A escritora, antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima, 70 anos, foi anunciada patrona da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. A escolha foi divulgada pela Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) na manhã desta terça-feira (4).
Heloisa é a primeira mulher negra a ocupar o posto e, em mais de 70 edições, a 10ª mulher. É também a segunda pessoa negra patrona do evento — Jeferson Tenório, em 2020, foi o primeiro.
A edição deste ano da Feira ocorre de 30 de outubro a 15 de novembro na Praça da Alfândega, no Centro Histórico.
Natural de Porto Alegre, Heloisa mudou-se para São Paulo aos 9 anos, onde reside até hoje. Tem graduação em Ciências Sociais, mestrado em Antropologia e doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).
Ela contabiliza quase 30 obras publicadas e parte considerável de seu trabalho é voltada ao público infantojuvenil, com foco em personagens negros. Seu primeiro livro com maior repercussão foi Histórias de Preta, de 1998.
Em entrevista a Zero Hora, patrona falou sobre a homenagem e a Feira. Leia a seguir.

Confira a entrevista com Heloisa Pires Lima
Como é retornar a Porto Alegre como patrona da Feira do Livro?
Nossa, você não tem ideia da felicidade e da responsabilidade. Eu tenho uma história aqui no Sul, apesar de eu ter saído criança, mas tenho família aqui. Há essa ancestralidade que parte mais de mim e é de uma importância absurda, mas ela é menor quando a gente pensa na população negra do Sul. Essa representatividade é importante, passa pelos livros e pelos acervos.
Qual é a sua relação com a Feira do Livro de Porto Alegre?
Tenho vindo há muitos anos, mas a relação principal é que nós nascemos no mesmo ano (1955). Eu até brinco que a Feira é minha colega de maternidade (risos). Tenho acompanhado feiras pelo Brasil e acho que tem algo que as outras poderiam aprender com a de Porto Alegre: você faz o trabalho durante o semestre todo. Isso é muito importante pensando na área educacional e precisa de incentivo. Temos agora esse desafio de que essa nova geração volte a ler e a escrever, mas a chave disso é a vivência.
Em 1998, quando publiquei 'Histórias da Preta', uma personagem sai da periferia e ocupa o centro da capa, simbolicamente.
HELOISA PIRES LIMA
Patrona da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre
No começo de sua trajetória, você constatou a ausência de personagens negros construtivos, que auxiliassem o leitor a desejar o modelo de humanidade negra. Como foi isso?
Eu sempre me perguntava: a literatura é uma janela para o mundo, agora está faltando um mundo aí. Não havia essa referência. Apesar de termos origem no continente africano, desconhecíamos (esse mundo). Hoje é bem mais difundido. E a literatura é importante por isso, porque abre uma janela para lá.
Nesse sentido, você percebe uma mudança consistente no mercado editorial?
Há uma mudança, sem dúvida, a tecnologia se transformou. Era quase impossível publicar um primeiro livro há 40 anos sem uma editora envolvida. Hoje você pode ser a sua própria editora. Em 1998, quando publiquei Histórias da Preta, uma personagem sai da periferia e ocupa o centro da capa, simbolicamente. Uma menina que tem várias vivências diferentes. Na época, você não tinha uma personagem assim construída com foco na vivência histórica. Geralmente, ela era confundida com só a cor.



