
Aos 29 anos, Tamara Klink já viveu experiências que a maioria de nós não viverá. A jovem, que havia alcançado o feito inédito de ser a mais jovem latino-americana a cruzar o Atlântico sozinha, em 2021, se tornou a primeira mulher a realizar a invernagem no Ártico sozinha – ela viveu por meses em um veleiro preso ao gelo entre 2023 e 2024.
Eu adorei estar só, mas estar só me fez ver virtudes na experiência de estar junto.
TAMARA KLINK
A navegadora, que é filha do também navegador Amyr Klink, conta sobre essa experiência no livro Bom Dia, Inverno, que será lançado na próxima sexta-feira (15) no Festival Fronteiras, em Porto Alegre. O evento ocorre nos dias 15 e 16 de maio.
Em entrevista para Zero Hora, Tamara aborda o isolamento extremo e seus efeitos, reflexões sobre ser mulher em expedições, episódios de violência na preparação da viagem e a relação entre experiência pessoal e crise climática.
Com a Palavra
Confira a entrevista:
Como é para você lidar com essa exposição, de dar entrevistas e palestras, sendo alguém que gosta de estar só?
Para mim é um momento muito feliz. Eu gosto muito de poder encontrar com os leitores, porque vejo que essa travessia, que foi bem concreta no espaço e no tempo, toca as pessoas de maneiras diferentes. Acho que esse momento de encontro, de certa maneira, dá sentido para a escrita, e faz essa viagem continuar viva.

Então escrever é como um fechamento da viagem?
Eu acho que é mais do que isso: não é um fechamento, é um momento de “abrimento”. A viagem começa e termina sem plateia, mas, quando o livro chega a outras pessoas, é como se essa viagem continuasse a crescer e tomar novos caminhos.
Sempre foi sua ideia escrever depois das expedições?
Sim, eu acho que é obrigatório, pelo menos para mim. Só pude fazer essa viagem porque muitas gerações na Groenlândia criaram ferramentas para medir a espessura do gelo, muitas mulheres lutaram pelo direito de ir e vir, muitas pessoas aperfeiçoaram barcos e modelos meteorológicos.
Dividir o relato da viagem é a maneira que eu encontrei de agradecer a essa oportunidade.
E como os seus relatos alcançam as pessoas?
O Bom Dia, Inverno ainda não está nas livrarias. Poucas pessoas leram. Você é uma das pessoas que leu. O que você pode dizer?
Como leitora, me impactaram os momentos em que você fala sobre a sua condição de mulher nesse desafio, e sobre o quanto o tempo da mulher pode ser mais curto do que o do homem.
Eu acho que, sobre a primeira parte da sua resposta, havia um reconhecimento desse desencorajamento que a gente recebe muitas vezes ligado ao nosso gênero. Dizem que talvez você não seja capaz, talvez seja melhor você renunciar ao seu sonho. Eu comecei a identificar que não era só comigo, mas com várias mulheres. Ao longo da invernagem, eu me senti cada vez menos mulher.
Meu gênero não tinha importância para as raposas e os corvos do fiorde. A gente ainda é mulher quando não tem mais nenhum homem para dizer o que é a norma e o que é a exceção? Outra coisa na qual os leitores parecem interessados é no tema de estar só.
Isso pode ser raro hoje, mas, apesar de não estarmos tão isolados fisicamente, muitas pessoas se sentem sozinhas sem ter desejado. Eu fui feliz na solidão por dois motivos: eu escolhi estar só e eu sabia que aquilo iria terminar em algum momento.
Eu fui feliz na solidão por dois motivos: eu escolhi estar só e eu sabia que aquilo iria terminar em algum momento.
TAMARA KLINK
E o que essa solidão te trouxe?
Para mim, também foi um momento de me desfazer de regras sobre como se vestir, como andar, a que horas comer. Achei um exercício, ao mesmo tempo que arriscado, muito divertido.
Essa experiência é para qualquer pessoa?
Eu arriscaria dizer que todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez, de por um mês ficar só, ou reduzir o contato com outras pessoas. Isso pode ser em conventos, retiros ou em um apartamento, mas em uma solidão preparada e escolhida.
Mas acho que uma pessoa em Porto Alegre que hoje desliga o celular durante um mês vai ter uma experiência muito próxima da que eu vivi, porque hoje é mais difícil sair das redes sociais do que sair da sociedade.
Por quê?
Quando eu estava só, vivi aquilo que podemos chamar um pouco de “tédio”, que antes era algo que as pessoas falavam como algo a evitar e, hoje, a gente nem evita, porque nem tem mais. Mais tarde, percebi que aqueles eram os momentos em que eu mais brincava e em que eu mais fui mais criativa.
Eu não estava correndo contra o tempo, e senti que o tempo era expandido.
TAMARA KLINK
Criativa como?
Eu não sou uma pessoa especialmente musical, porque, na casa dos meus pais, a gente só podia ouvir música em fone de ouvido, porque o meu pai não gostava de não poder ouvir o som dos passarinhos ou o das ondas, se estávamos no barco. Mas, quando eu estava na invernagem, eu ouvia o vento e tentava inventar uma letra para o som do vento. Pegava livros que eu já tinha lido e cortava trechos para criar frases novas. Fazia mandalas com as meias.
Ficava horas com os binóculos olhando se passava algum bicho. Eu não estava correndo contra o tempo, e senti que o tempo era expandido.
Antes de ir, do que você tinha medo?
Eu tinha medo de morrer, que o barco afundasse, que eu fosse comida. Tinha medo de ter que desistir, se sofresse um acidente.
E de enlouquecer?
Sim, eu imaginei que eu pudesse enlouquecer, mas aquela também era uma investigação, de certa maneira. Eu estava também disposta a aceitar que eu não controlaria tudo e estava aberta ao desconhecido. Não sei nem dizer se fiquei louca ou não. Afinal, o que é loucura?
Eu estava também disposta a aceitar que eu não controlaria tudo e estava aberta ao desconhecido.
TAMARA KLINK
Você se sente diferente depois da invernagem?
Sim. Eu tenho mais prazer de estar com outras pessoas, porque meus vínculos não são mais mediados pelo medo de estar só, mas pelo desejo de estar com e aprender com as diferenças entre nós. Eu percebi que, sem trocas com pessoas diferentes de mim, meus pensamentos ficavam sem nuance e eram cada vez mais radicais, sustentados por suposições falsas ou questionáveis.
No tempo em que vivemos, se passamos muito tempo na internet, tendemos a ver o mundo dessa maneira muito frágil e viciar nossos pensamentos através do viés de confirmação. O mundo não se parece com os nossos pensamentos. Mas essa é uma percepção do pós-viagem.
Digo isso porque não acho que ficar sozinha para sempre é a resposta. Eu adorei estar só, mas estar só me fez ver virtudes na experiência de estar junto.
No tempo em que vivemos, se passamos muito tempo na internet, tendemos a ver o mundo dessa maneira muito frágil e viciar nossos pensamentos através do viés de confirmação.
TAMARA KLINK
No livro, há um trecho que relata um episódio muito íntimo de violência de gênero que você viveu com um preparador de barco. Por que decidiu incluir esse episódio?
Eu acho que fez parte da viagem. Muitas pessoas, especialmente mulheres, vivem situações parecidas. Quando a gente quer muito que uma coisa se realize, como preparar um barco ou conseguir um emprego, a gente renuncia a muita coisa e se expõe a muitos perigos.
Sinto que é algo ao qual muitas mulheres ainda estão expostas e não veem saída para isso. A ideia de falar sobre isso foi não ocultar que isso existe e, talvez, dar ferramentas para mulheres reconhecerem situações parecidas e saírem delas.
Chama atenção que, no seu livro, o perigo muitas vezes vinha de homens, e não da natureza.
Lembro do caso da Juliana Marins (morta após cair durante a trilha do vulcão Monte Rinjani, na Indonésia). Lembro que muitas mulheres diziam “nossa, eu adoro fazer trilha e, agora, estão me dizendo para não fazer”, sendo que ela nem estava sozinha.
Lembro de pensar que estavam usando aquele acidente para reforçar que uma mulher não tem o direito de estar só e de confiar no próprio corpo. Muitas vezes, a gente está sujeito a esse desencorajamento sistemático, de gente que diz que o longe é perigoso para nós, quando os maiores perigos, pelo menos os que eu vivi, estavam em terra.
Você caiu na água em um momento crítico, no qual correu o risco de morrer congelada. Como foi? E o que te ajudou a tomar as melhores decisões naquela situação?
Foi um erro. Eu não medi com rigor a espessura do gelo enquanto caminhava, o gelo se quebrou e eu caí na água. Esse era um dos maiores perigos e eu não deveria ter vivido essa situação, mas aprendi com ela.
Ter feito terapia me ajudou a me preparar para uma situação como aquela, assim como ter prática esportiva, conversar com locais antes. Tudo isso contribuiu.
A mensagem é que não há separação entre o ser humano e a natureza. Tudo o que a gente fizer hoje vai custar mais barato do que daqui a 10 anos.
TAMARA KLINK
A invernagem tinha também a ideia de ver de perto os efeitos das mudanças climáticas. Qual a mensagem sobre a questão ambiental presente no seu livro?
O Ártico está aquecendo três vezes mais rápido do que o resto do planeta, o que gera efeitos até mesmo aqui no Brasil. A mensagem é que não há separação entre o ser humano e a natureza. Tudo o que a gente fizer hoje vai custar mais barato do que daqui a 10 anos.
Vivemos uma crise de imaginação coletiva, em que as pessoas não conseguem se imaginar vivendo sem poluir muito e produzir cada vez mais, mas a mensagem que ficou para mim, na viagem, é de que a abundância não produz satisfação.
Se vivêssemos em um mundo com recursos infinitos, seríamos pessoas mais satisfeitas? Ignorar os limites planetários não vai nos levar a um lugar melhor.
É um chamado à ação?
Quando falamos de ação, muita gente acha que não tem o que possa fazer, mas todo mundo pode fazer muita coisa. O primeiro nível de ação é o poder do voto. É muito importante estudar bem os candidatos, não só para presidente, mas em todas as áreas.
O segundo é através do nosso trabalho, seja como arquiteto, escritor, jornalista ou ator, todos podem tomar decisões para reduzir o impacto no planeta.
O terceiro nível, que é menos impactante do que os outros, são as decisões pessoais como ser vivo, consumidor e onde investimos o nosso dinheiro. Não faz mais sentido falar apenas em salvar outras espécies. Vocês, gaúchos, viram na enchente como nós somos as primeiras espécies em risco, e como não podemos separar o humano do resto do planeta.
O Festival Fronteiras tem apresentação do Governo do Estado do RS; patrocínio master Banrisul Mastercard, Corsan, Rio Grande Seguros e Icatu Seguros. Patrocínio acadêmico Unisinos. Patrocínio de Unimed, Sulgás, Crown, PWC, Sebrae, Caixa e Governo do Brasil. Apoio institucional Assembleia Legislativa do RS, Ministério Público do RS e Tribunal de Justiça do RS. A realização é do Grupo DC Set e a promoção é do Grupo RBS.










