
"Para o meu irmão Juliano, que aos 44 anos não conseguiu mais viver". Esta dedicatória abre O Livro dos Leitores Imaginários (Arquipélago Editorial, 208 páginas), do tradutor, jornalista e escritor gaúcho Rodrigo Breunig.
A obra começou a ser desenvolvida em 2022 como uma enciclopédia que reuniria cenas de personagens lendo — ou às voltas com livros — nas obras favoritas do autor. São esses os “leitores imaginários” que dão nome ao projeto. Mas a tragédia mudou os rumos do trabalho.
A publicação, agora, chega às bancas (veja serviço de lançamento abaixo) mesclando o amor do autor pela literatura, mas também como uma ferramenta para lidar com o luto:
— Depois da morte de Juliano, decidi montar o livro como se fossem histórias que um irmão conta ao outro para mantê-lo interessado em viver mais um dia. Como se dissesse: “Ouve esta história, fica só mais um dia, ouve a história de amanhã. Vou te contar uma história por dia. Se for preciso, por meses, por anos, por décadas.”
A versão final do livro reúne 101 narrativas curtas, misturando diferentes formas literárias: contos, poemas, verbetes, ensaios breves, aforismos, anedotas e colagens. A obra transita não apenas por essas experimentações, mas também entre humor e melancolia. Tudo para que a narrativa se torne instigante e seja consumida do começo ao fim.
A ideia de Breunig, também, é convidar os leitores a uma caça às referências de cada uma das pequenas histórias que conta. Estão em seu trabalho momentos que remetem a obras, por exemplo, de Machado de Assis, Thomas Mann, Jorge Luis Borges, Fiódor Dostoiévski, William Shakespeare, Mary Shelley e Clarice Lispector. Só que nem todas são simples de identificar, conforme o autor:
— Um terço das histórias é bastante fácil de descobrir de onde veio, porque tu vais ter histórias com personagens famosos, como o Brás Cubas, por exemplo. Só que outro terço é de cenas reescritas e obscurecidas de tal maneira que a maioria dos leitores não vai conseguir identificar. E outro terço, ainda, não foi tirado de livro nenhum: foi criado do zero, por mim.

Lucas Bauman e as bicicletas
Apesar de ser um livro com profunda conexão com a sua história pessoal, Breunig optou, em O Livro dos Leitores Imaginários, por resgatar o personagem principal de seu primeiro livro, A Última Noite das Bicicletas (publicação independente, 281 páginas, 2020), Lucas Bauman.
Nesta história, que é levemente inspirada em acontecimentos familiares do autor, o personagem era um jovem vivendo nos anos 1990 e, depois que seus pais são atropelados e mortos, decide ir atrás do motorista que fugiu sem prestar socorro:
— De certa forma, ele coloca na cabeça que, se um dia conseguir encontrar esse atropelador, o anjo da morte nunca mais baterá à sua porta. Eu havia escrito esse romance como uma espécie de oração literária para que o anjo da morte não batesse à minha porta nunca mais, mas voltou a bater. Por isso, pensei que seria interessante que o contador dessas histórias ao irmão suicida fosse o meu Lucas Bauman, que agora é um homem de meia-idade.
A Última Noite das Bicicletas foi uma edição totalmente independente de Breunig, que bateu à porta de diversos conhecidos do mercado literário, mas ouviu negativas por não ser um nome conhecido o suficiente. E olha que o jornalista traduziu mais de 50 livros, de nomes como Jane Austen, Charles Bukowski, Agatha Christie e Jack Kerouac.
Com O Livro dos Leitores Imaginários, imaginava que teria a mesma dificuldade de publicação, mas viu a sua sorte mudar quando a Arquipélago, editora para a qual colaborou organizando obras como A Estrada Enluarada e Outras Histórias, de Ambrose Bierce, e Medo: Contos de Horror Comentados por H. P. Lovecraft, abriu suas portas para a ficção. Sua obra encontrou uma casa.
— Travava, diariamente, uma batalha para escrever de uma maneira que conseguisse fazer algo original em cima de um material que não era. E, mesmo que tentasse dizer a mim mesmo que não iria me importar se não conseguisse publicar, no fundo, também sabia, o tempo todo, que precisaria me dedicar com todas as forças para fazer algo realmente diferente. Queria chamar atenção e ser publicado. E deu tudo certo — diz Breunig.
Encontro com o público
O lançamento de O Livro dos Leitores Imaginários ocorrerá em dois encontros: nesta quinta-feira (9), às 18h30min, na livraria Paralelo 30 (Rua Vieira de Castro, 48, Farroupilha), em Porto Alegre; e, no dia 25 de abril, às 10h, na livraria Iluminura (Rua Borges de Medeiros, 471, Centro), em Santa Cruz do Sul, cidade natal do autor. O livro já está sendo vendido, também, nas lojas digitais.


