Uma mulher grávida é presa e torturada pela ditadura militar no fim da década de 1960, em Niterói, no Rio de Janeiro. Enquanto agentes do regime procuram o marido, um deputado acusado de ser comunista, ela vê a vida ser atravessada pela violência e passa a conviver com o medo de nunca conhecer a filha que espera.
É daí que parte o livro No Muro da Nossa Casa, da professora e escritora Ana Kiffer, publicado em 2024 pela editora Bazar do Tempo e um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2025 na categoria melhor romance.
A obra, do gênero autoficção, mistura ficção com elementos da vida pessoal da autora e fragmentos históricos dos anos de chumbo. Assim como no aclamado Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, a narrativa revisita marcas da repressão não apenas na esfera pública, mas no lugar mais íntimo: dentro da própria casa.
O drama geracional é construído por diálogos entre Cléa, a mulher grávida que foi presa, e a filha Ana, que nasceu e cresceu apesar da violência sofrida pela mãe na gestação. Décadas depois do regime, Ana tenta reconstruir a história da família para compreender a si mesma.
O estopim dessa busca é a descoberta de uma pichação feita anos antes no muro de casa: "Aqui mora um bandido comunista". Apesar de já apagada, a frase simboliza o estigma enfrentado pela família, que busca esquecer o passado.
O diálogo, por vezes, é marcado pelo impasse entre enterrar o passado para não revitimizar e relembrar para entender o presente.
Apesar de enxuto, com menos de cem páginas, o livro é denso e faz refletir sobre memória, os muros que são erguidos na sociedade e o preço do silêncio.
Toda semana, um jornalista do Grupo RBS irá compartilhar na seção O que Estou Lendo a sua paixão por livros por meio de dicas do que estão lendo no momento.

"No Muro da Nossa Casa", de Ana Kiffer
- Bazar do Tempo, 98 páginas, R$ 69,90 (livro físico) ou R$ 51 (e-book)



