O Rei de Havana, do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, não é um livro sobre política.
A obra é resultado de afiada observação da saga pela sobrevivência de um povo em um dos momentos mais difíceis de sua história, quando Cuba enfrentava, nos anos 1990, o impacto da debacle da União Soviética e do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos.
Não bastasse a agrura conjuntural, o protagonista da contagiante história cai em desamparo após uma tragédia familiar. O episódio é sucedido por uma espiral de degeneração do indivíduo, em que os esquecidos e desgraçados abrem mão de qualquer moral para sobreviver ao minuto seguinte.
Esculpido com palavras rudes acerca do imaginário cubano, O Rei de Havana certamente contém sexo, rum, festas, pancadarias, religiosidade, crendices e empregos que ninguém mais quer.
A linguagem simples e a narrativa envolvente, permeadas por expressões lascivas e até ferozes, são garantia de algumas risadas para quem admite esse tipo de texto, até mesmo nos momentos dramáticos do protagonista e das pessoas que o cercam na narrativa.
Menos no final. O desfecho é brutal, atordoante e solitário. Li e reli as últimas páginas sucessivamente antes de fechar o livro pela derradeira vez. Um dia voltarei a O Rei de Havana. O que é bom deve ser desfrutado de novo e de novo.
Toda semana, um jornalista do Grupo RBS irá compartilhar na seção O que Estou Lendo a sua paixão por livros por meio de dicas do que estão lendo no momento.

"O Rei de Havana", de Pedro Juan Gutiérrez
- Alfaguara, 184 páginas, R$ 77,90 (livro físico) e R$ 39,90 (e-book)
- Tradução de José Rubens Siqueira


