Esta reportagem foi produzida por Evelise Machado, aluna de Jornalismo na UFRGS e uma das cinco vencedoras da edição 2025 do projeto Primeira Pauta RBS
As mãos delineiam o ar como formas em constante transformação. O rosto expressa como quem sente o ímpeto de transbordar o que habita o seu âmago. Combustão de sentidos que incendeia o silêncio.
Reza o ditado popular que o “silêncio fala mais que mil palavras”. Para Rodrigo Pereira, poeta e professor surdo, a afirmação não poderia ser mais precisa. Aos 32 anos, o único poeta negro surdo em atividade no Rio Grande do Sul afirma que encontrou na Poesia Surda uma forma de reafirmar sua identidade.
— Eu sou muito orgulhoso de ser surdo, e a poesia me permite mostrar quem eu sou e quais são as minhas experiências — conta sinalizando.
A fala do poeta ecoa o desejo de afirmar identidades e ampliar os horizontes da Literatura Surda, ainda pouco conhecida pelo público ouvinte.
Desde 1955, Porto Alegre reserva, anualmente, o mês de novembro para celebrar a literatura. A Feira do Livro de Porto Alegre — já em sua 71ª edição — é o maior e mais tradicional evento literário do Rio Grande do Sul e busca fomentar o comércio livreiro local, aproximar leitores e autores e oferecer uma ampla programação cultural ao longo de mais de duas semanas.
Mas, quando todos os olhares se voltam para a literatura, que espaço é destinado às pessoas surdas?
O que é a Literatura Surda?
Visualidade e vivências são algumas das características mais notáveis da Literatura Surda. Ela não se restringe na produção em Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas evidencia a comunicação visual. Busca colocar o sujeito surdo, seu idioma e suas vivências como protagonistas da narrativa, conforme explica o professor de Libras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Vinicius Martins Flores:
— É importante reconhecer o que esses sujeitos surdos têm em comum: a grande maioria vem de famílias ouvintes, que não sabem a língua de sinais. Então esse tipo de literatura busca abranger exatamente essas experiências, vivências e marcas da comunidade, e sempre, de alguma forma, colocando a língua de sinais como algo especial.
O primeiro registro de publicação de Literatura Surda no Brasil na data de 1997 se refere ao livro infantojuvenil Uma Menina Chamada Kauana, republicado dois anos após seu lançamento original, com a escrita da Libras incluída em suas páginas. Conforme Flores, os primeiros livros acessíveis à Comunidade Surda referem-se à tradução de obras já existentes.
O surgimento de editoras que trabalham com material em vídeo, como a LSB Videos e a Arara Azul, foi o primeiro passo na ampliação da circulação de literatura para a população surda. No entanto, é com a ascensão da plataforma de vídeos YouTube que esse acesso se torna democratizado.
— O YouTube acaba sendo um lugar em que a Comunidade Surda transita muito. Diferentemente de quem trabalha com livros e aprende a fazer formatação de páginas, o surdo aprende a editar vídeos — reflete o professor.
A literatura é de todos?
Momento ápice da literatura entre os gaúchos, a Feira do Livro de Porto Alegre vem tentando se tornar mais inclusiva. A coordenação do evento diz que a acessibilidade é um compromisso constante.
— Há pelo menos 20 anos existe a Estação da Acessibilidade, e cada vez conseguimos trazer mais novidades e parcerias — diz o presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Maximiliano Ledur.
Segundo ele, todas as salas em que ocorrem eventos da feira, hoje, contam com recursos de acessibilidade e são adaptadas para receber todos os públicos com qualquer tipo de deficiência. Além disso, Ledur salienta que o espaço é aberto a todos os autores que queiram participar.
Entre mais de 650 atividades da programação, cerca de 30 têm tradução simultânea em Libras confirmadas — em geral, peças infantis e apresentações previamente solicitadas pelo público. Pelo menos dez intérpretes se dividem entre as atividades. A feira também possibilita que visitantes solicitem tradução simultânea para eventos específicos, e possui um intérprete de plantão para atender demandas inesperadas.
As ações de acessibilidade mostram progresso, mas também evidenciam limites. Apesar de avanços na estrutura física e na oferta de intérpretes, conforme a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), a Feira do Livro ainda não é vista como um evento realmente convidativo para o público surdo. Segundo a entidade, que representa a Comunidade Surda a nível nacional, existe uma “lamentável falta de consulta” sobre possíveis temas de interesse do público surdo.
— Há um pensamento equivocado de que o público surdo só se interessa por temas na área da deficiência. Os surdos possuem muitas produções acadêmicas, literárias e culturais — afirma Maria Cristina Laguna, um dos nomes que compõem a entidade.
Pequenos passos
O cenário se trata, no entanto, de um reflexo social e histórico. O professor Vinicius Flores diz que a Literatura Surda ainda circula pouco em eventos literários porque a própria história da Libras e a legislação dela são recentes.
— Foram cem anos de proibição da língua de sinais no Brasil. A produção literária está caminhando junto com a conquista de direitos — lembra.
Somente em 2002, a partir da sanção da Lei de Libras, o idioma passou a ser reconhecido legalmente. Mais recente ainda foi o estabelecimento dos parâmetros de definição da deficiência auditiva, em 2023. Por isso, a luta da Comunidade Surda por espaços continua constante.
Para o poeta, ainda são raros os eventos culturais que contemplam, de fato, a presença de pessoas surdas. Na maioria das vezes, essas ações partem da própria comunidade, já que a cultura surda segue pouco conhecida entre os ouvintes.
— Os ouvintes ainda não conhecem o nosso mundo. A maior parte dos convites que recebo vem de escolas ou de associações de surdos. É raro um grande evento cultural chamar artistas surdos para se apresentar —afirma Pereira.
Projeto Corpo Significante
A Literatura Surda, no entanto, segue encontrando nas redes e em projetos independentes espaços de criação e pertencimento. Um desses exemplos é o projeto Corpo Significante, idealizado pela artista Laura Moreira e financiado pela Lei Paulo Gustavo.
O projeto nasceu do desejo de ampliar o diálogo entre arte e Comunidade Surda, oferecendo a jovens surdos um espaço para protagonizar oficinas e experiências artísticas. Dividido em três atos, o Corpo Significante propôs um laboratório de artes visuais e artes do corpo. O professor mediador e intérprete do projeto, Ruan de Carvalho, afirma:
— O mais importante do projeto foi pensar todas as atividades de modo que os estudantes surdos se sentissem protagonistas do processo artístico.
A ideia do projeto foi ofertar ferramentas artísticas para o desenvolvimento das artes. A atividade culminou em uma exposição dos trabalhos desenvolvidos no Espaço Força e Luz e, posteriormente, na publicação do livro "Setas” como meio de divulgação das criações dos participantes e de publicação de reflexões.
Iniciativas como essa, amparadas por políticas públicas de fomento, garantem o reconhecimento e a autonomia da Arte Surda, ainda ausente nos grandes espaços, mas pulsante nas margens, como defende Carvalho:
— A Arte Surda precisa ocupar museus e galerias, ser valorizada enquanto identidade e enquanto língua, e enriquecer uma cena artística que ainda desconhece sua potência.
A Literatura Surda busca pelo seu espaço e reconhecimento. Apesar dos avanços em acessibilidade, a presença de surdos ainda é limitada em eventos culturais. Artistas como o poeta Rodrigo Pereira e projetos como o Corpo Significante mostram que há produção e interesse, mas falta espaço. O desafio é fazer com que essas vozes — ou melhor, mãos — ocupem de forma permanente os mesmos palcos, páginas e galerias que já abrigam outras formas de expressão.

