Ao colocarem as cidades nas páginas dos livros, escritores e escritoras tornam a literatura um acesso para compreendê-las.
A representação literária capta, tal como uma fotografia, um instante de um determinado momento histórico. A narrativa, então, apresenta as sensibilidades e as percepções de eventuais mudanças em curso, sejam elas de qualquer natureza, apresentando um aspecto da vida social do que poderia ter sido, do que pode vir a ser.
A primeira reinvenção literária de Porto Alegre se deu 75 anos após a fundação da cidade. Foi em 1847, ano em que Antônio Vale Caldre Fião publicou A Divina Pastora. Nessa obra, o autor narra a história de amor não realizado entre os primos Edélia e Almênio. A trama se passa na época da Revolução Farroupilha (1835-1845), ferida então aberta na sociedade gaúcha.

Almênio, inclinado a lutar ao lado dos Farrapos, perde o amor da prima. E acaba comprometido com Clarinda, filha de migrantes vindos do Vale do Rio dos Sinos. Ele decide mudar de lado na esperança de reencontrar seu verdadeiro amor, mas já é tarde: Edélia se envolvera com Francisco, o vilão. A descrição dos fatos tem como pano de fundo, aponta o professor e historiador Flávio Loureiro Chaves, em Matéria e Invenção: Ensaios de Literatura, áreas à época rurais e que hoje correspondem aos bairros Cascata e Belém Velho.
Ora, sabe-se que a arte literária é capaz de instigar reflexões históricas e sociais sobre determinado tempo em um determinado lugar. Nessa perspectiva, Caldre Fião é precursor de uma linhagem de escritores que têm na cidade um objeto de ficcionalização, ou uma musa literária. Depois dele vieram, entre outros e outras, Erico Verissimo, Dyonélio Machado, Moacyr Scliar, Luiz Antônio de Assis Brasil, Charles Kiefer, Daniel Galera, Paulo Scott e José Falero.



