
Ao colocar a agulha sobre o disco e ver o prato girar, a música invade o ambiente. O funcionamento do vinil parece ser envolto por uma "magia", mas nada mais é do que física.
Nas redes sociais, vídeos chamam a atenção ao mostrar o processo de fabricação de um disco ou a própria operação da vitrola ou toca-discos.
Em 2024, o formato voltou a ser destacado pelo Pró-Música Brasil, que reúne as maiores empresas de produção musical fonográfica no país.
Segundo a entidade, o vinil se consolidou como o formato físico mais comercializado do país, com faturamento de R$ 16 milhões no ano passado, superando CDs (R$ 5 milhões), DVDs (R$ 8 mil) e outros produtos físicos (R$ 40 mil). O relatório de 2025 ainda não foi divulgado.
Para Bruno Vieira, CEO da Rocinante, que tem uma das poucas fábricas de discos de vinil no Brasil, isso é visto na prática. Ele percebe a demanda vindo de selos independentes, artistas e gravadoras:
— No movimento dos artistas querendo lançar seu formato em vinil, vemos algo promissor, porque não é somente olhar para grandes clássicos, é a música que acabou de ser gravada também indo para a vitrola dos fãs e indo para a prateleira da casa das pessoas.
Vieira afirma que o produto final da empresa costuma ter como consumidores pessoas entre 25 e 45 anos. Ele diz também estar atento aos jovens e a busca que fazem pelo mundo analógico.
🔈 Qual a física por trás do disco de vinil?
O som é uma energia que precisa de um meio para se propagar. No ar, o som faz vibrar as partículas a uma determinada frequência. Quando chega aos ouvidos, faz o tímpano vibrar na mesma frequência. E essa informação é decodificada pelo cérebro.
— No vinil, nós literalmente gravamos, fazemos um registro desse som em um meio material que não é o ar: é um material plástico — esclarece a professora de Física Michele Alberton Andrade, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Esse registro se apresenta em forma de ranhuras com diferentes profundidades e larguras. Quando a agulha entra em contato, passa a vibrar de acordo com o relevo.
— Essa agulha vai fazendo uma leitura dessas frequências que eu consegui guardar ou registrar ali no vinil. Como se eu tivesse ondas sonoras, só que elas estão impressas em um material plástico — complementa a professora.
🎶 A agulha sozinha não faz todo o processo
Como explica Michele, a decodificação de uma música não exige apenas a agulha. Normalmente próximo dela, há um ímã ou conjunto desses objetos que irá se movimentar de acordo com a vibração da agulha:
— E qual é a mágica que vai acontecer? Esse ímã vai atuar em um fenômeno que chamamos, na física, de indução eletromagnética e vai transformar essa energia que é mecânica em uma energia que passa a ser elétrica. Esse sinal elétrico é que vai viajar até o meu alto-falante.
Nas redes sociais, há experimentos mostrando como seria esse processo se fosse totalmente mecânico, sem energia elétrica. Veja abaixo.
🎛️ E como se coloca música dentro do disco?
No Brasil, são ao menos três fábricas de discos de vinil. Vinicius Crivellaro, gerente de produção de uma delas, a Rocinante, no Rio de Janeiro, explica que o processo de fabricação inicia com o preparo do áudio que será colocado no disco.
O material vinil vem do conhecido PVC ou policloreto de vinila. Conforme Crivellaro, o composto de PVC chega em formato de grãos, passa por um aquecimento e, então, vira algo como uma "massa" que se transformará em disco.
Mas, antes disso, há outros passos:
- O disco-base é chamado de lacquer e é feito de nitrocelulose, um material macio e sensível. Existe um disco-base para cada lado do futuro vinil
- O lacquer é colocado em um torno mecânico, que possui uma agulha de corte. Essa agulha vibra conforme o som que é colocado nela. Assim, são criadas as ranhuras, em formato de espiral
- A partir do lacquer, é criada uma réplica espelhada em níquel. Esse é um processo químico chamado galvanoplastia. O material é mais resistente. Esse novo disco formado é chamado de stamper e funciona como um molde
- O stamper é instalado em uma máquina que faz a prensagem sobre a "massa" de vinil
- O disco de vinil sai da máquina com uma rebarba, que após é aparada
O empacotamento do disco exige que o material esfrie. Segundo Crivellaro, na Rocinante, até o resultado final, são feitas verificações da qualidade sonora e visual. De acordo com ele, já foram fabricados cerca de 600 mil discos desde 2021, ano em que o local começou a operar.
⚠️ Como limpar discos de vinil
- Sendo um disco novo ou antigo, a limpeza é o principal cuidado a ser tomado — existem, inclusive, escovas e soluções de limpeza para discos. Mas vale também olhar como está o tapete da vitrola e a agulha
- Em caso de compras de discos usados, a dica é verificar se não está muito arranhado ou danificado, o que pode prejudicar a escuta.




