
O que você não tem mais que te entristece tanto? Essa é a primeira pergunta (das muitas) que Biá faz a Olívia. Junto da personagem, os leitores sentem um soco no estômago logo no começo de A Natureza da Mordida, romance guiado por esse e outros questionamentos difíceis de responder. Lançado em 2022 pela mineira Carla Madeira, o livro pulsa na fronteira entre a dor e a delicadeza.
Toda semana, um jornalista do Grupo RBS irá compartilhar na seção O que Estou Lendo a sua paixão por livros por meio de dicas do que estão lendo no momento.
A narrativa parte do encontro improvável entre Olívia, uma jovem jornalista tentando reorganizar o próprio luto, e Biá, uma psicanalista aposentada que já viu mais do que gostaria e que ainda sente dificuldade em elaborar algumas vivências.
As duas ficam amigas na banca de revistas de Rodolfo, em Belo Horizonte, e passam a se encontrar semanalmente para conversar. A autora guia o leitor por uma série de exposições íntimas de vulnerabilidade até o ponto em que revela os abandonos que conectam essas duas mulheres.
A troca de perspectivas evidencia o choque entre a clareza direta de Olívia e as recordações dispersas e, às vezes, poéticas que emergem da mente vacilante de Biá. Com a saúde já debilitada, a aposentada revisita episódios do passado em blocos de lembranças que surgem sem aviso, enquanto a jornalista tenta compreender o próprio vazio.
Questões universais, como a perda, a culpa e o peso das decisões difíceis, entrelaçam ambas.
Carla Madeira constrói um romance que não oferece conclusões prontas, mas prende justamente por expor as rachaduras das relações humanas, as memórias que insistem em voltar e os gestos corriqueiros carregados de significado.
O que torna a leitura tão envolvente é que a escritora não subestima o leitor e sustenta uma intensidade emocional constante, fazendo com que o livro reverbere na cabeça de quem lê até após ser fechado e posto na estante.

"A Natureza da Mordida", de Carla Madeira
- Record, 240 páginas, R$ 69,90 (livro físico) e R$ 14,90 (e-book)

