
Na parede do segundo andar da Casa da Memória, um grande quadro horizontal está estampado com uma foto emblemática de Erico Verissimo (1905-1975), tirada por Leonid Streliaev. A imagem vem acompanhada de uma frase do aclamado autor gaúcho: "Nunca fiz segredo disso: o que sou mesmo no fundo é um pintor frustrado que, não possuindo talento para bem lidar com o pincel e as tintas, procura pintar com palavras".
Esta relação de Verissimo com as artes visuais foi o ponto de partida para a montagem da exposição Erico – Entre Linhas e Afetos. A mostra, que será inaugurada nesta quarta-feira (19) e segue com visitação aberta até o dia 22 de dezembro, tem como objetivo evidenciar como a criação literária encontra ressonâncias na arte. Mas, também, vai além.
São 20 obras expostas. Destas, 13 cedidas pela família Verissimo, entre presentes de amigos e trabalhos do próprio autor, e outras sete oriundas do acervo de Oscar Faedrich. Este último é filho de Nelson Boeira Faedrich, artista parceiro de Erico e responsável, entre outras, pelas ilustrações da edição histórica de 1985 de O Tempo e o Vento — e são justamente algumas destas artes, originais, que estão presentes na mostra.
— Essas obras, como pinturas, desenhos e gravuras, demonstram uma relação diferenciada do escritor com a arte. Erico também produziu algumas obras, como desenhos e ilustrações, eventualmente. E o público ainda não teve um acesso mais direto a esses trabalhos. Então, na mostra, temos quatro desenhos produzidos pelo Erico, que conversam com as obras de seus amigos — afirma o curador Marco Aurelio Biermann Pinto.
Aquarelas e letras
Um dos mestres das artes visuais do Brasil, o bageense Glauco Rodrigues foi próximo de Erico. Inclusive, as aquarelas que abriam a minissérie O Tempo e o Vento (1985) surgiram do pincel do artista.
Por isso, Entre Linhas e Afetos conta com dois trabalhos de Glauco, retratando paisagens do Rio Grande do Sul e entrelaçando os legados dos dois nomes que, além de expoentes do Estado, eram amigos.
— As obras, todas, são originais. Peças raras. Mas também temos reproduções, por exemplo, da Revista do Globo, onde o Erico trabalhou. Um exemplar em questão traz uma capa que o Erico fez, lá na década de 1930, como ilustrador — conta José Francisco Alves, também curador da mostra.
A exposição ainda abriga uma pintura em madeira de 72 centímetros realizada por Erico, na qual o autor mostra a sua veia artística colocando vários personagens lado a lado. A peça fica em destaque, quase solitária, em um cavalete, convidando o visitante a dedicar algum tempo para apreciar os detalhes do trabalho.
Além disso, a mostra apresenta algumas edições de livros e revistas das quais Erico foi autor ou, então colaborou, mas que não ficaram tão famosos quanto O Tempo e o Vento, entre outros títulos de sucesso. Um dos itens mais interessantes apontados pelos curadores é um manuscrito original de A Volta do Gato Preto, publicado em 1947. O item, que é raro, pertence à coleção do médico e escritor Gilberto Schwartzman.
— Esses manuscritos originais servem para que o público possa ver como o Erico trabalhava. Esse manuscrito, por exemplo, está todo riscado, com um microdesenho. E tem também o livro pronto. É uma coisa uma coisa muito bacana de se ver — observa Alves. — Essa exposição, então, tem um olhar diferente sobre o Erico, que é o nosso intelectual e escritor mais lido e traduzido da história do Rio Grande do Sul — completa.
A mostra, que é uma realização da Casa da Memória Unimed e do Acervo Literário Erico Verissimo, pode ser visitada gratuitamente, de segunda a sexta-feira, das 13h às 18h. O projeto integra o Festival Legado, parceira com o Theatro São Pedro e com a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, celebrando os 120 anos de nascimento do autor e homenageando o meio século de sua morte.
Erico – Entre Linhas e Afetos
- Onde: Casa da Memória Unimed (Rua Santa Terezinha, 263 – Farroupilha), em Porto Alegre.
- Quando: de 19 de novembro a 22 de dezembro, com visitação de segunda a sexta-feira, das 13h às 18h.
- Quanto: entrada gratuita
- Programação especial: em 25 de novembro, às 19h, haverá um painel sobre Thomas Mann e Erico Verissimo, com certificado e inscrição gratuita pelo e-mail memoria@unimedrs.coop.br. Já em 4 de dezembro, às 10h, ocorrerá uma conversa com Paula Ramos e Fernanda Verissimo.



