
Na noite desta terça-feira (16), o Salão de Atos da UFRGS se converteu em espaço ritualístico conduzido pela voz de Seu Mateus Aleluia, 81 anos, filho de Cachoeira, no Recôncavo baiano, um dos grandes mestres da música brasileira e referência incontornável da tradição afro-brasileira. O cantor e compositor, integrante histórico dos Tincoãs, inaugurou a série Entreluzeiros, do projeto Unimúsica 2025/2026, em um espetáculo de intimidade, devoção e potência.
Com os 1.187 ingressos esgotados em apenas três horas e meia — trocados por doações de alimentos, o teatro recebeu um público que foi guiado por um repertório que atravessa mais de seis décadas de carreira. O setlist, disposto como uma espécie de liturgia, trouxe clássicos como Bará, Ogum Pa e Olorum, reafirmando o vínculo profundo de Aleluia com as tradições afro-religiosas e com a ancestralidade que molda sua obra.
Momentos de suspensão marcaram músicas como Sonho de Crioula e Serpentear da Natureza, em que a cadência do canto parecia dialogar diretamente com a plateia em um chamado à escuta coletiva. Já em Oh Música e Amor Cinza, o artista deu contornos líricos à sua trajetória, equilibrando delicadeza e vigor.

Entre uma canção e outra, Aleluia dialogou com a plateia contando histórias. Um dos momentos mais marcantes foi quando relatou a origem de Koumba Tam, revelando, com seu tom sereno de griô, camadas de memória e vivência que atravessam sua obra. Nesse fio narrativo, emergiu também o peso de seus 20 anos vividos em Angola (1983-2002), período em que seu olhar se ampliou para os vínculos entre Brasil e África, reforçando o caráter universal e, ao mesmo tempo, profundamente enraizado de sua criação.
Em diversos momentos, o artista pediu o coro do público, e as respostas vinham como verdadeiras orações coletivas, intensificando o caráter ritual da apresentação. Para além do repertório previsto, Mateus surpreendeu ao incluir Cordeiro de Nanã e Gira deixa a gira girar. Foi nesta última que o público inteiro se levantou, permanecendo em pé até o encerramento com Fogueira Doce, em um desfecho de comunhão e emoção. Com humor, Aleluia ainda brincou ao pedir bis sentado, "para não precisar sair e voltar", gesto que arrancou risos e reforçou a intimidade construída ao longo da noite.
O espetáculo contou ainda com o acompanhamento do percussionista gaúcho Mimo Ferreira.

Mais do que um show, a estreia da série Entreluzeiros se afirmou como um rito de memória e encantamento, reafirmando Mateus Aleluia como um dos grandes faróis da música brasileira, artista cuja obra ilumina o passado e o presente com a força da ancestralidade.


