
A 11ª edição do Rap in Cena foi anunciada como mais compacta, oferecendo menos palcos para o público e, consequentemente, um número menor de artistas. Mas, mesmo com essa redução, o público se fez presente — e até surpreendeu — no primeiro dia de evento, neste sábado (18), no Parque Mauricio Sirotsky Sobrinho, o Harmonia.
A estimativa dos organizadores do festival era de receber entre 15 e 18 mil pessoas por dia e, segundo o idealizador do Rap in Cena, Keni Martins, mais de 19 mil compareceram à estreia do evento que, desde às 13h, quando se abriram os portões, contou com chuva, sol, ventania e, até mesmo, um arco-íris.
— A gente fica feliz demais. Este ano, o desafio foi grande, não só para nós, mas para todos os festivais do Brasil, que estão com vendas baixas. E estamos conseguindo entregar mais uma edição do Rap in Cena. A nossa expectativa era um pouco mais compacta, mas conseguimos ultrapassar ela. Então, é uma emoção gigante — contou Keni.
Com um line-up que contava com nomes como Duquesa, Chefin, Poze do Rodo, TZ da Coronel e BK, o público-alvo desta edição do evento era a gurizada. E deu certo. Os jovens formaram a maioria da plateia do Rap in Cena, cantando e dançando as músicas recheadas de autotune e batidas pesadas. Ainda assim, ainda houve críticas.
— Este ano, eu achei mais caidinho, faltou um pouco de rappers femininas na line-up. A gente tem tantas artistas, rappers femininas boas, como a Ebony, Ajuliacosta, e elas não estão aqui. Eu fiquei tipo: "Meu Deus, cadê essa gente?" — disse Tainara Menezes, 21 anos, UX e moradora de Porto Alegre.
A jovem estava em seu segundo ano no evento e, desta vez, ganhou a companhia do namorado, Rodrigo Oliveira, 22, administrador, que fez a sua estreia no festival. Para o casal, porém, mesmo com as ressalvas, a importância de um evento como o Rap in Cena é muito grande.
— A cena do hip-hop sempre foi marginalizada, mais da favela. E o Rap in Cena divulga essa cultura e faz chegar mais longe. Acho importante ele ser aqui no Sul, onde tem uma galera que diz que não existem pessoas negras no Sul. Eu já ouvi isso várias vezes — completou Tainara, que tinha como grande expectativa do dia ver ao show de Duquesa.

A rapper baiana subiu ao palco às 16h31min, sob uma chuva fina e gelada que havia acabado de começar a cair. Ela chegou colocando o público para cantar o seu hit Fuso e, na hora de conversar com a plateia, parece que havia trocado uma ideia com Tainara minutos antes e disparou com o microfone na mão:
— Estou muito feliz de estar presente neste line-up. Mas tenho que dizer que poderia ter mais mulheres aqui.
Os da antiga
Entre os vários artistas da nova geração, que conversam diretamente com o público jovem, o Rap in Cena deu espaço para alguns veteranos, que comandaram as pick-ups entre uma atração nacional e outra. Um deles foi o DJ Milkshake, que está presente desde a primeira edição do festival. Ele colocou a galera para dançar os clássicos da antiga, exaltando, inclusive, o grupo Da Guedes — com o Soldado Spaw subindo ao palco para a celebração.
— Eu vi o Rap in Cena nascer. Então, para mim, é uma realização pessoal como um soldado do hip-hop ver um festival deste tamanho hoje acontecendo em Porto Alegre. E, hoje, a gente vê o Rap in Cena sendo notícia no Brasil inteiro. É só orgulho. Estar em cima do palco, desde o primeiro, é uma satisfação enorme. Cada vez que eu subo no palco, me emociono. Os olhos enchem de lágrimas e eu começo o meu set chorando. Todos os anos. É foda demais — destacou o DJ Milkshake para a Zero Hora.
Depois que o gaúcho saiu do palco, foi a vez do carioca Chefin emplacar os seus hits e colocar a meninada para cantar junto. Após a sua apresentação, o jovem abriu espaço para os mais veteranos da edição do Rap in Cena assumirem o comando: os DJs Gê Powers e Nezzo. Eles colocaram, em seus sets, clássicos da black music desde a década de 1980, mas não deixaram de conversar com o público, dando espaço, até mesmo, para um Kendrick Lamar da vida, com Not Like Us.
Solto no palco, Gê Powers arriscou algumas rimas e, no alto dos seus 69 anos, dançou e interagiu com a plateia, cheio de energia:
— Olhem aqui um veterano fazendo vocês dançarem no Rap in Cena. Tenho 55 anos de carreira e ainda estou aqui, no meio desta juventude.
Além da música
Como de costume, o Rap in Cena tem outros espaços além das apresentações de artistas, como a Vila Olímpica, no qual exalta o esporte, e a feira de multiempreendedorismo, com tatuagem, roupas e, até mesmo, experiências. É o caso do estande da Red Bull, que conta como uma pequena exposição dedicada à descida de skate por Sandro Dias, o Mineirinho, no Centro Administrativo Fernando Ferrari (Caff).
Por ali, o público, além de ver fotos do momento histórico, ainda pode colocar um óculos de realidade virtual (VR), subir em um shape de skate e se enxergar descendo o icônico prédio porto-alegrense, tal qual o Mineirinho. O estudante João Vitor Bitencourt, 18, de Gravataí, decidiu experimentar:
— É a minha primeira vez no Rap in Cena. Nem sabia que ia ter este espaço aqui. Gostei demais. E eu não imaginava que o prédio fosse tão alto. Quando estava com o VR, os pés tremeram, fiquei até meio tonto. Foi legal demais.
Alguns locais do Harmonia também são dedicados para competições, como de breaking dance. Durante a tarde, Miguel Giovani Pinto, o Bboy Miguelito, 22, da Lomba do Pinheiro, entregou tudo. Havia ganhado uma das etapas e, mais tarde, disputaria o prêmio de R$ 1 mil, fazendo os passos que pratica desde os 7 anos.
— É muito bom ter um espaço como como este. A gente consegue explorar novos ares, se conectar com o pessoal de fora, trocar esta energia e, ainda, manter a cultura do hip-hop viva. É uma grande união — disse o dançarino.
Em um estande da patrocinadora do Rap in Cena, a Petrobras, estava ocorrendo batalhas de rima. Durante um dos confrontos, Paulo Henrique Barboza, o PH7, 30, morador do Gravataí, sagrou-se vencedor. Com 20 anos de carreira, emociona-se ao falar da evolução, da aceitação e, principalmente, do espaço que a cultura do hip-hop conquistou com o passar do tempo.
— Na minha época, não tinha isso, mano. Os shows eram mais clandestinos, feitos na vila. E, hoje, ver isso daqui é completamente surreal. Quando eu era menorzinho, com uns 12 anos, eu tinha duas escolhas: entrava para o crime ou entrava para o rap. E, hoje em dia, estou tendo espaço para poder expressar a minha arte. E isso é algo que salva aquele moleque de 12 anos lá atrás — completa PH7.
Depois de seguir até a meia-noite deste sábado, o Rap in Cena retorna neste domingo (19), a partir das 13h, indo, também, até o último minuto do dia. E a edição de 2026 já foi confirmada por Keni Martins. Ou seja, não para por aqui.




