Está no ímã colado na geladeira, na caneca com poema, nos livros, nas fotos emolduradas e em uma preciosa caixa com recordações. Está na pele, no braço direito, onde tatuou a assinatura. Até no nome da gata, Quin. O apartamento de Sandra Ritzel, na zona sul de Porto Alegre, transborda lembranças de Mario Quintana (1906-1994).
— Ele é o meu cotidiano — suspira a servidora pública de 55 anos.
Nesta quinta-feira (30), completam-se 120 anos de nascimento de Quintana, um dos principais nomes da poesia do século 20 no Brasil. Seus anos derradeiros foram ao lado de Sandra.
Ela trabalhou para o poeta de março de 1986 a junho de 1991. Era registrada como secretária, mas atuava mais como cuidadora ou mesmo uma companhia. Foi a única pessoa que morou com o poeta na fase adulta.

Trabalho de escola com entrevistado ilustre
Tudo começou com um trabalho escolar. Sandra tinha então 14 anos e era estudante do colégio Rainha do Brasil, no bairro Santo Antônio. Ela recebeu uma tarefa que consistia em entrevistar alguém — podia ser um amigo, um parente, um vizinho. A jovem não se contentou com o óbvio: ambicionou falar com Mario Quintana.
Sandra conhecia o poeta da televisão. Tinha começado a ler a obra dele havia pouco tempo. Sabia que o escritor vivia naquela época no hoje extinto Hotel Royal, na Rua Marechal Floriano, e entrou em contato com o estabelecimento. A entrevista foi marcada por meio da recepção do hotel. Ela e uma colega chamada Tatiana foram ao encontro do poeta, munidas de gravador e uma caixa de bombons.
Ele nunca foi ligado a bens materiais, mas teve uma velhice confortável, com tudo de que precisava.
SANDRA RITZEL
Ex-assistente pessoal de Mario Quintana
Como é relatado em O Passarinho do Contra: Uma Biografia de Mario Quintana (editora Tordesilhas), de Gustavo Grandinetti, o poeta era receptivo com colegiais que o procuravam para pesquisas escolares. Sobre essas constantes visitas de estudantes que iam a seu hotel para fazer entrevistas, ele brincava: "Sou a falta de assunto predileta das professoras".
— Mario era muito fraterno com crianças e adolescentes. Sempre foi bem-humorado, brincalhão e afetuoso. Comigo, principalmente, ele foi fraternal desde o início — descreve Sandra. — Ele me disse: "Gostei das tuas perguntas, te achei inteligente, pode vir me visitar mais vezes".
De alguma forma, o poeta se afeiçoou a Sandra. Sugeriu que se encontrassem às quartas. Virou tradição entre os dois: a jovem levava um doce e recebia um livro de poemas em troca. Iam a cafés ou passeavam pela Rua dos Andradas, no Centro Histórico. Ele chegou a realizar palestra no colégio dela e a ajudava corrigindo as redações escolares.

Pela idade, Quintana não queria mais morar sozinho
Em março de 1986, a relação tornou-se profissional. Foi quando Quintana, aos 79 anos, mudou-se do Royal para o Porto Alegre Residence Hotel, na Avenida André da Rocha.
Segundo Sandra, por conta da idade avançada, ele não queria mais morar sozinho. O poeta teria, então, conversado com sua sobrinha-neta, Elena Quintana Oliveira, que administrava sua carreira, e convidado a estudante para essa ocupação.
Sandra recorda que sua família não se opôs que fosse morar com Quintana:
— Eu só tinha minha mãe, pois meu pai morreu logo depois que conheci o Mario. Como ela era uma pessoa super simples, entendeu que isso seria melhor para mim. Eu passava toda a semana com o poeta, mas ficava o domingo com a mãe.
Naquele momento, Quintana já tinha uma secretária, Mara Leite Garcia, que resolvia questões administrativas. Sandra atuava tanto como uma secretária de questões do dia a dia quanto uma companhia.
— Nem liquidificador ele sabia usar. Era totalmente avesso aos eletrodomésticos. Tanto que sempre morou em hotel ou em pensões na vida adulta. Nunca sentiu vontade de ter casa — lembra. — Nunca foi ligado a bens materiais, mas teve uma velhice confortável, com tudo de que precisava.

Ajuda para compras no supermercado
Sandra exemplifica que acompanhava o poeta quando precisava ir ao médico ou a algum compromisso, como almoços, jantares e eventos. Também o auxiliava em funções do dia a dia, como compras no supermercado e idas à lavanderia.
Serviu até de "intérprete" em entrevista, ditando ao poeta o que o repórter perguntava, pois a audição de Quintana estava prejudicada naquela altura da vida, já octogenário.
Sandra recorda que o primeiro apartamento em que os dois moraram, no oitavo andar do Porto Alegre Residence Hotel, não era grande: havia o quarto do poeta, cozinha, banheiro e uma sala, onde ela dormia no sofá, que tinha um colchão de solteiro acoplado.
Depois, mudaram-se para um apartamento no terceiro andar, mais perto do térreo. A motivação para a troca veio depois que o poeta sofreu uma convulsão e os paramédicos tiveram que descer oito andares de escada para levá-lo do apartamento anterior à ambulância, já que a maca não cabia no elevador.

Fã de Greta Garbo, estrela dos anos 1920 e 30
Sandra estudava pela manhã e costumava retornar para o almoço. Antes de partir, ela solicitava o café da manhã, que vinha em uma bandeja para Quintana. A jovem dava os remédios matinais, e ele voltava a dormir.
Ela destaca que Quintana não seguia os horários convencionais para refeições: comia quando tinha fome. Havia uma preferência por canja. Caso alguém o aconselhasse variar, Quintana respondia, bem-humorado, que "os cachorros comem sempre a mesma ração".
À tarde, o poeta descansava mais um pouco. Quando desperto, escrevia. Se houvesse disposição, Sandra o levava para passear.
Ele tinha uma energia super boa, mesmo doentinho. Havia uma vontade de viver, uma curiosidade impressionante.
SANDRA RITZEL
Ex-assistente pessoal de Mario Quintana
A noite era o momento de conversas e leituras. Ou de assistir à TV no mudo, apenas observando as imagens.
— Ele só olhava a televisão, porque não escutava e não queria volume — relata. — Quintana gostava muito da Greta Garbo, então eu via aqueles filmes antigos com ele, sem som. Às vezes, era uma da manhã, eu já estava caindo de sono, e ele me sacudia: "Acorda! Olha a Greta, A Rainha Cristina (filme de 1933 estrelado pela atriz)".

Mural com fotos de amigos
Muitas vezes, à noite, o poeta ditava versos para Sandra escrever:
— Ele me ditava até a vírgula, e eu anotava com a prancheta. No dia seguinte, ele revisava e refazia com a letrinha dele. Seguia trabalhando no poema até avaliar que estava bom.
Em alguns momentos, Quintana perguntava o que Sandra achava do poema.
— Como é que não ia gostar? Era genial — enfatiza. — Eu não precisava ser muito adulta, e ele não precisava ser infantil. Tínhamos uma comunicação normal, que fluía.
Ela menciona que também costumava ler originais que jovens autores enviavam ao poeta.
— Eu fazia uma triagem e só passava para ele o que eu gostava e achava que era bom. Era uma espécie de filtro.
Quintana vivia de pijama, como recorda Sandra. Só colocava camisa e terno quando precisava receber alguém. Ela frisa que o poeta era mais recluso àquela altura da vida. Porém, mantinha um mural com fotografias de amigos que o visitavam.
Dos mais frequentes, Sandra cita o escritor Sergio Faraco, a fotógrafa Dulce Helfer, a professora Vera Fedrizzi e a jornalista Liana Milanez, entre outros. Ela também conheceu visitantes ilustres de fama nacional, como Edson Celulari e Caetano Veloso.

Quintana encarava o fim da vida com serenidade
Sandra conta que, nos últimos anos, a saúde de Quintana se deteriorou. Às vezes, ficava internado em hospital por cerca de um mês. Passou a ser assistido por técnicas em enfermagem no hotel. Sandra, então, parou de trabalhar com ele. O poeta mesmo desejava que a jovem seguisse em frente.
Ela atesta que a possível partida dele não era algo em que pensasse: toda vez que era internado, Sandra acreditava em uma rápida melhora. Não foram poucas as vezes em que ela dormiu no hospital para acompanhá-lo.
O poeta, por sua vez, tratava a finitude com serenidade. Quando Carlos Drummond de Andrade morreu, em 1987, ela desligou a televisão para Quintana não ficar sabendo. Temia que isso o abalasse. Mais tarde, Sandra deu a notícia, explicando por que havia tomado aquele cuidado. O poeta respondeu apenas que "quem está próximo da morte não tem medo".
Quando ficava internado, Quintana fazia amizade com os outros pacientes nos corredores. Chegou a receber convite de casamento de uma paciente que conheceu no hospital.
— Ele tinha uma energia super boa, mesmo doentinho. Havia uma vontade de viver, uma curiosidade impressionante — diz.

O último dia do poeta
Sandra afirma que Quintana esteve lúcido até o fim. Sempre se lembrava das coisas, mas respirava com dificuldade e fazia nebulização.
A última vez que o viu foi em seu dia derradeiro. Novamente, Sandra acreditava que o poeta receberia alta. Costumava visitá-lo no final de seu expediente, mas naquele 5 de maio de 1994 sentiu que deveria ir mais cedo. Foi vê-lo no horário de almoço, na UTI do Hospital Moinhos de Vento.
Sandra não sabia se o poeta podia ouvi-la, mas conversou com ele mesmo assim. Realçou o quanto gostava dele, o quanto era importante em sua vida. Quintana morreu no final da tarde.
Mario segue sendo o meu cotidiano. Lembro dele sempre. Se não fosse ele, eu não seria eu.
SANDRA RITZEL
Ex-assistente pessoal de Mario Quintana
Muito antes, o poeta havia pedido a seu advogado, Marco Túlio de Rose, que orientasse Sandra profissionalmente. Queria partir tranquilo com relação ao futuro da amiga. De Rose a empregou em seu escritório — posteriormente, ela foi aprovada em concurso público para o Tribunal Regional do Trabalho. O poeta também custeou os estudos da jovem.
— Me deixou na vida bem encaminhada. Cuidou de mim sempre que pôde. Foi um anjo na minha vida enquanto estava vivo e agora vai ser sempre meu anjo da guarda — emociona-se Sandra, com a voz embargada.

"Freud iria se deliciar", brincava o poeta
Quintana chamou Sandra de "mãe adotiva" em um bilhete. "Em vez de me proibir quase tudo, como as outras mães, me ensinou muita coisa", acrescentou. Às vezes, a chamava de "filha" ou assinava recados como "pai". Sobre a relação com a jovem, o poeta brincava que "Freud iria se deliciar".
— Às vezes ele era meu pai, às vezes eu era mãe dele — diverte-se Sandra — Ele não tinha maldade com as coisas. E ele sempre foi um menino. Por mais que fosse adulto, a alma dele era de um menino.
A influência de Quintana na vida de Sandra é extensa. Vai desde a paixão pela literatura francesa até o hábito de perceber poesia no dia a dia. Para ela, o poeta permanece vivo em cada detalhe de sua casa e em sua formação como pessoa.
— Mario segue sendo o meu cotidiano. Lembro dele sempre. É na minha foto, na geladeira, na poesia que eu sempre leio e releio. Se não fosse ele, eu não seria eu — conclui.





