
O povo charrua terá sua saga contada em história em quadrinhos no Rio Grande do Sul. Os indígenas dessa etnia viveram em territórios onde hoje ficam o sul do Brasil, do Uruguai e parte da Argentina. A iniciativa conta com roteiro de Rodinério da Rosa e ilustrações de Moacir Martins. Trata-se de uma ficção histórica, com previsão de lançamento para agosto de 2026. A proposta foi selecionada no Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte).
A HQ terá como personagem central o guerreiro fictício da etnia charrua Cayuare. O protagonista conduzirá o leitor pelas origens, cultura e o trágico destino desse povo, praticamente dizimado desses territórios pelos espanhóis e portugueses.
Os dois autores terão a consultoria do historiador indígena Kaingang Danilo Braga. Além disso, a publicação contará com textos educativos escritos pelo próprio consultor e também pelo professor Daniel Bass, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
— Essa história é bem antiga. Remonta praticamente a minha infância. Na época do colégio, a gente estudava a história do Rio Grande do Sul. Fiquei fascinado quando conheci os charruas. Nessa época, eu já lia muito sobre o oeste estadunidense. E comparei os charruas com os apaches na questão do modo de vida e da não aceitação do domínio de um invasor, no caso os espanhóis e os portugueses — contextualiza o artista Rodinério da Rosa.
O roteirista compartilhou a ideia com o ilustrador Moacir Martins, que aceitou participar da empreitada. A vontade de retratar a etnia em HQ precisou esperar até o projeto ser selecionado no edital Fumproarte de Produção Artística de 2025, da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMCEC). Neste momento, os dois trabalham para colocar no papel a história charrua. Mas há obstáculos neste processo.
— Temos um grande problema: a linguagem charrua está praticamente extinta. Tem um grupo em Porto Alegre de descendentes charruas. Como a língua praticamente sumiu, a maior dificuldade é achar nomes relacionados aos charruas. Porque a língua deles é bem diferente do tupi-guarani — explica Rodinério.
Além dos apaches, outra inspiração de Rodinério foi o livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, de Dee Brown. Trata-se de um relato da destruição dos povos indígenas da América do Norte.
Segundo o roteirista, os charruas que no passado conseguiram fugir da dizimação no Uruguai vieram para o Estado e para parte do território argentino. Dessa maneira, misturaram-se a outras tribos, o que acelerou o desaparecimento de sua língua e cultura nativa.
— Nós não temos na nossa literatura uma história como tem nos Estados Unidos, em que eles contam a tragédia que foi o massacre dos indígenas. Aqui também tivemos tragédia do sumiço dos povos originários e a gente praticamente não vê isso — afirma.
— Outra coisa que descobri, e eu não tinha ideia, é que os índios tinham lutado na Revolução Farroupilha (1835-1845), ao lado do Império. Para um futuro projeto, me interessa saber por que os indígenas foram empurrados para debaixo do tapete da história — complementa o roteirista.
O historiador indígena Kaingang Danilo Braga fala sobre a parte do território que os charruas estabeleceram-se no Estado:
— A região que os charruas habitaram no Rio Grande do Sul foram os vales e ilhas entre os rios Ibicuí e Quaraí. Quando eles fugiram para o Estado foram em direção a Santo Ângelo e São Miguel das Missões.
Desafio para desenhar
O ilustrador de quadrinhos Moacir Martins desenha os quadros para a HQ em mesa digital. Primeiro, faz um desenho em 3D e depois o finaliza com caneta digital. A ideia é entregar de quatro a cinco quadros desenhados por página. Ele fala sobre o desafio de retratar uma tribo praticamente extinta.
— É realmente bastante complexo. Algumas coisas temos que inventar, baseado na pouca informação que se tem. Não tem como escapar disso. Acho que todo trabalho que tem ficção histórica é impossível de restaurar todo o período histórico sem ter uma liberdade artística. Claro que isso é calculado, mas alguma coisa sempre tem que se inventar — revela Martins.
De acordo com o ilustrador, imaginar algo que se tem poucas referências é uma tarefa difícil.
— Nem sempre bate o que o roteirista está criando com o que eu estou desenhando. Tem a questão do tempo, porque a história dos charruas têm várias etapas. Tem coisas que já há alguma informação. E é melhor eu fazer esse caminho do que seguir por outro — detalha.
E conclui com uma reflexão sobre o que representa o desaparecimento desses povos ancestrais:
— Na sociedade em crise atual, muita coisa disso pode se aproveitar para se repensar a nossa estrutura social. O quanto a gente perdeu e está perdendo por não estudar e relacionar mais o que esses povos têm de legado para que possamos lidar com essa crise do mundo capitalista.
Como será a HQ e onde encontrá-la
A HQ deverá contar com apenas uma história e não uma seleção de relatos. Serão cerca de 94 páginas e o valor deverá ficar entre R$ 35 e R$ 38. A edição será feita pela Da Rosa Estúdio, de propriedade do roteirista e do ilustrador. Por enquanto, o título provisório escolhido é Charruas.
Duzentos exemplares serão distribuídos de forma gratuita para escolas públicas, bibliotecas comunitárias, centros culturais e espaços de preservação da memória indígena.
A obra também será disponibilizada em formato de audiolivro descritivo para deficientes visuais, que poderão acessá-la nas redes sociais ou baixá-la por meio de link. Quem quiser acompanhar o projeto pode acessar o projeto no Instagram (@charruahq).
— Em relação aos charruas, o leitor vai encontrar uma história que muitos nunca ouviram falar. Como foram dizimados e o que aconteceu depois com os poucos que conseguiram fugir. Não será apenas uma história em quadrinhos. Vão ter textos contextualizando a história dos charruas. Será a primeira história em quadrinhos do Rio Grande do Sul sobre a temática dos charruas — assegura Rodinério.




