
A história de uma família — mas não de qualquer família — se entrelaça à do Brasil em Ainda Estou Aqui (Alfaguara, 2015), de Marcelo Rubens Paiva. Ao mergulhar numa mistura de fatos, memórias e sentimentos, o leitor é levado aos anos de repressão, guiado pelo olhar íntimo de um filho sobre a própria mãe.
Mais conhecido pela adaptação cinematográfica de Walter Salles (2024), o livro tem força própria e oferece uma experiência profunda tanto para quem viu quanto para quem não assistiu ao filme.
Toda semana, um jornalista do Grupo RBS irá compartilhar na seção O que Estou Lendo a sua paixão por livros por meio de dicas do que estão lendo no momento.
Casada com o ex-deputado Rubens Paiva, Eunice Paiva sente na pele o endurecimento da ditadura militar. Com o marido preso e desaparecido em 1971, ela se vê diante da tarefa de criar sozinha cinco filhos enquanto busca respostas num país que convivia com o silêncio. No Rio de Janeiro luminoso dos anos 1970, a vida escurece: as esperanças diminuem, a vigilância se impõe, a fala se torna risco — um risco que Eunice decidiu enfrentar.
Marcelo Rubens Paiva constrói o relato a partir de uma memória fragmentada, colocando Eunice, já diagnosticada com Alzheimer, no centro. O resultado é um livro sem idealizações sobre quem transformou a dor privada em ação pública.
Eunice, que morreu em 2018, não se cristaliza como símbolo: busca respostas, luta pelo reconhecimento oficial da morte do marido e amplia sua atuação. Torna-se advogada, referência na defesa dos direitos indígenas e integra a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos, criada durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Quando o Alzheimer bate à porta, encontra amparo na família.
Ainda Estou Aqui é um livro sobre ausência, mas também sobre permanência — da memória, da dignidade e da recusa em esquecer.

"Ainda Estou Aqui", de Marcelo Rubens Paiva
- Alfaguara, 296 páginas, R$ 79,90 (livro físico) ou R$ 29,90 (e-book)



