
Jornalista, escritor e palestrante, Fabrício Carpinejar também pode ser definido como um pensador do amor. Não só do amor romântico, completo e para sempre, mas também do amor que pode acabar, ser nocivo ou que jamais existiu e precisa ser deixado para trás. Carpinejar chega ao final de 2025 como o único autor brasileiro a constar na lista das 10 obras mais vendidas na Feira do Livro de Porto Alegre. Ao longo da carreira, também já são mais de 3 mil palestras. Nesta entrevista, ele reflete sobre os relacionamentos afetivos, as relações familiares, as redes sociais, as alegrias e as dores da vida.
O teu livro Deixe Ir ficou entre os mais vendidos na Feira do Livro de Porto Alegre. Acredita-se na evolução gradual para relacionamentos saudáveis, mas a procura pela tua obra reforça a percepção de que ainda há muitas relações tóxicas?
Existe maior transparência nos relacionamentos. Não podemos esquecer o quanto o divórcio é recente, de 1977. Estamos lidando melhor com a sinceridade afetiva, mas existem complexidades contemporâneas. Uma delas é a rede social. Um ano que a gente vive presencialmente não é o mesmo tempo da virtualidade. A virtualidade tem vida de gato. São sete anos para um.
Olha o que se faz na rede social. Um casal começa o relacionamento e, em três meses, já tem fotos e bagagem de décadas. Existe uma superexposição do amor. E isso faz com que você tenha de se reinventar e amar o outro naquilo que não é mostrado.
O amor já não sustenta um relacionamento. Não basta. Tem que ser amigo. Alguém com quem possa repartir segredos e confissões.
Sofremos uma banalização do amor, como se fôssemos encontrá-lo toda semana. O amor é construção, escolha, alguém que você conhece profundamente.
Não tem mais como acreditar no amor à primeira vista.
Por que não se pode mais acreditar no amor à primeira vista?
As redes sociais acabaram com ele porque você pode cair numa armadilha. Os embusteiros têm pressa. Eles querem casar logo para que você não perceba o desastre. Chegam no segundo encontro e falam: "Você é o amor da minha vida". Precisa conviver, apresentar amigos e família, fazer um laboratório de viagem, saber se trata bem as crianças e se gosta de cachorro, ver o quanto a pessoa se relaciona com o universo.
Não dá mais para se apaixonar por aquilo que você recebe durante o tesão. Acho que isso mudou.
Estamos desromantizando o amor.
Se você está infeliz, se separa. Não se cultiva mais um relacionamento por fachada. Já é uma quebra de paradigma. Não se sustenta mais um casamento pelos filhos, o que se fazia com muita frequência.
As tuas análises sobre afetividade alcançam mais mulheres ou homens?
Minhas redes sociais têm 86% de público feminino. As mulheres são mais avançadas, discutem assuntos afetivos com desembaraço entre as suas amizades. As amizades masculinas são evasivas. A vida emocional é sempre secundária para o homem. Ele acredita que ser forte é não falar de si. Quando é ao contrário: ser forte é ter coragem de falar de si.
Se Eu Soubesse, livro de tua autoria, também reflete sobre a vida. Estamos na época do Natal e do Ano-Novo, que trazem espírito de comunhão, mas, para muitos, também significa reviver traumas familiares. O que pensa a respeito?
Se Eu Soubesse é recomendado para maiores de 40 anos. Retrato a geração sanduíche: a primeira historicamente a cuidar dos filhos e dos pais ao mesmo tempo. Com a longevidade, os pais estão tendo mais vida. E os filhos se tornam pais dos seus pais.
Ninguém nota o esforço que essa geração empreende. A última analógica. Uma geração que se adaptou a tudo, fez curso de datilografia e hoje tem reconhecimento facial na tela do celular.
Se Eu Soubesse também retrata as transformações comportamentais a respeito das celebrações de Natal e Ano-Novo. Você não pode permanecer onde não é desejado. É um custo muito alto. Não dá mais para querer agradar. Você não pode se prolongar em feridas, cicatrizes e ambientes nocivos. Você precisa se ausentar.
Melhor um Natal e um Ano-Novo sozinhos do que um Natal e um Ano-Novo traumáticos.
Vivemos num mundaréu de culpa e queremos corresponder a expectativas absurdas.
Tu tens uma carreira na comunicação pela palavra escrita, mas as palestras presenciais são destaque na tua atividade profissional. O que a modalidade traz de diferente para a relação com o público?
Insiro ternura e afeto no ambiente corporativo da palestra. Conto histórias que levam a sentimentos e emoções. Não costumo ficar no palco. Desço, para que não tenha hierarquia entre eu e o público.
A minha palestra tem como propósito não deixar ninguém invisível. A invisibilidade adoece. Você não é visto, não é reconhecido, não é valorizado, não é destacado. Vivemos numa época desprovida de elogios. Você elogia muito pouco ao longo do dia. E você é elogiado muito pouco ao longo do dia. Isso faz com que as pessoas não percebam o seu valor.
Elogiar é descobrir a riqueza do outro e devolvê-la.
Abraço todo mundo no fim da palestra porque parto do princípio que o abraço cura, salva e cicatriza. Onde não alcanço com as palavras, alcanço com o abraço. Destruo a separação entre o palestrante e o público. Cativamos pela energia que irradiamos e somos capazes de transformar vidas a partir de uma hora e 10 minutos de conteúdo.
Como o aconselhador aconselha a si mesmo?
Eu não me aconselho. Faço terapia semanal há décadas. Posso me enxergar falando e organizar minhas ideias a partir da terapia. Se você tem terapia, não vai levar tudo para o lado pessoal. Vai ter menos brigas, dissidências e provocações. Se você não tem terapia, a conversa engasga. Você começa a desconfiar e acredita sempre que o outro está querendo o seu pior. Gera paranoia. Você se acha o centro do mundo, injustiçado e perseguido.
Você passou por bastante preconceito na infância. Isso te levou a escrever Filhote de Cruz-Credo. Por que virou um adulto que fala de afetividade e não um ressentido?
Me dei conta que quem bate, esquece. Quem apanha, lembra todos os dias. Tomei preceitos na vida. Vou cuidar de mim, e não do que já aconteceu. Não vou cuidar de quem foi injusto comigo. Vou me aperfeiçoar e evoluir. Eu não quis ser um homem ressentido. Foi uma escolha de vida. Apanhei, levantei. Apanhei, levantei. E, de tanto que levantei, minhas pernas hoje são fortes.
Temos que parar com a crença de que perdoar nos torna leves. Você não tem a obrigação de perdoar.
Deixe ir. Deixe o tempo correr. Nem tudo deve ser perdoado. Você só deve perdoar quem luta pelo perdão e faz por merecer.
Fui uma criança que sofreu tudo quanto é trauma e bullying, mas tive uma família que me confiou princípios e passou a retaguarda no contraturno. Consegui manejar ferramentas para não perder a confiança, mas eu sempre me senti feio, horroroso, monstruoso. Só na maturidade fui aprendendo a ser bonito.
Nos anos 1980 e 1990, até no início dos anos 2000, existiam certas barbaridades que hoje não são mais toleradas, passou a ser bullying…
Mas a gente (referência a pessoas com mais de 40 anos) não pegou as barbaridades digitais, que são as piores. Tem aquela máxima: “Antes tinha bullying e ninguém sofria”. Mentira. Sofria. Mas hoje é muito pior. Imagina você ter bullying 24 horas por dia. Hoje eu não sei se sobreviveria. São chacotas intermináveis.
Sabe o que é um aluno virar meme? Não ser convidado para uma festa e ser ridicularizado nas redes sociais? Sofrer um boicote coletivo e não ter chance de mostrar o seu valor?
O bullying hoje é caso de saúde pública, não é mais de educação. São necessários terapeutas nas escolas.
Imagina com a manipulação da IA. A crueldade atingiu píncaros. Você pode manipular a foto de alguém fazendo algo constrangedor. Como conter um vazamento sendo uma criança ou um adolescente? Precisamos falar seriamente disso.
Tu fizeste uma palestra para o time do Inter na véspera do jogo contra o Bragantino, na última rodada do Brasileirão, quando havia chance de rebaixamento. Seja no esporte ou na vida, é mais fácil motivar quem está perdendo e pressionado ou quem está acostumado com a vitória?
Fui chamado para fazer uma palestra motivacional. Esvaziei a cabeça dos jogadores. No esporte, somos mais eficazes quando estamos dedicados àquele momento, sem passado e sem futuro.
Despertei uma matilha de lobos. O lobo não pensa. Ele faz. O adversário fareja a dúvida e o medo. Você não pode hesitar. Atacar e defender em bando. Não levar nada da vida pessoal, da mídia ou da repercussão para dentro do campo.
A mentalidade vazia faz as vitórias. Se você pensar que é o jogo da vida, fica paralisado. Se pensar que é apenas um jogo, tem o prazer de ganhar e não mais a obrigação de ganhar.
Nesse aspecto, o medo paralisa?
No futebol, sim. Na vida, o medo vai se transformar em coragem gradualmente. No meu entendimento, não é que os jogadores do Inter não estavam comprometidos ou que não estavam empenhados. Era excesso de emoção. Eles estavam comprometidos e empenhados demais, a ponto de não conseguir desempenhar aquilo que fazem naturalmente. Estavam preocupados com as consequências.
Quem te convidou para a palestra?
Foi uma preparação mental a pedido do Abel Braga (então técnico do Inter). Eu não conhecia o Abel pessoalmente. Ele me acompanha, gosta dos meus textos e do roteiro de palestras.




