
A jornalista, roteirista e escritora Eliana Alves Cruz é uma das autoras da primeira edição da revista da Milena, lançada nesta semana. É o primeiro gibi solo de um novo personagem da Turma da Mônica desde 1989, quando saiu Magali. Também é a primeira protagonista negra do clássico grupo.
No ano passado, Eliana assinou o livro protagonizado pela personagem, Milena e Enigma do Pássaro Antigo (Malê). Também em 2025, Eliana lançou Meridiana (Companhia das Letras), que faz um retrato complexo de uma família negra que ascendeu socialmente. A escritora divulga o livro no Festival Fronteiras, nesta sexta-feira (15), em Porto Alegre.
Eliana participa de bate-papo sobre a obra no Palco Arena, montado na Praça da Matriz, às 16h, com mediação de Laura Dalla Zen. Em seguida, realizará uma sessão de autógrafos na tenda da Livraria da Travessa. Ambas as atividades são gratuitas.
Mais cedo, entre 11h e 12h, Eliana estará em outra conversa, Entre o vivido e o narrado: como nasce o que é autêntico?, na Sala da Música do Multipalco Eva Sopher, com participação de Lu Bazanella e mediação de Fê Pandolfi. Os ingressos estão disponíveis no site do festival.
Em entrevista a Zero Hora, a escritora falou sobre Milena e Meridiana.
Confira a entrevista:
Você já assinou o livro “Milena e o Pássaro Antigo”, que saiu ano passado. E agora participa da primeira edição da revista. O que te chamou atenção em especial para a Milena?
Primeiro, o caráter histórico de estar participando de um material do Mauricio de Sousa. Esse selo (estúdio MSP) tem uma qualidade inegável, com um papel no letramento de tantas crianças, inclusive o meu. Quem não cresceu lendo os quadrinhos da turma? Pelo menos na minha geração, costumava ser o primeiro livro que as crianças tinham acesso.
Quando me convidaram para o livro foi durante a Bienal do Livro, em São Paulo. Como escrevi Milena e o Pássaro Antigo, acho que naturalmente pensaram em mim para uma historinha. Ambos foram grandes desafios porque escrever para criança é completamente diferente da escrita para adulto. Só que é aquela coisa, impossível não aceitar. Como dizer não para uma proposta de escrever uma historinha de um personagem do Mauricio? Também era uma questão antiga (protagonista negro na turma).
É uma turminha que mora no Brasil e não tem nenhuma criança negra ali, sendo feliz, fazendo traquinagens como as outras crianças. Não podia dizer não a uma reivindicação que é pertinente.
É uma turminha que mora no Brasil e não tem nenhuma criança negra ali, sendo feliz, fazendo traquinagens como as outras crianças.
ELIANA ALVES CRUZ
Você comentou que não é fácil escrever algo voltado ao público infantil. Com Milena, imagino que havia um desafio em garantir que a personagem mantivesse a essência da Turma, mas também trouxesse uma nova perspectiva. Como foi seu processo ao trabalhar com a Milena em diferentes ocasiões?
Tive que entrar nesse universo dela para entender. Algo que é muito fascinante na criança é a sinceridade. Nós, adultos, usamos subterfúgios e eufemismos para suavizar o que dizemos. A criança não tem isso, você tem que ser literal e dizer o que realmente quer. Acaba sendo um exercício muito interessante para quem escreve.
Também foi bacana entender a linguagem de algumas palavras, como o som no ouvido da criança é diferente de quando você já tem uma caminhada. Há um outro entendimento das coisas. Tentei trazer para a Milena uma brasilidade.
Na historinha da revistinha, que é uma fábula infantil, procurei dar um toque nosso. Acho que a palavra para ela é sempre afeto, pois precisamos envolver essa personagem com muito carinho.
Milena é a primeira personagem negra da linha de frente da Turma da Mônica. E ela chega em um momento diferente da história do Brasil e da literatura brasileira.
É um outro momento, embora eu tenha verificado em páginas da internet da galera que curte quadrinhos que a Milena ainda tem uma pitadinha de desconfiança de uma parte do público, até por ser a personagem mais nova.
Contudo, também por conta de tudo que o nosso Brasil tem com relação a personagens como ela. Acho que é uma personagem que veio para também desafiar as pessoas, quebrar determinadas expectativas e colocar as coisas em outro lugar. Dar um passo à frente desse momento novo, um tanto melhor do que já foi, mas que ainda tem uma caminhada a ser feita. Ela é mais um passinho ali nesse mundo mais plural que queremos ver.
Imagino que você tenha se deparado com críticas à Milena por parte de fãs de longa data. Segundo eles, a personagem seria apenas "a filha da veterinária" ou alguém com somente características positivas, o que não renderia muita história. Como você avalia esses feedbacks?
É uma personagem em formação. A Mônica mesmo tem mais de 60 anos, com toda uma trajetória já construída e consolidada. Isso vale também para outros integrantes da turma, como Cebolinha e Cascão. Vale lembrar que a Milena tem sete aninhos, é uma criança ainda. Essa personalidade vai sendo formulada.
Falando não apenas de histórias em quadrinhos, a literatura como um todo é um processo: você começa num lugar e vai construindo. Mas eu vejo muito fortemente na Milena esse desejo pelo conhecimento. Ela tem também um núcleo familiar muito presente, mais que de outros personagens.
A mãe é veterinária e o pai é publicitário. Eles têm profissões definidas. Eu não lembro muito bem da mãe do Cebolinha ou da da Mônica, por exemplo. É uma personagem que tem um núcleo comunitário muito importante em volta dela.
Por quê?
Esses dias fui a uma festa literária dessas, aí tinha uma turma de escola pública que me fizeram perguntas absolutamente profundas, nada me preparou para falar com crianças de sete ou oito anos (risos). Todas estão com acesso à internet e muita coisa.
Teve um menino que abriu o livro e falou assim: “E essa família aí?” Quando ele fez essa pergunta, entendi que o menino não tinha “essa família aí”, que seria impossível essa família de classe média com pai, mãe e irmãos, com acesso a coisas materiais. Daí contei a ele uma historinha: “Conheço uma pessoa que teve uma vida muito difícil, que não teve a chance de crescer com o pai. Sabe o que ele fez quando cresceu? Se tornou um pai como ele gostaria de ter tido”.
Aí o menino arregalou os olhinhos para mim. Ele não tinha olhado por esse lado, estava apenas focado na falta. Acho que a literatura para a infância tem que olhar para a completude, para o que virá. Você não tem essa realidade aqui, mas pode ter. Não tem essa infância, mas você pode alcançá-la.
Mesmo que sua escrita seja de ficção, há sempre um pé na realidade. Existe espaço dentro de uma publicação como o gibi da Milena para discutir temas como identidade, memória e pertencimento? Ou o foco aqui é puramente a aventura e o lúdico?
Tenho a teoria de que toda escrita tem um pé na realidade, inclusive a escrita de fantasia. Por exemplo, quando se está falando de dragão, também se está falando de família, de luta pelo poder. Isso é o quê? Realidade. Está falando de guerra. O que a gente está vivendo no mundo hoje? Toda escrita fala de realidade e parte de alguém.
Esse alguém coloca toda a sua visão de mundo naqueles personagens e naquela história. Acho que o que eu escrevo não é diferente do que todo mundo sempre escreveu. É apenas um ângulo de vida que talvez tenha sido pouco explorado até hoje, digamos assim, com menos autores escrevendo sobre. Um olhar para a sociedade brasileira e para o mundo dessa janela aqui.
Meridiana é uma versão adultíssima da família da Milena.
ELIANA ALVES CRUZ
Você comentou que a família da Milena é uma fator marcante na construção da personagem. Seu livro mais recente, Meridiana, aborda a história de uma família negra que ascende socialmente, mas enfrenta diferentes rotinas de microviolências. Que paralelos podemos traçar aqui?
Meridiana é uma versão adultíssima da família da Milena. São seis pessoas, cada uma falando sobre a história daquela família, e a Meridiana que dá título ao livro é uma personagem que perpassa a história de todos, até que ela conta a sua própria versão das coisas. Tem tudo ali, os vários dramas humanos que a gente conhece bem.
É uma família negra, com mobilidade social, mas poderia ser, por exemplo, uma família refugiada indo para outro país. É o sentimento de estrangeirismo, de você não pertencer ao mundo de onde veio, porque já está em outro momento da vida e também não pertence totalmente para onde você foi. É esse trânsito, esse limbo, um lugar onde algumas pessoas se situam, que é um lugar meridiano.
Com a Palavra
Meridiana é dividido por capítulos que trazem cada integrante da família relatando suas próprias vivências. Como você quis construir a voz de cada um desses personagens?
Deu muito trabalho! As pessoas leem rápido, mas o que parece fácil nunca é. Tentei várias vozes narrativas, mas nenhuma dava certo. Tentei que a Meridiana falasse, não deu certo. Tentei um narrador onisciente, também não deu. Tudo ficava um pouco artificial. Você sente que a história está assim, falta alguma coisa que não está casando. Respirei fundo e entendi que cada um teria que falar.
E aí (foi outro desafio) para dar voz e personalidade a cada uma dessas vozes, para que não fique parecendo que é a Eliana falando seis vezes. Tive que pensar em como cada um fala e como cada um encara a vida. O que cada um gosta, em que momento da vida cada um está. Deu um trabalho incrível. Reescrevi, sei lá, 14 vezes.
Você começou de um ponto e foi para outro, então.
Totalmente diferente. Acho que esse é o desafio de histórias tão contemporâneas: estamos consertando o avião em pleno voo. É diferente de escrever, por exemplo, romances históricos, que você tem um distanciamento do tempo. É possível ver os efeitos que aquilo lá causou.
Com a história contemporânea, a coisa está quente, as pessoas estão aqui. Você assiste a uma coisa na televisão e quer mudar o personagem, quer agregar uma fala, aí não acaba nunca. Hoje, se eu for ler de novo, vou querer mudar.
O dia a dia é feito de microagressões que vão se somando como gotinhas num copo que, uma hora, transborda.
ELIANA ALVES CRUZ
Meridiana carrega marcas de mulheres que vieram antes dela. Ela é uma personagem que consegue romper com traumas geracionais ou é uma sobrevivente que aprendeu a conviver com essas marcas?
Acho que cada um da família arruma uma estratégia de vida para sobreviver a microagressões. É um livro que fala da sofisticação da exclusão. Há casos emblemáticos e escandalosos de marcas de racismo, machismo, homofobia ou de transfobia, mas o dia a dia não é feito desses casos.
O dia a dia é feito de microagressões que vão se somando como gotinhas num copo que, uma hora, transborda. É difícil para as pessoas externarem porque justamente é essa sofisticação da microagressão que faz com que você não consiga nem determinar porque você está tão incomodado. Você não consegue nem nomear as situações.
Às vezes vem de uma forma de piada, mas é só uma brincadeira. Às vezes vem de uma forma muito escamoteada e isso vai machucando, ferindo e abrindo abismos dentro das pessoas. Vai dilacerando aos pouquinhos.
Então, é um livro assim, que fala desse cotidiano miúdo em que você vai sendo agredido e vai passando por cima até uma hora que, de alguma forma, aquilo extravasa para algum lugar. Meridiana é, ao mesmo tempo, uma sobrevivente, mas também é agente da mudança.
No livro, há a questão do cabelo da Meridiana. Na infância, ela usava ferro quente para alisar o cabelo crespo e tentar se adequar ao espaço majoritariamente branco da escola. E era um processo doloroso de diferentes formas.
É uma metáfora muito poderosa essa do cabelo. Para as meninas como a Milena, o cabelo tem uma estatística. As primeiras pessoas a perceberem o que é o racismo são crianças de quatro anos por conta do bullying que sofrem com o cabelo. Pensa em qualquer criança de quatro anos. Essa menininha tão pequenininha já sabendo de tanta maldade e se olhando como inferior nessa idade.
Como é que conserta a cabeça dessa pessoa? Como é que a gente pode curar essa ferida numa fase tão tenra da vida? São coisas que marcam. Essa história do cabelo teve um artista que me escreveu: “Você descreveu a minha casa. Todos os domingos, parecia que eu estava vendo a minha irmã ali”. Muita gente me falou isso, pois era algo corriqueiro para uma geração.
Agora estamos mudando mais ou menos. A questão não é o que você faz, mas por que você faz. Por que você quer mudar a sua aparência? Está a fim de um visual novo? Está tudo válido, está tudo bacana. Quer alisar o cabelo? Legal. Mas quando isso vira uma necessidade de se modificar para ser aceito, aí temos um problema.
Você ocupa hoje um lugar de destaque na literatura contemporânea brasileira. Você sente uma pressão externa para que sua obra seja "didática" sobre o racismo, ou sente que já há espaço para outros temas sem esse compromisso?
Isso é tão forte. O olho das pessoas está tão direcionado para isso, que, às vezes, a gente não vê. Mas tem essa pressão. Você sempre tem que estar no lugar do palestrinha e do "Wikipedia", isso cansa também, a gente não tem resposta para tudo, nem quer ter, mas há uma pressão para que estejamos nesse lugar do professor. É cansativo, mas tento escrever o que eu quero.
Se você me perguntar na hora que eu sento para escrever, eu esqueço muitas dessas discussões, quero contar aquela história. Quem são essas pessoas? E quando você mergulha em quem são de verdade as pessoas, essas questões aparecem, porque isso faz parte delas.
E se isso está ausente, é uma ausência presente. A ausência também grita. Se você escreve um personagem negro em 2026 que não passe por nenhuma dessas experiências, isso por si só já é um discurso. Você não escapa. Mas estão lá (outros temas), o afeto, o amor, o desejo, os questionamentos existenciais de qualquer ser humano.
A presença de uma personagem como a Milena em um universo tão popular pode gerar transformações reais no imaginário coletivo?
Quem fala muito bem isso é a Kiusam de Oliveira, uma autora infantil maravilhosa: toda escrita está autorizando alguém a existir. E toda escolha não é acaso. Quando você retrata a Bela Adormecida de determinada forma, está contando qual é a forma aceitável para ser uma princesa. Se você for diferente daquilo, você não é uma princesa.
Afinal de contas, é o imaginário infantil que você está moldando. Como a criança é muito literal, não tem essa abstração. Ela precisa se ver ali. Então, quando você traz personagens como a Milena, é uma mudança radical no imaginário dessas crianças, não apenas negras, mas brancas também.
O Festival Fronteiras tem apresentação do Governo do Estado do RS; patrocínio master Banrisul Mastercard, Corsan, Rio Grande Seguros e Icatu Seguros. Patrocínio acadêmico Unisinos. Patrocínio de Unimed, Sulgás, Crown, PWC, Sebrae, Caixa e Governo do Brasil. Apoio institucional Assembleia Legislativa do RS, Ministério Público do RS e Tribunal de Justiça do RS. A realização é do Grupo DC Set e a promoção é do Grupo RBS.






