
Há 35 anos, a cantora e compositora porto-alegrense Adriana Calcanhotto cantava “Eu hoje ando atrás de algo impressionante”, na canção Enguiço, que abre seu álbum de estreia. Hoje ela é conhecida nacionalmente, com seus sucessos autorais, como Esquadros e Mentiras, do álbum Senhas (1992), e dando seu toque a músicas de outros compositores, como em Maresia, de Antonio Cicero.
Esse também é o caso de Fico Assim Sem Você, canção lançada no álbum Vamos Dançar, de Claudinho & Buchecha, regravada por Adriana Partimpim. O projeto encanta crianças desde 2004 e conta com quatro álbuns — Adriana Partimpim, Partimpim Dois, Tlês e, o mais recente, O Quarto, lançado no ano passado, 12 anos depois que o disco anterior.
Em entrevista a Zero Hora, Adriana fala sobre a volta aos palcos como Partimpim, relembra momentos marcantes e conta da turnê O Quarto no Palco, que viaja pela discografia do heterônimo e chega a Porto Alegre no domingo (16), às 17h no Auditório Araújo Vianna. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.
Leia a entrevista:
Tens comentado que as crianças iam ao teu show como Calcanhotto para ouvir Mentiras. Depois de 20 anos, tem acontecido de muitos adultos irem ao teu show como Partimpim para ouvir Fico Assim Sem Você?
Muito. Tem adultos de todas as gerações, e tem esses que hoje em dia são adultos, mas que foram ao primeiro ou ao segundo show como crianças. E agora eles têm as próprias crianças e vão com elas ou vão em bandos de adultos, enfim. Alargou ainda mais o espectro de público. O que me deixa muito feliz. Não fosse a Partimpim, não teria tanta gente de tantas idades, tanta gente diferente, mas que tem em comum essa criança interior.
Como foi entrar na pele da Partimpim depois de 12 anos?
Olha, foi muito natural. É como andar de bicicleta, tu não esquece. É só uma frequência que está ali, mas que eu não posso deixar aberta enquanto eu estou fazendo outras coisas.
Eu vejo que o trabalho da Partimpim é muito contagiante. As pessoas que trabalham, as que estão no palco e as que não estão, começam todas a entrar nessa vibe Partimpim. Isso acontece comigo também.

Na turnê, um elemento que chama atenção são os músicos de alto calibre. Foi difícil juntar toda essa gente?
Vou te falar que não é tão difícil por ser a Partimpim. Todo mundo quer tocar porque é um ambiente maravilhoso. A gente brinca de fazer música, brinca de turnê, brinca de viajar, brinca de comer comida de avião. É uma farra.
Nesses 21 anos, a ideia da Partimpim já foi diminuída em algum momento?
Muito, durante muito tempo. Até ela existir e Fico Assim Sem Você virar um sucesso, era uma coisa que as pessoas não entendiam muito. Uma das coisas que eu queria oferecer era uma alternativa ao modo que as crianças ouviam música naquele momento.
Havia um modelo do que vinha a ser um disco para crianças e me disseram que eu não poderia fazer um trabalho para crianças por não ter um programa na televisão. O formato estava muito engessado e eu só quis oferecer uma alternativa. Então, quando você aparece com uma coisa que ainda não foi feita, fica todo mundo um pouco desconfiado. E quando eu vi essa reserva das pessoas, entendi que aí mesmo é que eu tinha que fazer. Se todo mundo tivesse gostado, não sei se eu ficaria tão interessada na batalha.
Tu cresceste ouvindo músicas ditas de adulto. No teu processo de trazer novas gerações à música, que sensações da tua infância tentas causar nas crianças?
É essa sensação de quando você tá ouvindo boa música, quando o trabalho tem um acabamento incrível, quando tudo é pensado. As crianças se sentem valorizadas e não subestimadas. E isso eu acho que fez muita diferença na minha vida.
Quando eu li o livro A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector, com quase oito anos de idade, eu me senti muito prestigiada, tratada como uma leitora e não uma criança, naquele sentido de “Ah, é para criança”. É o contrário. É esse o objetivo da Partimpim, fazer tudo com ainda mais cuidado e excelência.
Numa época tão hiperconectada, o que chama atenção das crianças na Partimpim?
Eu acho que essa potência toda de uma banda de músicos excepcionais, com canções lindas, com arranjos maravilhosos, com o cenário, os figurinos. É um pouco a sensação que eu tinha quando eu via, embora pela televisão, Ney Matogrosso e Rita Lee, que não eram artistas só da música: todo o visual também está se comunicando.
Durante o show, as crianças não pegam o celular. Elas vão se aproximando do palco e a música vai tomando conta do corpo e elas começam a dançar e a correr e aquilo é muito bonito.
É um ano intenso aqui em Porto Alegre para ti: um show gratuito no Parque Harmonia, com a Orquestra do Teatro São Pedro, e uma participação surpresa no show de Gilberto Gil. Como foi cada um desses momentos?
É verdade. Nem todo ano eu consigo ir tanto. O show ao ar livre com orquestra foi maravilhoso. Aquele público, teve um número Partimpim. Foi realmente incrível. Uma soma de coisas muito bonitas.
E o show com o "Professor", que me deu esse presente de ser a convidada em Porto Alegre. Fazia tempo que eu não via o Gil e é sempre maravilhoso estar perto dele. É só ficar olhando para ele que você aprende muito — sobre muita coisa, não só sobre música.

Sobre O Quarto, qual música mais te surpreendeu de entrar no álbum?
Eu acho que é Tô bem, do Jovem Dionísio, porque é uma canção nova que eu ouvi um pouco antes de começar a gravar. As outras eram canções já cogitadas em uma lista. E Tô bem entrou porque eu ouvi no Instagram, fiquei apaixonada e fiz a minha versão. E é interessante, porque Fico Assim Sem Você aconteceu de um jeito muito parecido: eu ouvi uma vez só, me apaixonei e quis gravar.
Há uma música inédita, Boitatá, parceria de Marisa Monte com o filho, Mano Wladmir, e Arnaldo Antunes. Qual a história dessa canção?
Foi o Mano, filho da Marisa, quando tinha uns 10 anos, que começou essa música. Marisa, o Dadi e o Arnaldo estavam em uma varanda compondo, e o Mano andava por ali e começou essa música. “Minha mãe tem medo do Boitatá”. Referindo-se à mãe dele mesmo, e um dia ela me mostrou isso.
A gente estava trabalhando em outra coisa, compondo juntas. E ela mostrou, eu achei tão engraçado. A gravação era tão boa, eles às gargalhadas. A música é dele. Aí a Marisa acomodava aqui e ali, dava uma sugestão, o Arnaldo também. Mas a música nasce do Mano.
Por uns 10 anos, fiquei com ela guardada para mim. Eu falei: “Marisa é da Partimpim. Não dá para mais ninguém”. E ela segurou e ficou para a Partimpim.

Em Malala, tu apresentas com muito afeto essa figura contemporânea, mas que muitas crianças já viram em livros de história. Por que a necessidade de falar da Malala para crianças?
Em 2018, fui convidada para compor quatro canções para a trilha de uma peça de teatro baseada no livro da Adriana Carranca sobre a Malala, uma para cada momento da vida dela. E quando o Pretinho da Serrinha, que é o produtor do álbum O Quarto, ouviu essa música — eu não me lembro em que situação, se eu mostrei ou se fui mostrar uma coisa, e mostrei outra. —, ele falou: "Essa música tem que estar no disco”. Eu não tinha cogitado, mas eu confiei na sensação dele, que é tão musical.
O momento dessa canção, que entrou para o disco, é o momento em que o pai dela escolhe esse nome para ela. Ele é um professor, que acredita que as meninas do Paquistão devem sim ir à escola, ao contrário do que acontecia naquele momento. Ele escolhe esse nome para Malala, e isso vira quase um destino. É um nome auspicioso, antigo e muito forte no país. Há algumas Malalas que são muito importantes e ele deu esse nome, acho que no fundo, sonhando, desejando que ela fosse tão forte e interessante como ela de fato é.
Por falar em figuras históricas, pela primeira vez a Partimpim canta Rita Lee. Como foi traduzir essa artista para crianças, com Atlântida?
Acho que a Rita Lee não precisa de tradução, ela fala direto com as crianças. Eu te digo isso enquanto criança muito afetada por ela, completamente embasbacada com aquelas aparições dela na televisão.
Atlântida é uma canção que está na lista das canções Partimpim desde o primeiro álbum. Só que não foi gravada, porque depende da cara de cada disco. E ela tem a ver com O Quarto, que toca em assuntos de lendas e do mundo imaginário. E tem também o fato de que no dia que eu gravei Atlântida, fazia um ano da morte da Rita. Então, eu achei que isso era uma coisa para prestar atenção.
De alguma maneira, eu fiquei pensando em como a Rita foi importante para a Partimpim e agora ela não está mais aqui, mas a gente tem que manter o legado tão importante dela e continuar ela a partir das crianças.
Outra música de peso no álbum é I Want to Hold Your Hand, dos Beatles, adaptada para O Bode e a Cabra. Quando surgiu a ideia de fazer essa versão?
Eu ouvi essa versão justamente com a Rita Lee cantando ao vivo, em um especial do Multishow. E tem essa música, e eu fiquei enlouquecida por ela, e descobri que quem fez a versão foi Renato Barros, que é parceiro na composição de Devolva-me. Olha como as coisas são. E eu acho a versão uma graça e as crianças ficam loucas, os adultos também. É muito engraçado.
Tu falas muito que as músicas que tu tocas são aquelas que tu querias ter escrito, por quê?
Eu trago a música para o meu universo, para o meu violão, para o meu jeito de cantar e de fazer. Isso já era um pouco assim desde que eu comecei a tocar na noite de Porto Alegre. Eu pegava a canção que as pessoas queriam ouvir no bar, mas eu cantava do meu jeito. Por isso que eu não sobrevivi em um tipo de lugar onde as pessoas vão para ouvir a versão mais parecida possível com a gravação original.
Por fim, quem for no show do dia 16 de novembro no Araújo Vianna, o que pode esperar?
Tem esse repertório do show, que a gente tá gostando muito de fazer. Já estamos em um momento da turnê que a gente não tá mais pensando nos acordes e nas letras. Então a gente está solto para improvisar, para incorporar coisas. É um momento muito bom de um espetáculo. Você já tem memória muscular do que está fazendo, então pode ficar solto para aproveitar o que acontece na hora.
*Produção: Breno Bauer



