
Três irmãos irão reproduzir no palco as reuniões familiares, o amor pelos Beatles – como na juventude – e transmitir aquilo que respiravam quando viviam na mesma casa. O trio em questão é composto por músicos estabelecidos no imaginário afetivo do cancioneiro gaúcho.
Kleiton e Kledir se juntam a Vitor Ramil nesta sexta-feira (11), às 21h, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre. No sábado (12), o trio volta à terra natal, em Pelotas, no Theatro Guarany.
Embora integrem o projeto Casa Ramil e já tenham colaborado em discos e shows, esta é a primeira vez que os três se reúnem em um espetáculo próprio. A princípio, só estas duas apresentações estão previstas, mas a ideia é que se repitam em outras oportunidades, quando as agendas dos irmãos permitirem.
Aprendendo um com outro
A iniciativa partiu de um ímpeto de Kledir, o irmão do meio do trio, que tem 72 anos – Kleiton, o mais velho, tem 73, e Vitor, o caçula, 63. O desejo por essa reunião era antigo e vai ao encontro de uma tendência recente da dupla em colaborar com outros artistas – como os shows com MPB4, Nenhum de Nós, a reunião do Almôndegas e o projeto da família.
— Já fizemos o Casa Ramil, mas agora é diferente — explica Vitor. — Kleiton e Kledir têm uma intimidade monstra, de anos trabalhando juntos. Eu me criei vendo eles. Eu tinha 10 anos, e o Almôndegas já estava sendo gestado. Aprendi um monte de coisas com os dois.
Por sua vez, Kleiton sublinha:
— Vitor também trouxe para a gente uma quantidade considerável de informações artísticas e estéticas.
Vitor acrescenta que, basicamente, aprendeu violão com Kleiton. Aliás, nos ensaios, ele percebe que puxou do irmão mais velho muita coisa que aplica em suas músicas – na maneira de tocar, por exemplo. Já de Kledir, Vitor destaca que aprendeu a escolher as palavras, já que ele sempre teve um olhar mais crítico para as letras.
No palco, não haverá músicos de apoio — somente o trio, com violão, viola ou violino. Kledir frisa que o formato acústico vai ao encontro de sua essência, desde os tempos dos Almôndegas.
— Ao mesmo tempo, é revisitar a sonoridade dos anos 1970. Mas é um revisitar em uma oitava acima, porque hoje em dia temos equipamentos muito melhores (risos) — brinca.
Kleiton completa:
— Ninguém vai escutar as nossas músicas como eram. Esse é o barato. Para nós, é dar um passo adiante, subir num palco com uma coisa nova. Vai ouvir um Deu Pra Ti ou O Deixando Pago próximas do original, mas em uma onda nossa.
No show, os repertórios da dupla e do caçula serão entrelaçados. Kledir resume que a escolha das canções se deu com base no que cada um aprecia na discografia do outro. Também haverá fragmentos de Beatles, que surgirão em meio às músicas ou em um cover mantido em sigilo. Aliás, o quarteto de Liverpool era bastante presente na casa dos Ramil.
Uma família musical

O trio cresceu em um lar tomado pela música. Eram seis irmãos – além deles, Branca, Cátia e Kléber, que morreu em 2019 –, filhos do casal Kleber e Dalva. Todos tocavam um instrumento, todos compunham, como recorda Vitor.
O músico ressalta que o Casa Ramil surgiu com o intuito de recuperar um ambiente musical no entorno da mãe, já com idade avançada (ela faleceu em 2024, aos 98 anos). Esses encontros aconteceram ao longo de dois ou três verões, no Laranjal, em Pelotas. Na sequência, a reunião familiar se transformou em espetáculo, reunindo diferentes gerações da família.
Enquanto os seis irmãos ainda dividiam o mesmo teto, o clima da casa era musical – e, por que não dizer, laboratorial. Por exemplo: se Kleiton visse Branca quietinha, logo a chamava para fazer uma voz.
— Ele ficava experimentando coisas e convocando quem passava — conta Vitor.
— Sempre gostei muito de fazer vocais e arranjos. Não sei o porquê disso, comecei na minha infância — diz Kleiton.
— Não seria de tanto ouvir Beatles? — questiona o irmão mais novo.
— Com certeza Beatles tinha — assegura o irmão mais velho.
— Naqueles anos não era só Beatles. Havia The Hollies, por exemplo — complementa Kledir.
Após serem aprovados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Kleiton e Kledir se mudaram para Porto Alegre com 18 e 17 anos, respectivamente. E foi na capital gaúcha que os dois formaram a banda Almôndegas. Nesse período, eles viveram com uma tia no apartamento localizado no bairro Rio Branco, o mesmo onde receberam a reportagem de Zero Hora.
Posteriormente, Kleiton e Kledir se mudaram para o Rio de Janeiro e se projetaram nacionalmente ao mesclar ritmos da música regional gaúcha com influências urbanas.
Por sua vez, Vitor se aprofundou com a milonga, entre outras fusões. Entre um mate e outro, ele reflete:
— Ainda fico surpreso quando alguém me diz: “Ah, teu som é muito diferente dos teus irmãos”. Eu ouço isso a vida inteira. “Teu som é mais sério!”.
— E ele é o mais palhaço da família (risos) — alfineta Kleiton.
— Quando a gente se junta e começa a tocar, me dou conta que tem tudo muito a ver. Posso dizer que sou cria dos dois, da casa e tudo mais.
KLEITON, KLEDIR E VITOR RAMIL
- Quando: sexta-feira (11)
- Horário: 21h
- Onde: Auditório Araújo Vianna (Avenida Osvaldo Aranha, 685).
- Abertura da casa: 19h30min.
- Classificação: 16 anos.
- Ingressos: a partir de R$ 100 (solidário, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível). Desconto de 50% para sócio do Clube do Assinante.
- Ponto de venda com taxa: pela plataforma da Sympla.
- Pontos sem taxa: Loja Planeta Surf Bourbon Wallig (Avenida Assis Brasil, 2.611), das 10h às 22h, somente em dinheiro; bilheteria do Araújo, somente duas horas antes do início do show.



