
Ao subir no palco montado no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, neste sábado (6), talvez Gilberto Gil apresente o show mais delicado da turnê Tempo Rei. Será o primeiro após a perda da filha.
Preta Gil morreu aos 50 anos em 20 de julho, dois anos e meio após anunciar o início de um tratamento contra um câncer no intestino.
De lá para cá, o cantor chegou a fazer um show mais compacto no evento São Paulo Beyond Business, em 17 agosto. Diante de 800 pessoas, o repertório mais breve não foi menos emocionante: após tocar Drão (canção que fez para Sandra Gadelha, mãe de Preta), ele fechou os olhos por alguns segundos.
Como Gil relata em entrevista exclusiva a Zero Hora (leia abaixo), ao continuar com a turnê, o pai estará atendendo a um pedido da filha.
Aliás, o cantor estará acompanhado de familiares no palco: os filhos Bem Gil (guitarra/baixo), José Gil (bateria) e Nara Gil (voz), além do neto João Gil (guitarra/baixo) e da nora Mariá Pinkusfeld (voz).
Completam a banda Diogo Gomes, Thiago Oliveira e Marlon Sette (sopros), Danilo Andrade (teclado), Leonardo Reis (percussão), Gustavo Di Dalva (percussão), Mestrinho (sanfona) e um quarteto de cordas.
Gil em seu esplendor
Na capital gaúcha, Gil irá celebrar seus 60 anos de carreira e repassar clássicos como Toda Menina Baiana, Palco, Estrela, Expresso 2222 e Aquele Abraço. Costumeiramente, há participações especiais — Anitta, Sandy, Marjorie Estiano, Chico Buarque e Djavan, entre outros, já subiram ao palco para dividir os vocais com o cantor. O show em POA é uma realização de 30e, Gegê Produções e Opinião Produtora.
Tempo Rei foi anunciada como a última grande turnê do cantor de 83 anos. Ele já comentou em entrevista que ainda pretende fazer apresentações eventuais, em proporções menores e datas mais espaçadas.
De qualquer maneira, pelo que se viu até aqui na turnê, quem for ao Beira-Rio verá Gil em seu esplendor: magnânimo, com a voz firme e a musicalidade pulsante.
Em conversa com Zero Hora, o músico falou sobre sua relação com Porto Alegre, a turnê, Preta e até sua torcida por times gaúchos.
Leia a entrevista com Gilberto Gil
Como tem sido a turnê Tempo Rei até o momento?
Tem sido interessante e muito intensa. Sempre em estádios, lugares grandes, uma coisa a que eu não estava propriamente acostumado. Até já fiz alguns shows em estádios há algum tempo, mas não assim em sequência.
A receptividade foi muito boa desde a primeira apresentação. O público me recebeu de um modo muito interessante, compreendeu que era uma excursão intensiva e extensiva, que promoveria outro posicionamento em relação ao meu trabalho. E, enfim, veio a morte da Preta e nós tivemos que interromper a série, que vamos recomeçar agora em Porto Alegre.
Essa turnê ganhou uma carga emocional diferente com a partida de sua filha. Como é para você dar continuidade a essa série de shows?
Vamos verificar nas apresentações, no próprio encontro com o público. De qualquer forma, estamos vivendo um período de luto, em que há uma emoção muito pesarosa pela perda dela.
Preta já vinha doente há muito tempo, há mais de dois anos, e insistia para que eu desse prosseguimento à turnê. E, certamente, se estivesse aqui, ainda estaria me apoiando no sentido de continuar e dar atenção ao público.
Em show realizado em abril, em São Paulo, Preta fez uma interpretação emocionante de Drão. Foi a última apresentação dela com você. A partir de agora, Drão ganha um peso diferente?
Não sei. Possivelmente. Essa música já vinha tendo um peso importante pelo fato de ela (Preta) ser um dos filhos descritos na canção, pelo fato de já estar doente e tudo, e por haver no país uma mobilização espiritual pela saúde dela. De uma certa forma, tudo isso permanece e se estende aos próximos shows.
Que Porto Alegre você espera encontrar no show de sábado?
Espero que seja a Porto Alegre que sempre foi. Acolhedora, muito interessada em toda a movimentação da música popular brasileira, dos seus representantes. É uma cidade que sempre acolheu de forma muito entusiasmada todo esse movimento.
Espero que seja uma continuidade também do entusiasmo que vem tendo essa excursão pelo fato de ser a "última", entre aspas. Que Porto Alegre se some a todos esses outros lugares do Brasil que têm nos recepcionado com muito gosto, entusiasmo e vibração.
Em 60 anos de carreira, você se apresentou em diferentes espaços da cidade. Tocou até no Acampamento da Juventude no Fórum Social Mundial em 2005. Alguma apresentação em especial o marcou ao longo desses anos?
Lembro com um sentimento muito homogêneo de todas elas, apesar das diferenças de quantidade de público e características de espaços. Sempre foram apresentações muito interessantes.
Teve uma apresentação em que estava o Caetano (Veloso) e foi onde eu cantei Se Eu Quiser Falar com Deus pela primeira vez. Nunca esqueço a receptividade do público, a surpresa do Caetano com a música, e tudo isso num instante me marcou.
Estamos vivendo um período de luto, em que há uma emoção muito pesarosa pela perda dela (Preta Gil).
GILBERTO GIL
Cantor e compositor
A parte azul do Rio Grande do Sul lembra com carinho sua relação com o Grêmio. Vez ou outra surge alguma foto sua nas redes sociais gremistas com a camisa do time. Você sente que a difusão de sua relação com o Grêmio aumentou nos últimos anos?
Sou um torcedor já convencional e tradicional do Grêmio há muitos anos. Estive presente no estádio quando o Grêmio quebrou uma série histórica de oito campeonatos do Internacional com gol de André Catimba (decisão do Campeonato Gaúcho de 1977).
Fiz uma visita recente à Arena do Grêmio. Tenho pelo menos umas três camisas do clube, que ganhei em oportunidades diferentes.
Sou torcedor do Grêmio por uma série de razões, uma delas pelo fato de ser tricolor, e a maior parte dos times pelos quais eu tenho simpatia são tricolores: desde o Bahia ao Fluminense no Rio, passando pelo Santa Cruz em Pernambuco.
Alguém poderia se perguntar: "Então esse show não deveria ser no estádio gremista?".
Tenho a impressão que a organização da turnê chegou a aventar a possibilidade. Por alguma razão, acabaram se inclinando pelo Beira-Rio, pelo qual também tenho uma simpatia muito grande, assim com tenho pelo Internacional. Como eu tinha pelo Renner no tempo que existiu. Aliás, foi o primeiro time pelo qual eu comecei torcendo no Rio Grande do Sul.
Renner? Como isso?
Eu escolhi por conta das transmissões radiofônicas dos campeonatos regionais que eu ouvia na Bahia. O Renner acabou encontrando um lugar especial na minha audição, e eu me tornei torcedor. Depois, o time desapareceu (foi extinto em 1957).
(Porto Alegre sempre foi) Acolhedora, muito interessada em toda a movimentação da música popular brasileira, dos seus representantes.
GILBERTO GIL
Cantor e compositor
Tempo Rei tem um tom de despedida, mas também de celebração de sua vida e carreira. Como gostaria que essa turnê fosse lembrada?
Primeiro, que seja lembrada por ser um momento interessante. Um momento de encontro afetivo, afetuoso e caloroso entre mim e o público.
Segundo, uma turnê em que a resposta do público à performance tem sido até agora — e espero que seja até o fim — muito positiva e gratificante, tanto para mim quanto para o público.
É a lembrança de uma turnê histórica nesse sentido, cumprindo a manifestação de uma presença longa, de mais de 60 anos de trabalho. Que fique marcada no coração de todos nós, no meu inclusive.
Passada essa turnê, o que pretende continuar fazendo musicalmente?
Não tenho preparado nada ainda. Tenho ficado em casa. Quando tenho momentos mais folgados, repasso coisas antigas do meu repertório, canções menos conhecidas, que não chegaram a ser tão apreciadas quanto os grandes sucessos. É para que eu possa juntar mais tarde um repertório com essas canções em uma apresentação mais modesta e contida, menos espetaculosa.
E, ao mesmo tempo, ficar quieto, silenciar um pouco, calar um pouco esses alto-falantes da comunicação mais estridente que as excursões e os grandes shows produzem. Enfim, cuidar mais do envelhecimento, que é um momento exigente da vida.
Possivelmente vou ser instigado a voltar a compor. Ser inspirado por novas questões da minha própria vida e do mundo. Então, seguramente, enquanto viver, estarei mexendo com música.
A fome de palco não passa nunca, né?
Pois é, pois é.
Gilberto Gil em Porto Alegre
- Neste sábado (6), às 21h, no Estádio Beira-Rio (Av. Padre Cacique, 891)
- Abertura dos portões: 18h
- Classificação etária: crianças/adolescentes de cinco a 15 anos de idade devem estar acompanhados dos pais ou responsáveis
- Ingressos: a partir de R$ 170 (meia-entrada) e R$ 204 (com doação de 1kg de alimento não perecível)
- Venda online pela plataforma Eventim
- Bilheteria oficial: loja Planeta Surf no Shopping Total (Av. Cristóvão Colombo, 545), das 10h às 22h




