
O que fazer quando a melhor notícia da sua vida chega quase junto ao pior momento? Quando publicou Notas Sobre a Impermanência, em 2021, a escritora Paula Gicovate descobriu que sua mãe tinha uma doença terminal. Alguns anos após a morte dela, a autora acaba de lançar Como Navegar o Abismo, ficção que aborda seu tema favorito, o amor, mas também viaja por águas desafiadoras como luto, família, afeto, responsabilidade de cuidado com idosos e até gastronomia. De antemão, esclarece: esse não é um livro de autoajuda:
— Brinco que é um antimanual de navegação, embora tenha algumas listas e um manual de boas práticas do luto.
Na obra, Nara, uma chefe de cozinha em ascensão, desaba após perder a mãe de forma quase súbita para o câncer. Sentimentos de culpa se misturam com uma espécie de torpor emocional e perda do apetite pela vida. Como em Notas, Paula gera reflexões a partir de um texto sincero, sem julgamentos, delicado, às vezes engraçado, às vezes dolorido, mas de fácil absorção. Ela não tem a pretensão de ensinar a navegar o abismo, mas é fácil encontrar, nas histórias de Nara, experiências que nos são familiares. Confira a entrevista exclusiva.
Você é conhecida por ser uma escritora “setorista” de amor. Quais os resultados das investigações sobre o tema nas tuas obras?
Escrever é uma forma de entender o mundo, e sempre fui muito fascinada pelo amor. É engraçado porque as pessoas me perguntam desde quando escrevo. Depois que a minha mãe morreu (em 2022), meus avós também morreram. E nesse processo de voltar pra casa da infância, achei histórias que escrevia. Numa delas, citava que família é algo muito complicado. De alguma forma, continuo escrevendo sobre amor e família até hoje. E o que descobri sobre amor nessas minhas investigações é que ele não dá conta de tudo, nem tudo se justifica por amor. Porque a gente ama, o amor é tudo e, ao mesmo tempo, não é. E desejo é um bicho independente. Isso veio muito com Notas sobre a Impermanência.
Notas vai virar filme?
É a ideia, sim. Estou adaptando o roteiro, escrevendo com um roteirista português. Em vez de Barcelona, a história vai se passar em Lisboa. Mas é aquela coisa do audiovisual. Entre dois e 20 anos alguma coisa pode acontecer. A única previsão que temos é de começar a rodar ano que vem.
Em que contexto surgiu Como Navegar o Abismo, já que você perdeu a sua mãe, assim como a personagem do livro?
É engraçado porque a minha mãe passa pelos dois livros. Quando o Notas foi lançado, em 2021, eu sabia do diagnóstico da doença dela havia um mês (câncer de pâncreas). Então, tinha muito essa questão: como comemoro a melhor notícia da minha vida no pior momento da minha vida? E me ajudou a navegar um pouco esse período. Esse novo livro só existe porque perdi a minha mãe.
Você precisava escrever?
Sim. Embora seja um livro de ficção, é a única história que conseguia e queria contar no momento. Poderia não ser ficção, podia ser autoficção, mas queria falar de temas que tinha descoberto a partir da morte dela. Que não necessariamente tinha vivido, como, por exemplo, por que recai sobre a mulher a obrigação do cuidado. Mas principalmente... Eu era uma criança muito amada. Minha mãe era incrível, realmente a minha melhor amiga. Mas quando morreu, comecei a conversar com as pessoas sobre ela, e descobri que nem toda mãe é incrível. O sangue não obriga o amor. E ter essa ficha assim caindo foi tão forte que pensei: vou escrever sobre uma mãe incrível, que eu tive, mas nesse livro também vai ter uma mãe que não é incrível.
Esses dias li uma frase do Fabrício Carpinejar que dizia: “Luto é o amor que não tem pra onde ir”. A Nara, personagem do teu livro, lida muito com essa questão, não?
Eu tinha um certo pudor em dizer: é um livro sobre luto. O que me interessava nesse livro era falar sobre a vida que continua, às vezes compulsoriamente, mesmo que a pessoa queira paralisar, porque é uma dor muito avassaladora. A minha mãe morreu e, no dia seguinte, tive de pagar aluguel. Chorei tanto que tive sinusite, tive de ir ao médico, fiquei com raiva. Tem uma vida que continua, e a Nara fala disso: é a maior bênção e a maior loucura da vida. O luto é uma forma da gente tentar organizar o amor que fica. E você tem de dar conta desse amor, da ausência.
Mas essa não é uma obra com dicas sobre luto, certo?
Eu brinco que é um antimanual de navegação, embora o livro tenha algumas listas. Tem um manual de boas práticas do luto. Que aí, de fato, é uma dica do que fazer com uma pessoa enlutada, do ponto de vista de quem está de luto. Coisas como: não espere nenhuma coerência, tente alimentar quem ficou, tente ligar depois de uns meses. O título Como Navegar o Abismo veio quando a minha mãe estava doente. Eu ficava entre o Rio de Janeiro e Campos (dos Goytacazes), minha cidade natal, e são quatro horas de estrada, às vezes cinco. Durante a minha vida toda, essa distância incomodou. Quando a minha mãe ficou doente, comecei a apreciar essa distância, de querer ficar nessa viagem, e a viagem, por causa disso, durava menos. Eu não estava nem no Rio, onde não conseguia levar a vida normal (pela distância da mãe doente), e também não estava com ela na doença. Na estrada, não tem câncer. Aquele momento era muito bom porque eu escrevia sobre o que estava vivendo, o que estava sentindo. E comecei a chamar de diários do câncer. Escrevia sem a menor pretensão de publicar algo. Era só pra conseguir sobreviver. Dois anos depois, peguei esse bloco de notas, mandei pro meu computador e fui ler. Nas últimas páginas, achei uma pergunta, como você navega um abismo? Dali tiro o título, só que não mais como uma pergunta.
Por que achas que surgiu a pergunta?
Naquele momento, demorei a entender que a minha mãe ia morrer. Entrei numa positividade tóxica muito maluca do tipo: vai se curar, imagina. E, claro, nunca teve o que fazer. Quando escrevi essa pergunta, acho que, de alguma forma, estava começando a entender que eu ia ter de navegar um abismo. Engraçado que quando falo da ficção no livro, fiz um movimento oposto ao da Nara, que não conseguia sair da cidade natal dela. Eu não conseguia ir pra Campos.
Sobre as listas. Por que o livro tem essas reflexões?
Sempre quis colocar listas. Era também uma forma de garantir que o leitor teria um respiro no meio daquele relato que, às vezes, é muito dolorido. Pensei em quebrar a tristeza com as listas. Que são a Nara pensando nos absurdos que está vivendo. É como se fosse a consciência da Nara.
A questão do cuidado de saúde de um parente mais velho geralmente recair sobre a filha mulher é abordada no livro. Qual foi a intenção?
Eu não tive uma avó como a da Nara, que no livro se chama Júlia, personagem muito dura. Mas vi isso acontecer na casa de muitas pessoas. E de ser algo zero questionado. Acontece com as famílias de forma tão automática que ninguém questiona por que a filha mulher assume os cuidados. E a cuidadora primordial dos mais velhos cada vez tem menos vida, porque gira em torno daquele cuidado. E, às vezes, as pessoas têm relações complexas com quem elas cuidam. Nem sempre é uma relação garantida pelo amor, e sim pela culpa ou obrigação. Mesmo que não tenha vivido isso, quis trabalhar esse tema porque acho que é muito comum. E mesmo quando não é a filha mulher, quando é um cara, geralmente não são vários. Sempre alguém assume isso sozinho.
Quais impressões os leitores têm levado nos lançamentos do livro?
O livro é um bebê, fez dois meses há pouco. Acabou de chegar a segunda edição, o que para mim é incrível. Tudo na literatura eu encaro como um milagre. Estar numa segunda edição tão rápido acho que tem a ver com o que estou ouvindo dos leitores. Acho que consegui falar sobre morte, vida, luto e cuidado de uma forma que as pessoas estão se identificando. Uma leitora escreveu que consegui dizer o que ela sentiu quando a mãe dela morreu, mas que não conseguia falar. Acho que até isso devo à minha mãe, que sempre foi militante de que a gente falasse sobre os nossos sentimentos. Ela era uma assistente social, passou a vida ouvindo os outros e não tinha nenhum assunto proibido. E a minha forma de escrita é muito direta. Meu coração está no meu punho, o leitor não demora para me achar. Falo de desejo, de tesão, de vida, de morte, de culpa no luto. Quando a Nara narra a morte da mãe, fala que sentiu uma paz na hora. Pra mim era importante que o leitor soubesse que, sim, às vezes, quando morre alguém que você ama muito e estava sofrendo, a primeira coisa que você sente não é saudade, é alívio. Isso é muito louco de sentir, mas faz parte desse bolo do luto.
Há livros, séries ou filmes que abordam o luto e te influenciaram?
Quando eu estou escrevendo sobre um tema, não leio nada que tenha a ver com aquilo para não contaminar o que estou escrevendo. Tinha um livro da Rosa Montero, uma autora que amo, que foi lançado bem na época que eu estava começando a escrever, e falei, cara, em qualquer outro momento correria pra ler. Mas, agora não. Mas da minha vida de leitora, há livros que gostei muito sobre luto. O próprio O Ano do Pensamento Mágico, da Joan Didion, assim que a minha mãe morreu, peguei pra reler, quando comecei a fazer parte do “Clube de Merda da Perda”. Tem também o Lili: Novela de um Luto, da Noemi Jaffe. Agora, posso falar algo que nunca falei com ninguém?
Claro, por favor.
Sabe uma coisa que eu queria ter botado no livro e não botei? Esqueci disso no processo, mas você perguntou sobre filmes e séries e também sou roteirista. E vejo muitas de adolescentes, dessas coming of age (amadurecimento), que as personagens não têm mãe. E para uma série, isso dá uma camada de força para a personagem. Uma das listas que queria ter colocado no livro era com filmes e séries com personagens que não têm mãe. E que são consideradas, de alguma forma, duronas ou a perda da mãe dá uma carga pra personagem. Uma vez contabilizei umas 10 só na Netflix. Quando você pega uma série coming of age, de meninas ficando adultas, se tem morte, 80% é a mãe que morreu. Essa lista eu queria ter feito.
Outro tema forte no livro é gastronomia. Por quê?
Eu sempre quis escrever um personagem chefe de cozinha. Quando comecei a pensar nesse livro, vi que tinha de ser nele. Porque queria fazer o contraste de uma personagem no auge da carreira e recebe a pior notícia da vida. Que é um pouco do que vivi durante o Notas Sobre a Impermanência. Não era o auge da minha carreira, mas era um momento incrível e tive de lidar com aquilo (doença terminal da mãe). A Nara tá ali com um prêmio na mão quando a mãe dela liga pra contar da doença. E a comida pra mim tem muito a ver com libido, amor e afeto. Porque muitas coisas acontecem ao redor da mesa, né.
A minha família sempre almoçou domingo na casa da minha avó, os natais eram pra 30 pessoas, a comida sempre teve papel central. Venho de uma cidade natal onde os doces de ovos são muito famosos. O chuvisco tá no livro como homenagem a Campos, que é a minha cidade. A minha mãe não cozinhava, mas a minha avó, sim. A minha família sempre teve livro de receita. Eu cozinho, não incrivelmente bem, mas moro sozinha, então cozinho todo dia. Minha irmã também cozinha. Acabei de fazer um podcast com a Fernanda Lima sobre isso (Zen Vergonha, nas plataformas de streaming). E eu queria algo simbólico que a Nara parasse de fazer no momento em que a mãe dela morre. E parar de cozinhar era muito concreto.
Sobre o futuro. Já estás trabalhando em um próximo livro?
Já estou. Sou de processos muito longos. De um livro para o outro foram quase 5 anos. Mas agora, não. Já estou escrevendo, já foi discutido com a minha editora, tem até título. Estou escrevendo sobre o medo do amor, da mudança que o amor traz, da falta de coragem para ter a vida transformada pelo amor. Só não consigo contar muito porque estou começando a tatear esse bicho. Mas não vai demorar quatro anos.
Como roteirista, que trabalhos você teve recentemente?
Continuo trabalhando para cinema, TV. Estou com uma série no ar, na Globoplay, que chama Juntas e Separadas. Fui uma das roteiristas nessa série da Thalita Rebouças, sobre o amor depois de separação de mulheres 40+. Uma série de ficção e foi muito gostoso fazer.
Você já esteve em Porto Alegre, há alguma previsão de lançamento do livro aqui no Rio Grande do Sul?
Eu ia amar fazer algo em Porto Alegre. Amo a cidade. Fui uma vez, escrevi o Estrelas, um programa da Angélica, e a gente teve uma temporada aí e fiquei 10 dias pra fazer pesquisa, mas nunca mais voltei. Até tenho uma tia querida que mora aí. Tenho grandes amigos também. O Cardoso, do CardosOnline, um zine que ele fazia com Daniel Galera, Daniel Pelizzari, enfim, tem o Michel Laub, uma geração de escritores aí. Mas ia amar lançar em Porto Alegre.

"Como Navegar o Abismo", de Paula Gicovate
- Record, 208 páginas
- R$ 59,19 (livro físico) e R$ 39,90 (e-book)


