
O último bom malandro, o seu chapa, o rapper favorito do seu rapper favorito. Alcunhas não faltam para designar Don L, 44 anos, que volta a se apresentar ao público porto-alegrense na noite do sábado (9).
Nascido Gabriel Linhares da Rocha, em Brasília, foi batizado Don L nas ruas de Fortaleza, para onde se mudou aos quatro anos. Antes de lançar carreira no rap, começou a andar com a galera mais velha da sua área que participava de movimentos sociais, e aprendeu, entre outras coisas, a ter responsabilidade sobre o que se diz.
Há 20 anos, despontou como o líder do Costa a Costa, grupo de rap do qual fez parte até lançar sua carreira solo. Essa fase se iniciou em 2013, com o lançamento do álbum Caro Vapor / Vida e Veneno, que colocou o rapper na prateleira mais alta do rap nacional e legou ao público sucessos como Enquanto Acaba, Doce Dose e a marcante música de abertura, Morra Bem, Viva Rápido.
Em junho de 2025, 12 anos depois, o rapper lança o segundo volume, Caro Vapor – Qual a Forma de Pagamento?, que é apresentado na turnê que traz Don à Capital para o show neste sábado, no Opinião. Além do trabalho novo, o rapper também deverá apresentar músicas do Caro Vapor I e de seus outros álbuns, da trilogia Roteiro Para Aïnouz.
— A gente nunca esteve em uma época tão fácil de ter acesso a música. Ao mesmo tempo, as pessoas escutam, mais do que antes, as mesmas coisas — destaca.
Confira entrevista com Don L
Antes de falar do álbum novo, queria que você contasse um pouco do seu início no rap, ainda lá em Fortaleza.
Antes de começar no rap, eu primeiro entrei pro movimento hip-hop, e o movimento em Fortaleza era realmente um movimento social, bem politizado. Fui morar em uma ocupação e comecei a participar mais de movimentos sociais. Nesse tempo eu já escrevia umas rimas, sobre malandragem, sobre o cotidiano. Ao mesmo tempo em que a vivência política te ajuda a ler o cenário social, a malandragem te ajuda a entender a rua. Mas eu ainda escrevia pra mim mesmo, ainda tava aprendendo com a rapaziada mais velha, aprendendo que tem que ter uma responsabilidade sobre o que falar, sobre o que as pessoas vão ouvir. Aí primeiro eu fui ser produtor, depois comecei a mostrar minhas rimas, e a galera acabou me convencendo a gravar. Então foi meio que pela aprovação da rapaziada do movimento que eu comecei a ser rapper. E hoje em dia isso tudo tá na minha personalidade e na assinatura do meu trampo, tanto essa parada de falar do malandro e ao mesmo tempo ser político, como também de ser produtor e rapper, já tem tudo isso ali na gênese.
Você passou um tempo vendendo CDs nas ruas de Fortaleza, e eu já vi você comentar que esse período foi importante também para entrar em contato com vários tipos de música e entender o gosto musical do público, certo?
Eu trabalhava numa pizzaria e, quando pedi as contas, comprei uma vespinha, uma moto. Comprava CDs a R$ 2, R$ 2,50, e vendia a R$ 5. Vivi disso por um tempo, pegava minha vespa e ia nos barzinhos, nas praças, pela periferia de Fortaleza inteira, vendendo e descobrindo o que a galera mais gostava de ouvir. Era uma época que as pessoas na periferia estavam começando a ter CD player, depois DVD, foi aquele momento de boom econômico que o Brasil teve nos anos 2000, no primeiro governo Lula, e foi quando eu tive muito contato com uma música popular brasileira que é tida como de baixa cultura muitas vezes. A galera pedia muito do que é chamado de brega, dos anos 1970, como Evaldo Braga, Genival Santos, Wando. Eles eram populares mas sofriam preconceito, talvez até por serem populares demais, na visão de alguns. Mas isso me deu muita bagagem, somou com os outros sons que eu já ouvia, depois eu comecei a comprar muito disco de vinil também e usar esses sons nos samples, porque eu já tava naquela onda de ser produtor. Foi uma fase da minha vida que eu tive contato com uma grande pluralidade musical e que acabou me influenciou muito.
Em 2005 tem início o Costa a Costa, grupo de rap formado por você, Nego Gallo e outros integrantes em Fortaleza, e que em 2007 lança uma mixtape que marca época no rap nacional e que continua cada vez mais sendo reverenciada. Como foi essa fase?
Louco pensar que isso já faz 20 anos. Foi um divisor de águas, o que a gente já tava fazendo ali como música, dentro do rap, só seria feito no Brasil depois de uns 10 anos. Quando a gente lançou foi um impacto muito grande, mas mais regional, naquele tempo era muito difícil divulgar o trabalho, você divulgava na mão mesmo, gravava um CD e mandava pra alguém. A internet ainda não era totalmente difundida, tinha que ir em lan house para acessar. Mas era um som que era à frente do tempo, tinha em 2017 uma galera fazendo trap que era meio naquela vibe, e a gente já tinha essa estética na temática, na postura, no swag, na levada, nos esquemas de rima. E aquele som também já tinha muito do que eu trago agora, essa coisa de dialogar com a música brasileira, ter sample de carimbó, samba, de reggaeton da América Latina, então acho que por isso que a mixtape é longeva. Tudo era muito real, muito visceral, feito com a alma, a gente tinha poucos recursos para fazer qualquer coisa, mas fez o máximo que podia, acho que isso tem um valor e a galera hoje em dia escuta e ainda sente.
Como é a sua relação com a cena de rap aqui do Rio Grande do Sul?
O primeiro grupo que eu ouvi daí foi o Da Guedes, era também um grupo que fazia um som bem interessante, foi muito original o que eles fizeram. Depois eu vim conhecer uma outra rapaziada, conheci o Zudzilla, que é um cara que eu também curto muito. Uma mina que eu ouvi recentemente foi a Cristal, e achei ela incrível, uma parada muito fora da curva, é uma artista que eu tô muito afim de acompanhar mais. Acho muito bom quando a gente consegue sair dessa centralização só do sudeste, e consegue ter diferentes perspectivas do Brasil inteiro.
Falando da sua carreira solo, em 2013 você lança o Caro Vapor, que também foi um grande sucesso, e agora, 12 anos depois, está lançando o Caro Vapor II. O que mais mudou no Brasil e em você de lá pra cá?
Agora a gente vive um momento em que os problemas se intensificaram. A gente ainda vê um monte de barreiras para muita gente no Brasil ter aspirações de grandes sonhos, grandes planos pessoais e coletivos, querendo fazer o que ama e aspirando viver em um Brasil diferente, isso não mudou tanto. Por outro lado, a gente vive hoje num mundo completamente novo, muitos dos termos que eu uso agora no volume dois não seriam compreendidos naquela época, porque a internet já mudou nosso o estilo de vida completamente. Em 2013 a gente já tinha bastante atividade digital, mas ainda era a vida online que imitava a vida real, agora as coisas se inverteram. Agora todo mundo quer parecer um filtro do Instagram, quer ter a vida do chamado influencer, que está obviamente maquiando a sua vida real própria e apenas postando um recorte que seja interessante divulgar.
E os temas foram atualizados para esse segundo volume?
Fora isso, a ideia em 2013 era destacar como é caro esse vapor, essa pulsão de vida, esse ímpeto de fazer valer a presença aqui nesse mundo, e poder também desfrutar do que a gente constrói coletivamente, como trabalhadores, como filhos de trabalhadores, pessoas que construíram esse país e muitas vezes ficam só com as sobras de uma pequena elite que consome tudo e usufrui desse trabalho explorado. No volume dois, eu falo sobre qual a forma de pagamento para conseguir ter pelo menos um gosto disso, sendo uma pessoa que tem essa origem, que é a da maioria da população brasileira, que está seduzida por esses grandes sonhos, mas que foram empobrecendo e virando uma imagem maquiada de um influencer na tela do celular.

Conta um pouco também do processo de produção do disco e das principais influências que você teve durante esse período e buscou trazer para o álbum.
Todos os meus discos são pelo menos 50% produzidos por mim, com a colaboração de grandes produtores. Nesse disco, trabalhei com o Iuri Rio Branco e com o Nave. Ao mesmo tempo, quis ter mais samples, e ter essa reverência de uma música brasileira que tinha grandes sonhos, que sonhava com um Brasil soberano e culturalmente soberano também, com seu próprio caminho, e por isso esses samples com o Itamar Assumpção, que foi um grande propositor, que lutou pra não ficar preso a um conceito de música subserviente, e também a presença da Anelis Assumpção. Eu quis trazer um cearense também, o Rodger Rogério, que faz parte de um movimento musical importante do Ceará, e aí tem uma música que é uma interpolação do Caymmi com a neta dele, a Alice Caymmi, e tem também o Lô Borges, o Fernando Brandt e o pessoal de Minas, entre outras participações.
Queria que você explicasse justamente essa inspiração na música Para Lennon e McCartney, desse pessoal de Minas, para lançar essa do disco, Para Kendrick e Kanye.
Quando eles lançaram Para Lennon e McCartney, estavam reconhecendo esses dois artistas incríveis, que influenciaram toda uma geração, e tinham músicas e ideias muito interessantes. Mas, ao mesmo tempo, também usufruíam do império construído pelas potências no norte global, que explora os outros países não só em recursos naturais, mas também em recursos culturais, e que quer impor a sua cultura aos outros. Então, eles estavam ali dando um recado e dizendo “ó, legal, a gente curte o que vocês fazem, mas isso aqui é outro bagulho, é a América do Sul”.
A ideia agora foi aplicar essa lógica com a cultura norte-americana?
Anos depois vem o rap, uma música que nasce dentro do império, dos Estados Unidos, mas feita por gente das periferias, desenvolvida por pretos, imigrantes, pessoas que estavam à margem da sociedade norte-americana, e é uma música que nasce totalmente disruptiva e combativa, que depois vai sendo absorvida até virar a música mais tocada nos Estados Unidos. E hoje isso também é usado como imposição da cultura norte-americana, uma imposição de uma cultura materialista que é repetida no mundo todo, muitas vezes só com um resquício do que era antes, que é uma afirmação da identidade do negro, do imigrante, do marginalizado. E aí, dentro desse contexto atual, a gente tem o Kendrick e o Kanye. Dentro do espectro do rap dos Estados Unidos, estão em lados completamente opostos, um se tornou um nazi, e o outro é um cara progressista, mas que também se vale dessa estrutura e dessa imposição cultural dos Estados Unidos em relação aos outros países.

O que você mais gosta de ouvir no rap e na música brasileira hoje, e como você enxerga o modo atual de consumir música?
Eu sou um entusiasta do funk brasileiro, acho uma criação brasileira genial, tem esse divisor de águas quando deixa de ser Miami Bass e se torna funk brasileiro, com influência da batida africana. No rap, tem nomes também que estão fazendo coisas que eu gosto muito, o Matheus Fazeno Rock, um cara de Floripa que é o Makalister, o Rico Dalasam, que pra mim é tipo um dos maiores artistas brasileiros contemporâneos, além de muitos outros. Sobre ouvir música, a gente nunca esteve em uma época tão fácil de ter acesso a música, e ao mesmo tempo as pessoas escutam, mais do que antes, as mesmas coisas, olha como é paradoxal isso. Apesar de ser mais fácil, muitas vezes as pessoas não querem se dar ao trabalho nem de fazer uma procura de algo novo, querem só que o algoritmo decida por elas. Acho que é importante buscar coisas novas, coisas que são genuínas, originais e humanas. A gente tá vivendo agora o início de uma nova era, onde está se caracterizando um novo estilo de música que é a música humana, em confronto à música da inteligência artificial.


