoas que nasceram no Brasil, independente da sua origem: tornar o passado, passado. Uma vez a professora de história Keila Grinberg me contou uma história que ela falava para os alunos dela. Ela disse o seguinte: "eu fico feliz quando eles aprendem duas coisas, que no Brasil teve escravidão e que ela já acabou".
Emicida completou o discurso desejando que a noite deste sábado seja uma semente:
— A luta antirracista é imprescindível, mas a gente vai precisar evoluir num grau onde a gente deixa explícito que o verdadeiro antônimo do racismo é a ternura.
Presença na universidade
Ao iniciar a solenidade, Eliane Duzac, representante do coletivo de estudantes negros da Pedagogia da UFRGS, ressaltou que o momento é histórico, pois abre portas que ficaram "por muito tempo, fechadas":
— E é importante dizer que, para nós, estudantes, professores e trabalhadores negros desta universidade, o Emicida não é apenas inspiração, ele é referência, é espelho, é caminho. Ver esse título ser entregue ao Emicida significa respirar um pouco mais fundo, significa que os nossos saberes não são exceção, que a nossa presença dentro desta universidade não é concessão, é direito — ressaltou.
Eliane citou Amarelo, projeto de Emicida transformado em álbum e documentário e que debate o racismo no Brasil:
— Com esse projeto, Emicida não entregou apenas um álbum ou um documentário. Amarelo tornou-se material de sala de aula, de debates, de pesquisas acadêmicas. Ele fala sobre ancestralidade, sobre racismo estrutural, sobre esperança e sobre a potência da comunidade negra.
Ainda de acordo com a oradora, é necessário e fundamental "reconhecer que a presença do rap nas pedagogias sociais não é somente uma escolha estética, é um posicionamento político e epistemológico", e é também "sala de aula em movimento".
— A presença de Emicida neste palco afirma o compromisso desta universidade com a inclusão, com a justiça social e com a construção de uma instituição verdadeiramente antirracista.
O vice-reitor da UFRGS, Pedro Costa, frisou que a entrega da maior honraria para Emicida é também mais um gesto do "esforço de desconstrução de um modelo de universidade elitista e excludente, que deve dar lugar a uma universidade aberta e plural":
— Esse é um desses momentos de reconhecimento de outros saberes que constituíram e constituem o nosso país e que ficaram de fora das narrativas oficiais de quem colonizou, escravizou, enriqueceu e tomou para si a nação brasileira e a universidade brasileira.
E completou:
— Espero que esse dia marque um passo a mais para fazer da universidade pública nesse país um lugar de aquilombamento, de reunião fraterna e solidária, de reflexão e de ação.




