
Nascido em Brasília, mas radicado em Porto Alegre, o grupo de percussão Três Marias celebra seus 10 anos de trajetória na música popular com show neste domingo (10), às 20h, na sede do Afro-Sul Odomodê. A festa marca também o lançamento de Não se Cala, o primeiro disco do conjunto formado pelas musicistas Dessa Ferreira, Gutcha Ramil, Pâmela Amaro, Tamiris Duarte e Thayan Martins — que são cinco, apesar do nome.
— As pessoas sempre nos perguntam isso — diverte-se Gutcha.
Ela é uma das fundadoras das Três Marias ao lado de Dessa Ferreira e Kika Brandão, que deixou a banda quando as companheiras se mudaram de Brasília para Porto Alegre, mas segue contribuindo esporadicamente com o grupo. A entrada de Pâmela Amaro, Tamiris Duarte e Thayan Martins ocorreu já na capital gaúcha, em meados de 2015.
Assim, as Marias viraram cinco. Nunca foi um problema, já que o nome do grupo remete ao conjunto de estrelas homônimas, conforme explica Gutcha.
— Três Marias integram uma constelação. Tem dias que a gente vê mais estrelas, tem dias que vemos menos, mas elas estão todas ali. Nós somos assim (risos). E apesar de sermos cinco, na prática, somos até mais, pois estamos sempre agregando pessoas.
Não se Cala é uma boa prova disso. O álbum chegou às plataformas nesta sexta-feira (8), recheado com 19 faixas construídas todas a muitas mãos. A começar pelas 444 pessoas que contribuíram com o financiamento coletivo que possibilitou a produção, até o extenso número de músicos que participaram das gravações — Ìdòwú Akínrúlí (Nigéria), Loua Pacom Oulai (Costa do Marfim), Kika Brandão, José Leonidas, Nina Fola, Jane Oliveira, Inajara Ramos, Magnólia do Mato, Diih Neques, Neuro Junior, Tomás Piccinini, John Conceição, Paola Kirst, Clarissa Ferreira e Stefania Colombo.
Nomes fundamentais do tambor e da cultura popular também estão presentes no álbum, que traz parcerias com os mestres Tião Carvalho (MA/SP), Mamau de Castro (RS) e Adiel Luna (PE), além de composições da mestra Martinha do Coco (PE/DF) e do mestre Paraquedas (RS). É uma forma de reverenciar o legado daqueles que as Marias têm como referências.
No escopo das sonoridades, o disco traz a pluralidade que já virou marca registrada do grupo, conhecido por incorporar uma variedade ímpar de ritmos e instrumentos da música popular, da conga à rabeca. Há faixas de samba de coco, samba de roda, bumba meu boi, forró, xote, jongo, ijexá, ladainha de capoeira e cântico iorubá, entre outros gêneros.
As letras abordam temas como ancestralidade, memória, a importância da percussão e dos mestres da cultura popular, feminismo, fé, amor, culto aos orixás e relação com a natureza, entre outros. O título Não se Cala faz referência à última canção do disco, que funciona como um grande manifesto contra os diferentes tipos de silenciamentos que atravessam a trajetória das Marias.
— São dois silenciamentos principais que a gente enfrenta: como mulheres musicistas e como artistas do tambor e da cultura popular — afirma Pâmela. — Quando falamos em não se calar, é como um grito por ser mulher, por ser preta, por ser LGBT, por ser percussionista... Enfrentamos muito preconceito, mas acho que a melhor parte de nós é que nunca deixamos ninguém largar o instrumento — reflete.
— Percebo que o disco traz o manifesto do incômodo, mas também o manifesto da alegria. As músicas são pontiagudas, mas são alegres — completa Gutcha. — Essa é a nossa forma de nos manifestar, algo que tem muito a ver com a própria cultura popular e com o modo como os mestres populares nos ensinam a levar a vida — explica.
Tais ensinamentos ajudaram as artistas a lidar com a frustração que também fez parte do processo de construção de Não se Cala. Isso porque o disco foi gravado na intenção de marcar os cinco anos do grupo, com previsão de lançamento para o final de 2019, mas enfrentou uma série de percalços pelo caminho. Entre eles, estava a pandemia de covid-19, que acabou por adiar o projeto em cinco anos.
A entrega das recompensas prometidas a quem contribuiu com o financiamento coletivo do álbum, por motivos óbvios, também precisou ser adiada. Está ocorrendo somente agora, aos poucos, contando com a compreensão de quem acredita no trabalho feito pelo grupo.
— As pessoas que nos acompanham estão muito felizes por estarmos conseguindo lançar o disco — conta Thayan. — Às vezes, a gente encontra alguém e tenta se justificar, pede desculpa por não ter conseguido entregar todas as recompensas ainda, e as pessoas só nos dizem: "Gurias, tá tudo bem, eu só quero curtir o show de vocês". Não tem Totobola e Mega-Sena que me deixe mais feliz do que isso (risos) — brinca a artista.
Com Não se Cala recém lançado às águas do mundo, as Marias planejam realizar mais shows e viajar com o trabalho. Mas o futuro ainda é incerto, pois o grupo enfrenta dificuldades quando o assunto é financiamento.
— Estamos sempre nos inscrevendo em editais, mas não tem sido algo muito fácil — relata Tamiris Duarte. — Por onde a gente vai, as pessoas sempre ficam encantadas com o nosso trabalho, elogiam, dizem que é algo mágico, que somos muito boas. E eu concordo (risos). Por isso que nos intriga o fato de enfrentarmos uma dificuldade grande de aprovar os nossos projetos — lamenta.
Independentemente de qual será o próximo passo do Três Marias, uma coisa é certa: sempre que houver silenciamento, Dessa Ferreira, Gutcha Ramil, Pâmela Amaro, Tamiris Duarte e Thayan Martins continuarão se recusando a se calar.
Lançamento do disco "Não se Cala", com Três Marias
- Neste domingo (10), às 20h, no Afro-Sul Odomodê (Av. Ipiranga, 3.850), em Porto Alegre
- Ingressos inteiros a R$ 40, disponíveis na plataforma Sympla
- Há diferentes modalidades de desconto para negros-indígenas, idosos, professores, estudantes e apoiadores do financiamento coletivo, e isenção para pessoas trans




