Para alguns, era irresistível: o transeunte caminhava pela Rua Sete de Setembro, no Centro Histórico, ouvia aquele som e parava. Sambava. Talvez seguisse de novo seu caminho. Talvez ficasse.
Em um dos principais cartões-postais de Porto Alegre, havia dança e música entre a tarde e a noite deste domingo (6), reunindo centenas de pessoas. Na verdade, tem sido assim há dois anos na Travessa dos Cataventos, na Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ). Mensalmente, o espaço é tomado pelo Samba do Quintana.
A edição celebrou dois anos do projeto, contando com apresentações da banda residente Thiago Ribeiro & Amigos e do Sambas de Protesto. Foram quatro horas de samba, entre as 16h e 20h.

Com criação e curadoria da jornalista e pesquisadora musical Bruna Paulin, além de ser promovido pela CCMQ, o projeto foi lançado em junho de 2023 com intuito de fomentar a cultura do samba e, mensalmente, oferecer espaço para os compositores locais apresentarem suas obras. Ao longo de dois anos, o Samba do Quintana, já mobilizou mais de 15 mil espectadores nas 18 edições, conforme informações da CCMQ.
Conforme Bruna, o evento foi pensado para ser acessível, onde qualquer pessoa pudesse participar com facilidade — a entrada é franca. Aliás, isso pode ser visto com a intérprete de libras que atuava junto às apresentações.
— A roda de samba é esse espaço de congregação — realça a curadora. — Recebemos pessoas de várias regiões da cidade, de cores, gêneros, idades, backgrounds completamente diferentes, que desfrutam e usufruem plenamente do espaço.
De fato, havia uma diversidade ao redor da roda. Por exemplo, havia gente de patins. Havia gente com cachorro. Com a família. Todos bastante agasalhados, com toucas e luvas, se aquecendo também com chimarrão, quentão ou vinho — além do próprio samba.
Do meio da tarde para a noite, a temperatura caiu de 17ºC para 12ºC. Cantando e dançando em meio a uma roda de amigos, jornalista porto-alegrense Gisele Ramos, 44 anos, brincou:
— Já vim preparada para passar frio daqui a pouco! (risos) Mas é um momento confortável, gostoso. Há uma vibe diferente nesta roda. É especial estar aqui, especialmente por ser um cartão-postal.
Na frente da roda estava Maíra Goyer, 34 anos, acompanhada da família. A professora de educação física vive em Cachoeirinha, mas frequenta o Samba do Quintana desde o começo.
— A energia aqui é muito especial, ainda mais sendo neste prédio. Porto Alegre é demais, né? Já é bonito aqui quando a gente chega. Vai anoitecendo, o sol vai embora, e tudo fica ainda mais lindo quando termina.
Vitrine de criação
Além da proposta de ser acessível e diverso, o Samba do Quintana também é uma vitrine de criação, em que os artistas possam mostrar seus trabalhos autorais.
— A gente adora ouvir os hits, mas a melhor forma de descobrir música é ao vivo, é vendo o artista executar a sua própria canção — pontua Bruna.
Ela acrescenta que há também a intenção de colocar os artistas em uma situação de desafio. No caso, alguns convidados para o Samba do Quintana não são necessariamente do samba, o que ajuda a oxigenar o projeto. Aliás, nenhuma edição é igual a outra, como Bruna acrescenta.
O Samba do Quintana também constrói pontes e fomenta ideias. O Sambas de Protesto surgiu após participação do cantor e compositor Edu Meirelles no projeto da CCMQ, em 2023. Ele apresentou à Bruna uma série de composições e o desejo de montar algo com o tema, e assim trabalharam na concepção do show.
O Sambas de Protesto parte das raízes do samba para abordar temas como racismo, intolerância religiosa, amor e empoderamento de pessoas negras, entre outras pautas. O elenco do projeto conta com Camila Falcão, Edu Meirelles e Glau Barros, acompanhados pelos músicos Bruno Flores (baixo), Cassiano Miranda (percussão), Henrique Rollo (cavaquinho), Denner Gomes (bateria).
Em relação ao Samba do Quintana, Bruna destaca que a ideia é que haja ainda mais diversificação nas participações:
— O meu desejo é que a gente consiga trazer convidados de fora, tanto de outras cidades quanto de outros Estados, exatamente para fazer intercâmbio. E o exercício é de sempre: buscar o máximo de representatividade.




