Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño, traz a sensação de chegar a um fim de festa. Ou de estar montando um quebra-cabeça. É uma obra que te amarra, mas pode te deixar perdido. Especialmente, um livro que empolga.
De maneira fragmentada, o romance lançado em 1998 acompanha a saga de dois poetas: Arturo Belano e Ulises Lima. Eles partem da Cidade do México dos anos 1970 atrás de uma poeta desaparecida.
O livro é dividido em três partes. Na primeira, a obra é guiada pelo diário de García Madero. Ele é um jovem aspirante a poeta, amigo de Belano e Lima, que passa por um momento de maturação. Essa parte segue uma estrutura linear, ao mesmo tempo que mistura serenidade e um humor corrosivo — muitas vezes, a ingenuidade de Madero garante risadas. Aqui, há uma abertura na primeira página que é esplêndida.
A segunda parte é o coração do livro. Bolaño apresenta um mosaico de depoimentos de dezenas de personagens, espalhados por vários países e décadas. Cada testemunha narra uma passagem que tem relação com Belano ou Lima. Às vezes, um dos dois só aparece de relance no relato. É como se distribuíssem migalhas da história para montarmos um quebra-cabeça.
Cada depoimento contém personalidade própria, um estilo de escrita que reflete a testemunha: há o advogado abusando do juridiquês, a estado-unidense que exagera nas palavras de baixo calão e por aí vai. São relatos que parecem ser de carne e osso.
Por fim, a terceira parte volta ao diário de García Madero, culminando em um desfecho poético e imaginativo.
Sonhos não conquistados
Os Detetives Selvagens é uma carta de amor de Bolaño a sua geração de poetas e escritores. É verdade que essa carta é, às vezes, melancólica, como se trouxesse à tona aqueles sonhos não conquistados. Como se chegássemos a uma festa que prometia muito, mas pouco aconteceu. Ou que ninguém quer lembrar.
Só que, seguramente, Os Detetives Selvagens é um livro que te deixa com saudade depois de ler.
Toda semana, um jornalista do Grupo RBS irá compartilhar na seção O que Estou Lendo a sua paixão por livros por meio de dicas do que estão lendo no momento.

"Os Detetives Selvagens", de Roberto Bolaño
- Companhia das Letras, 624 páginas, R$ 134,90 (livro físico) ou R$ 44,90 (e-book)
- Tradução de Eduardo Brandão

