
A cantora e atriz franco-britânica Jane Birkin, que se tornou um ícone de estilo, morreu aos 76 anos, informou neste domingo (16) uma fonte próxima à família. A artista, que foi parceira musical e romântica do cantor francês Serge Gainsbourg, enfrentou problemas de saúde recentemente e foi obrigada a cancelar vários shows.
Em fevereiro, Jane Birkin participou em estado muito frágil da cerimônia do César, a premiação anual do cinema francês, ao lado da filha Charlotte Gainsbourg, também atriz e cantora, e da neta Alice.
De silhueta andrógina e beleza adolescente, Jane encarnou como poucas o estilo entre boêmio e chique, que anos depois seria herdado por sua filha, Charlotte, uma das principais atrizes do cinema francês. Ela inspirou uma bolsa emblemática da marca Hermès, a Birkin, uma peça de alta moda comprada como investimento, pois tende a valorizar ao longo dos anos.
Filha do renomado oficial da Marinha Real e espião durante a Segunda Guerra Mundial, David Birkin, e da atriz Judy Campbell, Jane Birkin nasceu em 14 de dezembro de 1946 em Londres, no Reino Unido. Naturalizada francesa, Jane ganhou fama na década de 1960, quando a relação cultural entre franceses e ingleses estava em um período particularmente fértil. O público francês a adorava por sua sensibilidade e seu peculiar sotaque britânico, que a artista nunca perdeu. Ela era a inglesa favorita dos franceses.
— Quando vejo os franceses ouvindo músicas de 40 anos atrás, sei que elas passaram a fazer parte da sua história. E eles também fazem parte da minha — explicou a artista em 2018, quando publicou as memórias Munkey Diaries.
A artista também ganhou destaque pela sua turbulenta relação com o lendário músico, compositor, intérprete e poeta Serge Gainsbourg. O relacionamento com o artista, que ela conheceu durante a produção de um filme em 1968, mudou sua carreira. Ao lado do francês, Jane formou um casal mítico em Paris na década de 1970, com momentos de paixão, glamour e escândalos.
A britânica iniciou a carreira artística no cinema. Nas telonas, Jane atuou em Blow Up, longa de Michelangelo Antonioni premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1967, e em A Piscina (1969), de Jacques Deray, com Romy Schneider e Alain Delon. JA atriz participou de quase 70 filmes durante a carreira, com cineastas como Jacques Rivette, Bertrand Tavernier, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, James Ivory e Agnès Varda. Em Blow Up, ela provocou um escândalo por aparecer nua.
Em 1969, Jane gravou Je T'aime Moi Non Plus, canção que foi sucesso mundial e provocou mais escândalo por seus sussurros e gemidos. Serge Gainsbourg escreveu a música pensando em Brigitte Bardot, com quem teve um romance turbulento. Brigitte proibiu a versão inicial da canção, com sua voz, e a decisão abriu portas para que Jane entrasse para a história.
Gainsbourg enfrentava problemas com o alcoolismo e era violento em várias ocasiões, o que fez com que Jane se separasse dele em 1980. A atriz reconstruiu a vida com o cineasta Jacques Doillon, com quem foi casada por 13 anos. Apesar do distanciamento, ela seguiu colaborando com o ex-parceiro. Gainsbourg escreveu Baby Alone in Babylone para ela e o álbum foi disco de ouro na França em 1983.
Em 2008, Jane lançou o primeiro álbum com canções de sua própria autoria, Enfants d'hiver. Mas o sucesso permaneceu irremediavelmente ligado a Gainsbourg, como demonstraram a turnê Arabesque e o álbum de mesmo nome, de 2002.
Repercussão
Após a notícia do falecimento de Jane Birkin, muitos fãs, artistas e figuras importantes na França se manifestaram lamentando a perda da artista.
"Inimaginável viver em um mundo sem a tua luz", escreveu no Instagram o cantor Étienne Daho, um de seus amigos mais próximos, coautor de Oh! Pardon tu dormais..., canção e título de um álbum lançado em 2020.
O presidente francês, Emmanuel Macron, prestou homenagem a quem ele chamou de uma "artista completa". "Por encarnar a liberdade, por cantar as mais belas palavras da nossa língua, Jane Birkin foi um ícone francês. Uma artista completa, sua voz era tão doce quanto seus compromissos eram ardentes. Ela nos deixa melodias e imagens que nunca nos abandonarão", escreveu Macron em suas redes sociais.
Jane Birkin era oficial da Ordem do Império Britânico. Na França, era comendadora da Ordem das Artes e Letras. Ela recusou a Legião de Honra em 1989, por considerar que "apenas os heróis" são merecedores de tal honraria.
A recusa foi uma forma de homenagear a memória do pai, que transportou integrantes da resistência do Reino Unido para a França durante a Guerra. Ele faleceu em 1991, no dia do funeral de Serge Gainsbourg.


