A lista das 10 obras mais vendidas da 71ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre, divulgada no domingo (16), gerou uma curiosidade histórica. Em primeiro lugar está O Pequeno Príncipe, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, lançado em 1943. O curioso é que o livro também foi o mais vendido na primeira edição da Feira do Livro da Capital, em 1955.
Além da coincidência 70 anos depois, a relação é marcada pela presença de outros clássicos. A Metamorfose, de Franz Kafka, e Drácula, de Bram Stoker, também figuram na lista de 2025. Em relação aos autores, Fiódor Dostoiévski lidera, seguido por George Orwell.
A pesquisa foi feita por amostragem, conferindo o que os leitores levavam nas sacolas de compras. Foram 245.425 livros vendidos durante o evento. Mas, afinal, o que pode explicar O Pequeno Príncipe seguir como o mais vendido tantas décadas após a sua publicação?
Domínio público e facilidade para ler
O professor de Literatura Luís Augusto Fischer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), menciona que os dados divulgados na pesquisa por amostragem são "bastante confiáveis". Também escritor, o docente enumera algumas razões para o aparecimento dos clássicos na listagem desta edição:
— São livros clássicos, inclusive O Pequeno Príncipe e 1984 (de George Orwell) já estão em domínio público. Isso significa que só precisam ser traduzidos e não se paga direito autoral por eles. Isso é um dos fatores que faz com que haja muitas edições desses livros. E evidentemente são obras muito boas e já testadas pelo consumo ao longo de várias gerações.
Na avaliação do professor, O Pequeno Príncipe é um livro "muito agradável para um leitor com menos exigência intelectual."
— Não quero dizer que ele não seja um livro bom. É um livro muito bom. Ele é muito fácil de ler e é meio que o avô dos livros de autoajuda ou espiritualidade. Porque tem frases de efeito e pensamentos. Então, tem esse encanto e é uma leitura boa de fazer. Dá uma satisfação imediata para o leitor. O leitor lê e aquilo já é um alimento para a alma — explica.
Formador de leitores e fonte de inspiração
A professora de Literatura e Língua Portuguesa Izandra Alves, do campus de Feliz do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), cita a história de uma estudante que afirmou, durante uma entrevista de seleção, que se tornou leitora após ler O Pequeno Príncipe:
— Essa aluna assumiu um projeto no ano passado, logo após as enchentes, em uma escola municipal atingida por deslizamentos de terra aqui no Vale do Caí. Então, ela quis trabalhar com essa obra com os pequenos leitores, são alunos da 5ª série (do Ensino Fundamental). Ela desenvolveu um trabalho voltado para as questões ambientais com O Pequeno Príncipe.
A docente da IFRS acredita que a lista da Feira do Livro reflete uma sociedade que ainda precisa do que é "singelo." Segundo Izandra, a presença da criança como personagem central no livro, com questionamentos a adultos, provoca tanto os pequenos quanto os grandes leitores.
— É um livro curto, com capítulos curtos e de fácil entendimento. Tem a visão de uma criança, embora seja um adulto falando sobre a sua experiência de infância. É algo acessível a todos os públicos. Tanto adulto, adolescente quanto a criança conseguem transitar pela obra. E é um livro muito conhecido e falado. Todo mundo já ouviu falar em O Pequeno Príncipe e quem não leu quer saber do que se trata. E quem já leu acredita que revisitando vá descobrir algo novo — opina a professora.
Livro consagrado, com diferentes opções de preço e formatos
Para o presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Maximiliano Ledur, existe coerência na presença de O Pequeno Príncipe no primeiro lugar dessa relação. Conforme Ledur, trata-se de um "livro já consagrado", que transita entre todas as linguagens, tendo diversas opções de formato e preço. Para o livreiro, características da Feira do Livro da Capital também contribuem para essa situação.
— O nosso evento é longo, popular e de família. Os pais levam as crianças. Normalmente, o pai indica algum livro clássico que gostou. E O Pequeno Príncipe acaba tendo tudo isso em um livro só. Não vai ter erro, vai com mais assertividade na indicação de leitura para o filho — observa Ledur.
A curiosidade em torno de um título tão consagrado também funciona para alavancar a procura do público leitor pela obra atemporal de Saint-Exupéry.
— Para o jovem que não leu gera curiosidade, porque tantas frases são citadas por adultos e intelectuais. Esse livro tem uma disponibilidade maior por várias editoras com preços bem baratos. E é um livro de uma leitura moderna. É curto e um dos mais traduzidos no mundo. É muito coerente ele estar entre os mais vendidos em um evento tão popular como a Feira do Livro — conclui Ledur.
Veja ranking dos 10 livros mais vendidos na Feira do Livro:
- 1°) O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)
- 2°) O Segredo Final (Dan Brown)
- 3°) 1984 (George Orwell)
- 4°) Deixe ir (Fabrício Carpinejar)
- 5°) A Metamorfose (Franz Kafka)
- 6°) Drácula (Bram Stoker)
- 7°) A Revolução dos Bichos (George Orwell)
- 8°) O Diário de Anne Frank (Anne Frank)
- 9°) O Diário de um Banana: Festa Insana (Jeff Kinney)
- 10°) Orgulho e Preconceito (Jane Austen)
Veja ranking dos autores mais vendidos na Feira do Livro:
- 1°) Fiódor Dostoiévski
- 2°) George Orwell
- 3°) Franz Kafka
- 4°) Agatha Cristie
- 5°) Jane Austen
- 6°) Martha Medeiros
- 7°) Dan Brown
- 8°) Antoine de Saint-Exupéry
- 9°) Fabrício Carpinejar
- 10°) Bram Stoker




