
A vida de Jussara Nunes Martins, 74 anos, confunde-se com a própria história da Feira do Livro. Natural de Porto Alegre, a livreira ostenta uma condição raramente encontrada na Praça da Alfândega: é a participante mais longeva, com 60 presenças em 71 edições do evento. Quando começou, tinha apenas 14 anos.
— O livro é como o sangue: penetra e a gente não quer sair nunca. Sempre digo: "vou parar, vou parar, vou parar", mas não consigo. Realmente amo o que faço, principalmente a parte infantil e juvenil — afirma a moradora do bairro Cavalhada.
Proprietária da Nunes Martins, localizada no espaço infantojuvenil da Feira do Livro, próximo à Rua Siqueira Campos, Jussara já chegou a ter duas bancas na Feira, sendo uma de livros variados na praça. A paixão pelas crianças, porém, a levou a manter apenas a atual.
Ao longo da temporada, a livreira participa de outros eventos com sua distribuidora, especialmente em escolas municipais. Nessas situações, amplia o leque de oferta de livros, não ficando apenas no gênero preferido. Conforme detalha, só não trabalha com obras didáticas. E o coração dela, como revela, está em tempos passados.
— Ainda gosto das feiras antigas. Convivi muito com Mario Quintana, que sentava em uma cadeirinha ao meu lado e reclamava: "E o meu livro, tu não tem aí?". As feiras que mais amava eram as que tinha o Quintana ao meu lado — recorda, sem esconder o carinho pelo poeta falecido em 1994.
A nossa banca pode ter os mesmos livros da banca da frente. Mas o atendimento é o mais importante.
JUSSARA NUNES MARTINS
Livreira
Começo na Livraria do Globo
Aos 14 anos, Jussara entrou para o mundo dos livros – e pode-se dizer que começou em grande estilo. Foi contratada pela Livraria do Globo, na Rua dos Andradas (antiga Rua da Praia), onde teve contato com nomes como Erico Verissimo, autor do clássico O Tempo e o Vento, e o próprio Mario Quintana, entre outras figuras representativas da literatura gaúcha.
— Sou da época da grande Livraria do Globo. A minha primeira feira foi através da Globo Distribuidora no Centro. Ali trabalhei 30 anos, lia muito e entrei direto no setor de livros infantis — conta Jussara, com orgulho.
Trabalhar durante três décadas na principal livraria da Capital possibilitou a Jussara ampliar seus conhecimentos no meio livreiro. Viajou pelo país inteiro, foi responsável pela compra de livros e exerceu diversas funções, tanto na livraria quanto na distribuidora.
— O ano que entrei na Globo foi o primeiro que vim para a Feira também. Depois que me aposentei, vim com a Nunes Martins — menciona.
Tempos modernos
Nessas seis décadas em meio aos livros, a grande transformação que Jussara testemunhou no mercado livreiro foi o surgimento da internet. A rede mundial de computadores impactou diretamente a relação dos leitores e consumidores com as obras físicas, conforme percebeu:
— A maior transformação foi a internet. Ela espanta um pouco os clientes. A criança já nasce com tablet e telefone na mão. A pandemia também afastou muito as pessoas do livro. Estamos tentando recuperar isso.
Jussara integra a diretoria da Câmara Rio-Grandense do Livro e participa da Comissão Organizadora da Feira do Livro. Ela gosta de ler romances e cita autores de sua preferência, como Sidney Sheldon e a atual patrona da Feira do Livro, além da colunista de Zero Hora, Martha Medeiros, cuja obra Poesia Reunida está lendo no momento.
Antigamente, a livreira afirma que chegava a ler três livros por semana. Agora, além do exemplar físico, também lê pelo celular. No dia a dia da Feira, atende o público ao lado de mais três familiares. Cada exemplar vendido é anotado em um caderninho, e o maior desconto oferecido em sua banca é de 15%.
Superação e determinação
Moradora da Rua Arroio Grande, na zona sul da Capital, Jussara foi uma das tantas pessoas impactadas pela enchente de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. A água chegou a 90 centímetros dentro de sua casa, atingindo os livros – poucos se salvaram intactos.
— Não deu tempo de salvar muita coisa. Perdi tudo o que tinha na parte de baixo da casa — diz.
Sem tempo para lamentos, Jussara tratou de seguir em frente com determinação. Continua participando de eventos literários e outras feiras com sua distribuidora de livros. É assim que tem passado os últimos anos.
Para os pais em busca de obras para os filhos, a livreira sugere as mais procuradas em sua banca no primeiro fim de semana do evento.
— Além do mais recente Diário de um Banana (série de livros infantis ilustrados do autor e cartunista Jeff Kinney), sugiro O Diário de uma Princesa Desastrada e Rabiscos de Florentia (ambos de Maidy Lacerda). Este é um livro para colorir tipo Bobbie Goods — explica.
Jussara compartilha o segredo para manter o leitor fiel ao seu espaço na Feira do Livro:
— A nossa banca pode ter os mesmos livros da banca da frente. Mas o atendimento é o mais importante. Estamos sempre conversando e perguntando se o cliente precisa de ajuda.



