
Um pai atendendo a um pedido da filha. Foi o que aconteceu quando Gilberto Gil subiu ao palco montado no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, às 21h14min. Diante de 30 mil de pessoas, conforme informações da organização do evento, o cantor e compositor resplandeceu ao longo de 2h45min, com serenidade e competência.
Foi o primeiro show da turnê Tempo Rei após a morte de Preta Gil, filha do artista. Ela morreu aos 50 anos em 20 de julho, dois anos e meio após anunciar o início de um tratamento contra o câncer no intestino.
O show precisava continuar
Após perder a filha, o cantor chegou a fazer uma apresentação compacta no São Paulo Beyond Business, em 17 agosto. Apesar do público reduzido, o momento não foi menos emocionante: após tocar Drão (canção que fez para Sandra Gadelha, mãe de Preta), Gil fechou os olhos por alguns segundos.
A turnê também precisava continuar. O cantor comentou, em entrevista exclusiva a Zero Hora, que a decisão de manter a série de shows acolhia um desejo de Preta.
Tempo Rei é a turnê mais superlativa da carreira de Gil: são apresentações em estádios e arenas para milhares de fãs (até o momento, a organização da tour estima mais de 500 mil pessoas), com muita pirotecnia, jogos de luzes e painéis gigantes de LED — destaque para o telão posicionado no centro do palco, que ajudava a contar a história do cantor.
Tempo Rei está sendo tratada por Gil como sua última grande turnê. Depois disso, ele pretende se apresentar em palcos menores e intimistas. De qualquer maneira, o show celebra seus mais de 60 anos de carreira e repassa a maior parte daquelas canções obrigatórias em seu repertório.
O show no Beira-Rio
Gil subiu ao palco não só com sua guitarra, mas também com sua alma cheirando a talco e trazendo sua banda, em que "só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor". É o que dizem versos de Palco, faixa que abriu a apresentação. O refrão funcionava como um expurgo para o cantor e sua plateia: "Fogo eterno pra consumir/ O inferno, fora daqui".
Como o próprio Gil comentou no vídeo exibido antes do show, o tempo pesa. Por isso mesmo ele está se despedindo das grandes turnês. A voz já não é mais aquela de outrora, mas o artista segue cantando e conduzindo o público com competência, acompanhado de uma banda de apoio impecável. Ainda é aquele showman bastante comunicativo, às vezes espirituoso, detentor de um carisma sereno.
Também há o fato de Gil se sobressair por si só com sua aura. Afinal, vê-lo cantar ao vivo nesta turnê traz uma sensação de ver a história sendo escrita no palco.
O show começou festivo com Palco e continuou assim com Banda Um. Depois de Tempo Rei, ele saudou o público pela primeira vez.
Com Eu Só Quero Um Xodó, Gil pôs o Beira-Rio para dançar forró. Casais colocaram os passos em dia na pista, já outros aproveitaram a deixa para pedirem, isso mesmo, carinho.
Depois de Eu Vim da Bahia, Gil pediu licença para algo inusitado:
— Deixa eu assoar meu nariz só um pouquinho. Que frio faz aqui hoje!
Naquele momento, a temperatura marcava 12°C. A plateia começou a gritar "Gil, eu te amo!".
– É recíproco! Também amo todos vocês. Amor incondicional, necessário para que a humanidade progrida —respondeu.
Com o nariz aliviado, Gil seguiu o show com Procissão e Domingo no Parque.
O tom político veio à tona com Cálice, composição de Gil com Chico Buarque, que apareceu no telão em vídeo falando sobre a canção. A música, que retrata a censura da ditadura no Brasil, foi a deixa para a plateia gritar "sem anistia!" — o que já vinha sendo bradado antes do show começar.
Gil interpretou Cálice com sutileza e vigor, ganhando acompanhamento do público em coro. Quando ocorreu a entrada dos metais e da percussão, foi como se um golaço fosse comemorado no Beira-Rio.
Depois foi a vez da trinca composta por Back in Bahia, Refazenda e Refavela. Antes de Refavela, Gil contou durante cinco minutos toda a história que o levou a compor a canção, após um festival na Nigéria.
O bloco reggae do show foi aberto com Não Chore Mais, versão de Gil para No Woman, No Cry, de Bob Marley & The Wailers — com o público reforçando o coro no refrão, acendendo as luzes dos celulares e dançando como se fosse show do Armandinho.
Ainda nessa parte da apresentação, Gil interpretou Extra, Vamos Fugir (que fez levantar 100% do público que estava nas cadeiras), Nos Barracos da Cidade e A Novidade.
A partir de Realce, a atmosfera de discoteca tomou conta do Beira-Rio, reforçado por fogos, luzes coloridas e lasers. Esse clima dançante prosseguiu com A Gente Precisa Ver o Luar.
"Filha da terra" na área
Todo show de Tempo Rei tem contado com alguma participação, costumeiramente de algum artista local — o que se repetiu em Porto Alegre. Para Punk da Periferia, Gil recebeu o reforço da gaúcha Adriana Calcanhotto ("filha da terra!", como saudou o cantor), que trouxe uma interpretação enérgica e culminou em um selinho carinhoso no cantor.
Por fim, o bloco roqueiro fechou com Extra II (O Rock do Segurança). A seguir, foi a parte que Gil descreveu como "mais quieta". Uma moça na plateia próxima da reportagem retrucou:
— Ai, essa é de chorar!
Então, a parte quieta (ou de chorar) foi inaugurada com Se Eu Quiser Falar com Deus. Parte da banda deixou o palco: era Gil, um banquinho, um violão, um trompetista e um quarteto de cordas. E uma plateia mesmerizada.
Celebração à memória da filha
A banda voltou em Drão. Após assobiar na introdução, Gil embargou a voz nos primeiros versos da música. No telão, eram exibidas imagens de arquivo da família Gil nos anos 1970. Um momento cativante.
— A última música que a Pretinha cantou comigo. Cantou para a mãe dela — relatou Gil.
A última vez que Preta Gil se apresentou com o pai foi em 26 de abril, em show realizado em São Paulo.
A delicada Estrela foi outra balada que emocionou a plateia, com direito a novo show de luzes do público. Na sequência Esotérico encerrou o bloco.
O clima festivo voltou com Expresso 2222, que se consolidou com Andar com Fé, em que Gil fez o estádio inteiro cantar o refrão com força. O baile teve sequência com Emoriô e Aquele Abraço — aqui, o cantor esbanjou vigor zanzando e dançando pelo palco.
O público voltou a bailar forró com Esperando na Janela e, por fim, Toda Menina Baiana fechou a noite promovendo no Beira-Rio um caloroso Carnaval baiano em uma noite gelada de setembro. Milhares de pessoas atendendo ao pedido de uma filha.

